Sábado, 31 de Agosto de 2019 - 05:06

A noite em que Severino não chorou

por Janio Ferreira Soares

A noite em que Severino não chorou
Foto: Acervo pessoal

O inverno, que em 2018 quase não deu as caras por essas bandas, este ano prossegue regando agosto e esperançando setembro, provocando um bem-vindo silêncio nos motores das bombas que margeiam o rio, para alegria dos ribeirinhos e do meu vizinho Severino, que desde maio viu sua conta da Coelba diminuir “bem uns 80 reais”.

 

No entanto, como garoa mansa é remédio amargo para corações partidos, ele reclama que ainda sofre por enfrentar o ventinho frio entrando pela cumeeira “sem nenhuma costela macia pra me esquentar”, numa clara alusão a companheira que o abandonou faltando poucos dias pra fogueira de São João.

 

Aproveito o embalo e lhe pergunto como vai sua vida desde então, e ele diz um “levando!” de uma forma tão pesadamente resignada, que é como se sua atual existência fosse um imenso fardo atado sob a lona da carroceria de um velho Fenemê gemendo lento na subida de uma serra, onde, depois da última lombada, o nome dela estaria escrito numa placa com a seta apontada pra curva à esquerda do seu coração.

 

Em vão, tento animá-lo falando que ouvi dizer que umas cabrochas lá da Rua do Fogo estão rebeirando seu quintal, e ele me diz um “pior é que tão mesmo!”, com um sorriso transitando entre a gabolice de se sentir desejado e a recorrente decepção de não por quem ele queria que fosse.

 

No auge da aflição, sabia de sua intensidade pelas músicas colocadas por ele num volume tal, que era como se fosse pra ela ouvi-las, mesmo “lá no raio que a parta!”. Assim, se o dia amanhecesse com Marília Mendonça dizendo que “a garrafa precisa do copo, o copo precisa da mesa, a mesa precisa de mim e eu preciso da cerveja”, era porque a noite tinha sido em claro e a “marvada” estava vadiando desde a hora em que fui dormir ao som do refrão: “quem eu quero não me quer, quem me quer não vou querer, ninguém vai sofrer sozinho, todo mundo vai sofrer”.

 

E foi justamente num desses virotes, que um amigo de copo lhe recomendou uma consulta com uma índia rezadeira da cidade pernambucana de Tacaratu, afamada por suavizar pálpebras bombardeadas pelo cruel esguicho da dor. Animado, ele então pegou o apurado do Severino’s Bar (estabelecimento que, ô desgraça!, funciona bem no oitão de sua casa) e aí pagou 100 reais pra um mototaxista percorrer os 150 km de ida e volta, e mais 300 pelas orações e por umas ervas e folhas para um caprichado banho bento.

 

Dias depois, o encontro catando verduras pra sopa de seu solitário jantar e procuro saber se a reza já tinha dado algum resultado prático, no que ele, com aquela característica própria dos que têm a crença exposta numa prateleira bem acima da gaveta onde repousa o bom senso, responde: “pelo menos essa noite eu não chorei”.

 

Ruminando essa citação digna de batizar um lento bolero, sigo meu caminho contemplando um avião Salvador-Fortaleza que todo fim de tarde passa sobre minha porteira faiscando o poente na sua fuselagem, quando ouço os primeiros acordes de Tortura de Amor, genial composição de Waldick Soriano, num volume que demonstra que as coisas parecem mais calmas onde antes campeava a dor.

 

Já em casa - e depois de ouvir várias vezes os versos da canção implorando um: “volta, meu amor, fica comigo, não me desprezes, a noite é nossa e meu amor pertence a ti” -, fui dormir com a nítida sensação de que, em breve, Severino enfrentará o forasteiro frio deste incomum agosto nos braços “daquela ingrata” que, como diz uma música do mesmo disco, o deixou com os olhos rasos d’água, e o coração cheio de mágoas, quase morrendo de amor.

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