Sábado, 17 de Agosto de 2019 - 05:16

A República dos Mentecaptos

por Fernando Vita

A República dos Mentecaptos
Foto: Laís Vita

... entretanto, em Todavia nada parecia mudar a paisagem, os homens, as coisas. Sabe uma fotografia presa em uma moldura na parede, antiga, estática, amarelada, empalidecida pelo passar inexorável do tempo, ainda assim tão nítida em todos os seus contornos? É como sempre me chega às retinas aquele jeitão de canto esconso do mundo, onde eu, por uma dessas conjurações malditas dos fados, dei por bem – ou pior, por mal – de ser parido. Tão dessemelhante, a fotografia da minha terra na parede da memória, daquela outra do poema confessional de Drummond de Andrade, ai de ti, Todavia, se tivesses um tiquinho de nada que fosse do bucólico encanto da Itabira das Gerais do Carlos, não, não tens, mas como dói! Lá, na minha aldeia – eu ainda vejo no retrato desbotado que as poucas lembranças teimam em me trazer à alma - a mesma pasmaceira de sempre a embalar a existência dos seus moradores, de sorte que os dias e as noites parecem ser mais longos que as vinte e quatro horas que cabem nos dias e noites dos normais, só raramente esse vagar obtuso do tempo é quebrado por alguma novidade, algum sucesso, seja um que morre, outra que pare, aquele que chega, aquela que se vai, uma carta anônima posta sobre o breu das portas de um formidável qualquer a escrachar a sua reputação, a puta nova que chegou ao puteiro da Rua do Mija Gás ainda ontem à tardinha, uma intriga de comadres, um disse-me-disse de vizinhos, um bate-boca de políticos de ponta de rua, um padre a foder beatas, meninos a pedalar bicicletas, jegues a relinchar, porcos a chafurdar nos chiqueiros, velhos peidorreiros a cochilar em espreguiçadeiras nas calçadas, bêbados a se embebedar, senis de variadas cores e idades a falar sozinhos,  poetas sem rimas a versejar sonetos, esses tipos de acontecimentos  comuns a qualquer cidade pequena, mais comuns e singulares, contudo, em Todavia, parece que Deus ou o Diabo, talvez os dois juntos em sinistro e raro conluio, em hora lá qualquer do marco zero da criação do mundo decidiram pôr naquele pedaço da terra uma gente obtusa, dedicadamente dada às artes do leva e traz, da intriga e da futrica, da boataria bem urdida e da sordidez sem pecado e, como se pouca desgraça isso ainda fosse, deu-lhes pendores e afinidades ímpares para rezar em missas, chorar em velórios, cantar em procissões e acompanhar enterros, não necessariamente nessa ordem, de quebra, ainda, a dupla Diabo e Deus determinou, com a força de mil pragas de mãe, vai, rebanho de pigmeus, corja de fariseus, entulho do entulho da humanidade, estrume do estrume do cagar de todos os povos e nações, habitar Todavia, até que o fim dos seus dias favoreça aos que aqui ficam com as suas olvidáveis ausências.

 

Dito o que, não preciso esperdiçar muito verbo para explicar-lhe porque, mal saído dos cueiros, primeiros pentelhos a despontar nos baixios do ventre, gala de menino ainda rala e inútil à multiplicação da espécie a lambuzar o cabeçote cor púrpura escarlate do pau, juntei o pouco que tinha ao muito de vontade de sair daquele cu de mundo e me fui, me piquei, peguei o trem do horário na velha estação, passei por Nazaré das Farinhas, entornei um copo de mingau de puba na breve parada do comboio no Caboto – a claudicante locomotiva inglesa também carecia da sustança de mais lenha e água nas entranhas para seguir viagem -, fiz baldeação para o vapor em São Roque do Paraguaçu, cruzei o mar bravio da Meia-Travessa e, quando dei por mim, Baía de Todos os Santos devidamente esquadrinhada à noitinha, eis-me em São Salvador da Bahia, reclames iluminados a gás neon da Bayer, da Coca Cola e da Suerdieck na Cidade Alta a refletir as suas luzes coloridas, tremeluzentes, nas águas da maré a dar-me as boas vindas, não tenho do que me queixar, juro, fodam-se os que não me seguiram, coitados, condenados a viver sob aquele céu quase sempre furta cor, aquele mormaço eternamente úmido como o da placenta da puta que os pariu, respirando aquele ar infestado de ignorância e falso saber e transpirando o suor catinguento dos que esperam, sentados, a morte.

 

Na ausência dos girassóis sobre os quais planearem seus voos, os urubus davam-se por felizes, pousados entre as palmas dos dendês centenários. Papa-capins contentavam-se em gorjear trololós sem graça. Uma freirinha com cara de santa puta de calendário e hábito preto e branco que a fazia semelhar a um pinguim carrega com vagar a sua indolência, como num filme de Fellini, por uma rua sem nexo de Todavia.

 

E nunca mais voltei lá...

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