Sábado, 12 de Outubro de 2019 - 11:04

O profeta de chuvas

por Helenita Monte de Hollanda

O profeta de chuvas
Foto: Acervo pessoal

Em andanças pelo Nordeste tenho tido contato com tipos humanos inesquecíveis que me regalam com seus saberes e alegram a minha alma que se anima no conhecimento do novo e no contato com identidades culturais próprias.

 

Presentes em toda região, profetas de chuvas são pessoas dotadas de um dom especial para perceber na natureza sinais do tempo - de chuva ou de seca.

 

No Distrito de Palma, em Caicó, no Rio Grande do Norte, vive um dos mais afamados desses conhecedores do tempo - Seu Chico Elpídio, homem de grande sabedoria e cheio de dizeres sobre aquilo a que se dedica a vida inteira, a Natureza, e com quem como que dialoga na compreensão de uma fala silenciosa a que é sensível e traduz para nós em previsões certeiras, que causam espanto até que ele mesmo, numa linha de pensamento e compreensão lógica, revele a complexa linguagem que entende como poucos.

 

A natureza "fala"! A vegetação da caatinga é, para ele, verdadeiro almanaque a esclarecer inclinações meteorológicas. O enbranquiçamento da ponta do xique-xique, os brotos da jurema e uma seiva a chorar do angico sinalizam chuva certa. Também justifica provérbios que traduzem a sabedoria humana fruto de observações atentas e cuidadosas - "lua nova trovejada (em) sete dias é molhada", assim como "névoa na serra (é sinal de) chuva na terra". Vento vindo do poente, três dias, vai molhar a terra.

 

O comportamento de animais também permite a previsão do tempo: a siriema dança para o acasalamento, os teiús saem de suas tocas, os cupins reforçam a estrutura de suas "casas" para resistir a chuvas, as abelhas se reproduzem e as rainhas criam novas colmeias e as temidas lagartas podem ser bom sinal de que águas cairão por ali.

 

É o mestre, em sintonia com a natureza, nos surpreendendo pela sabedoria herdada de ancestrais indígenas - Canindés, certamente - e das suas longas horas de intimidade com a vida na caatinga.

 

 

 

O papafigo

 

Homens e mulheres pálidos, condenados por doenças hepáticas ou do sangue, estão na origem do mito que coloca caçadores e comedores de fígado humano entre as histórias mais populares a causar temores em crianças e outros ingênuos.

 

Leprosos, melancólicos, coléricos, anémicos... Menos maldosos que temerosos com o morrer, os papas-figos são pessoas temidas de hábitos marcantemente noturnos. Homens a carregarem sacos nas costas para recolherem crianças em horas de fazer-medo. Mulheres amarelecidas por males de humores apavorando a meninada.

 

Na Cidade de Natal a Viúva Machado sempre trancafiada em seu palacete próximo a Igreja do Rosário, hermética em sua solidão enlutada e sem filhos, na Cidade Alta, é marca do nosso medo infantil, adolescente - nunca andar em bicicleta nem correrias ruidosas naquelas calçadas.

 

Nosso neto, menino hoje em seus 12 anos, conheceu pela avó materna o temor ao Homem do Saco, um tal Velho Quinquim, de quem eu o protegia, criança com olhos arregalados.

 

É mito abrangente encontrado em vários países e traz na Lepra uma justificativa universal para instalar-se, sendo crença popular que os leprosos encontrariam cura em receituário peculiar feito a partir de fígados de criança, daí os mercadores de fígados e o comércio franco e assustador de vísceras entre os doentes a estabelecer lenda urbana nacionalmente tão marcante.

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