Sábado, 28 de Setembro de 2019 - 05:01

Memórias da guerra do Vietnam

por Carlos Navarro Filho

Memórias da guerra do Vietnam
Foto: Acervo pessoal

O túnel tem pouco mais de um metro de altura, não mais que sessenta centímetros de largura, e me locomovo engatinhando com destino à próxima saída. Faz calor, é muito escuro, um breu. A passagem subterrânea é arredondada e desconfortável. A saída à qual me destino está a uns bons oitenta metros e o facho de luz da lanterninha de mineiro, que ajeitei sobre o boné, mal ilumina a bunda da pessoa que também se arrasta à minha frente, a uns três metros de distância.

 

Logo percebi que aquela aventura não demoraria a perder a graça, justo eu que me arvorei a corajoso exibindo-me para a família e uns amigos vietnamitas feitos de última hora para servir de guia naqueles labirintos subterrâneos. Um deles, que parecia andar acocorado um pouco atrás, a todo momento pedia calma em um inglês tão macarrônico quanto o meu.

 

À medida que ia molhando a roupa de suor aumentava a gastura que sentia e passei a esconder bravamente, não ficaria bem aquela demonstração de fraqueza. Respirei fundo, tomei um gole de uísque do meu cantil de bolso para manter a calma e continuei cabeça erguida e peito arfante. Só que, de repente, ouço explosões, o bombardeio. O barulho surdo das bombas faziam o chão tremer, caiam pedaços de barro das paredes laterais, o teto começou a trincar e logo a seguir desabar.

 

As pessoas morriam que nem formigas esmagadas, em meio a terrível gritaria de pânico, amontoadas em embrulhos disformes que tentaram se deslocar para frente ou para trás. No ar, aviões desciam do céu em voos rasantes e despejavam toneladas do “agente laranja” e as terríveis bombas de napalm para queimar e desfolhar a mata e expor as armadilhas dos vietcongues.

 

Eu apenas paralisei, duro, hirto, estático, nem tive tempo de alcançar o pequeno cantil no bolso lateral da bermuda para mais uma talagada. Também não fazia mais diferença, estava morto e para quem está morto acabou. O bombardeio durou terrível meia hora, de terríveis petardos explosivos destruindo tudo em cima da terra e naquele buraco horizontal a dois metros de profundidade. Quando por momentos cessavam os estrondos já não pensava, nada sentia. Morto não pensa.

 

Passou não sei quanto tempo, habituava-me a estar morto quando ouvi gritos “go, go,go” e ressuscitei com o guia puxando o meu pé. Só aí me toquei que já a uns vinte metros da saída, mas sem ver luz no fim do túnel, deu um branco e paralisei. O simpático guia, interessado em receber os seus dongs e ainda, quem sabe, alguma gorjeta em dólar, esperou paciente por algum tempo, mas depois cedeu às indagações que vinham de trás em voz alta, tipo “ o que está havendo”, “por que parou?”.

 

Era grande, a apreensão, a inquietação e mesmo a emoção de estar ali naqueles túneis de Cu Chi, nas proximidades de Saigon, hoje Cidade de Ho Chi Minh. Na minha adolescência criei e apresentei um programa de rádio, o Noticiário N-26, na cidade Alagoinhas onde morei e fiz política, na ZYN-26 a emissora local. E a base do programa era a guerra do Vietnam, com as notícias dos jornais do dia anterior, que encalhavam na banca de revistas do velho Solón.

 

Agora estava eu ali, quase meio século depois, circulando naquela maravilha de resistência de um povo franzino, pequena estatura e imensa coragem de enfrentar e derrotar a maior potência militar do planeta. É impressionante, tocante mesmo, circular naqueles túneis, verdadeiras obras de rebuscada engenharia, feitos com as mãos, argila e madeira, hoje exibidos com orgulho a turistas estrangeiros abobados com o que veem.

 

Além das inúmeras armadilhas na selva, são quilômetros e quilômetros túneis, cavados a profundidades diversas. A dois metros de profundidade eles são destinados a deslocamentos rápidos, mas estão expostos a bombas de maior poder de destruição. A cinco e sete metros ficam os túneis estratégicos. Neles funcionavam as alfaiatarias para confeccionar os uniformes, as funilarias e oficinas para construir armamentos, as cozinhas nas quais era preparado o racho dos guerrilheiros, as salas e estado maior. Ainda hoje as fotos e estátuas de cera exibem aqueles guerreiros de um metro e sessenta de altura média, pesando parcos cinquenta quilos, calçando sandálias de tiras de pneu que enfrentaram os altos, fortes e equipados marines.  

 

O sistema de túneis, cidades autossuficientes, obedecia a estratégias de guerra sofisticadas. A cada  vinte ou trinta metros havia respiradouros. Disfarçados sob folhagens, parecendo casas de cupim, serviam para ventilação e para dissipar a fumaça das cozinhas, que funcionavam sempre á noite até o amanhecer para disfarçar ao fumaça na neblina. Esses respiradouros situavam-se à uma distância apropriada das cozinhas. Quando descobertos e bombardeados, ou atacados com gás, água ou fumaça tóxica não causavam maiores danos. E os vietnamitas defendiam bem os respiradouros. Espalhavam uniformes de americanos mortos nas proximidades e os cachorros do inimigo passavam, farejavam e se guiam adiante. Ou então espalhavam pimenta moída e os cães recuavam na primeira farejada e não voltavam mais.

 

Os vietnamitas ganharam a guerra, mas em nenhum momento tripudiaram sobre o inimigo. Ao contrário o trataram com toda dignidade, como está escrito no edifício mais alto de Saigon em um painel descrevendo a rendição dos vencidos. E os vietnamitas perderam três milhões de homens, mulheres e crianças, enquanto os americanos quinhentos mil soldados.

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