Sábado, 24 de Agosto de 2019 - 05:01

Os falsos profetas

por Nilson Galvão

Os falsos profetas
Foto: Acervo pessoal

a mulher do abismo

 

a mulher do abismo vem 

até a borda infinita

de onde se vê o perímetro

urbano a perder de vista,

silhuetas de bandeirantes,

bandoleiros, criadores de

mundos. o abismo a seus

pés. ela tem vertigem como

todos têm, no entanto, é

a fúria de não arredar 

que lhe confere a nitidez

das grandes figuras

projetadas no chão, tão

longilíneas quanto alaranjadas,

a mulher do abismo se

veste de noiva e se casa

com um fauno por volta 

das cinco da

tarde.

 

 

 

 

olho entre as pernas da noite

 

olho entre as pernas da noite, ela

anda bem à vontade, nua que nem

nós, nua nua nua, vejo entre suas

pernas ela traz coisas que deus

duvida, a grande vulva devassada,

a viagem pra dentro que todos

fazemos, peregrinos a meca, a viagem de suor & lágrimas & sangue & baba,

sai baba, sai baba, a noite de

baciadas desse líquido espesso

de onde viemos para onde vamos,

entre as pernas da noite a

constelação: batizada pelos

astrólogos com o nome de uma

legendária prostituta da babilônia. 

 

 

 

 

um rastro

 

um rastro de migalhas

pela casa feito via crúcis 

via láctea via parafusos

na cachola do tempo esse

crônico maníaco, esse

pobre andarilho pela

casa, pelas infinidades da 

casa, pelas reentrâncias

da casa. um rastro de 

elefantes pela cozinha,

de elefantes leves feito

os átomos dançarinos

da epifania de chernobyl,

feito as novecentas caras

do anjo exterminador

com sua espada pingando

sangue: das vítimas 

inocentes da ira de.

 

 

 

 

uma lembrança vaga

 

da janela paisagens

mutantes pois o tempo

muda. azul entre nuvens,

azul de brigadeiro, chumbo

grosso, vermelho-marte,

laranja-dos-lamas-tibetanos.

da janela, que lembrança 

vaga: sem amarras no tempo, 

sem tempo sequer pra

pensar: uma lembrança

vaga sem dono.

 

 

 

 

os que dormem

 

os que dormem com os

anjos, e os que têm medo

de altura, os que dormem

com os demônios, e os

que têm claustrofobia,

os que dormem com as

fadas, e os que têm

alergia, os que dormem

com as ninfas, e os que

têm essa mania: de nada

de necas de dormir 

como dormem - e como

dormem - os que 

dormem.

 

 

 

 

coelhos e buracos

 

a verdade é uma só,

mas ela se reproduz com

tanta facilidade, uma

ninhada de filhotes

que por sua vez em 

breve se desdobrarão

também. feito coelhos

a povoar os arredores e a

multiplicar os buracos

a nossa volta.

 

 

 

 

os falsos profetas

 

os falsos profetas do fim

de linha de brotas da

da pituba de coutos,

os falsos profetas do fim

de semana, os falsos

profetas do fim de

feira do fim de festa, os

falsos profetas do fim

da picada do fim do

caminho de são tiago

do fim da história do

fim da fila, os falsos

profetas do fim de

caso do fim das coisas

do fim do túnel, os 

falsos profetas afinal

de contas: o que

querem de nós? 

 

 

 

 

sempre é hoje

 

sempre é hoje em

toda parte, não há

ontem nem amanhã

em parte alguma.

aquela nossa viagem

pro litoral em que

seremos felizes

pra sempre: é hoje.

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