Sábado, 05 de Outubro de 2019 - 05:06

Velho lobo faminto

por Carlos Ribeiro

Velho lobo faminto
Foto: Acervo pessoal

Recostada no parapeito da janela do apartamento, no Cabula, Heloísa pensa, com uma ponta de desgosto, no ex-marido, Armando. Ele havia ligado novamente, como fazia todas as sextas-feiras, há exatos três anos, sete meses e 25 dias. Estava, mais uma vez, de porre. Insistiu que precisava vê-la. Chegou a uivar de tristeza ao telefone. Disse, como de costume, que ela era uma ingrata. Uma desalmada. Então era assim? Ignorar todo o passado? Depois de 45 anos de felicidade conjugal, destruir, sem mais nem menos, tudo o que construíram juntos?

 

Heloísa levantou as sobrancelhas. Pobre Armando. A solidão o faz delirar. Reclama que o filho não quer mais vê-lo, que o despreza. A ele, seu próprio pai! E chega sempre à mesma conclusão: você é a única culpada, Heloísa! A única culpada!

 

Mas foram mesmo 45 anos?, ela pensa. “Deixa ver... Eu era quase criança quando nos conhecemos. Tinha 15 anos. Ele, 20. Pediu minha mão, ao meu pai, com a voz empostada de locutor de rádio. Parecia o Newton Spínola Cardoso, nos velhos tempos da Rádio Cultura, no Campo Grande. Conquistou minha mãe com flores; minha avó, com toalhas de tricô. Revirou meio mundo e não descansou até conseguir me botar sob seus cuidados.

 

Foram bons aqueles tempos? Sim, admite Heloísa. Já havia esgotado os últimos dias de inocência, na companhia dos pais (era filha única), numa tranqüila rua do Bonfim, onde o tempo havia parado. Depois do casamento, na Igreja dos Órfãos de São Joaquim, mudou-se para o Barbalho. Era o início dos anos 50. Armando tinha os cabelos pretos, lisos, penteados para trás e um bigode fino. Tinha a elegância e a suavidade que, durante anos, a encantaram, mas que hoje, olhando retrospectivamente, possuíam um não-sei-o-quê de vigarice.

 

Heloísa mergulha, sem perceber, numa penumbra cada vez mais densa. A atmosfera ao redor dela fica mais carregada. Recorda que, durante muitos anos, tomara como um gesto de amor aquela insistência dele em não deixá-la estudar. E sempre que falava em trabalhar, ele dizia: “Para que, meu bem? Esta cabecinha não foi feita por Deus para se gastar com esforços inúteis”.

 

Heloísa levanta as sobrancelhas, move a boca e o rosto, como se estivesse, frente a frente, com Armando. “Lembra-se do que você disse quando, anos depois, comuniquei a intenção de fazer o vestibular? “Só se for para pilotar fogão!”. Já havíamos entrado na fase das piadinhas. Eu havia engordado um pouco. Já tinha varizes, celulite, algumas rugas. Os filhos estavam grandes. Foi nessa época que você deu para trabalhar, como um condenado. Chegava tarde, dormia fora. Tantos compromissos! Até que não pôde mais negar seu envolvimento com Dayse. Ou era Joyce? Ou Evelyn? Não lembro. Sei apenas que tinha um ipsilone no meio. E que ela tinha 16 anos quando engravidou. Foi quando você declarou que não podia trair seu coração. Será possível que eu não podia entender uma coisa tão simples?”

 

“Sim, eu entendo, claro. Mas querer ficar com a casa. Querer me botar no olho da rua. Me ameaçar com um revólver. Querer me bater – ao ponto do nosso filho, já então um homem, lhe agarrar pelo pescoço e lhe ameaçar, que não ousasse mais nunca tocar as mãos em mim?”

 

“Coitado. Você não imagina como ele sofreu com isto. Por ser obrigado a ameaçar o próprio pai. Você ainda quis tomar a casa na Justiça, mas perdeu, mais uma vez. Teve que alugar um quarto-e-sala na Piedade, até que, há exatamente três anos, sete meses e 25 dias, a menina o trocou por um personal trainer. Foi aí que você deu pra ficar rondando os bares, como um velho lobo faminto, assombrando a vizinhança com seus uivos, a me telefonar no meio das noites de sexta-feira dizendo que eu sou a culpada. E querendo voltar...”

 

“Mas voltar para onde, Armando? Não existe lugar para onde voltar. Sabe aquela frase do Millôr Fernandes? ‘As pessoas que se separam por incompatibilidades na vida conjugal, mais cedo ou mais tarde descobrem que são incompatíveis sozinhas’. Acho que somos assim”.

 

Tudo bem, dona Heloísa. Como disse o velho poeta Carlos Anísio Melhor, essa terra São ossos, em flores transformados. São luzes gritando em pura, Solene solidão. E tudo, flores ou ossos, termina voltando ao pó, não é mesmo? E ao silêncio maior do esquecimento.

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