Sábado, 10 de Agosto de 2019 - 05:09

A mística do rastro

por Helenita Monte de Hollanda

A mística do rastro
Foto: Acervo pessoal

Seguir o rastro de alguém é tomar para si a sorte do outro. Cuspir no rastro é insulto a exigir reparação. Da areia do rastro sai ingrediente para feitiços e mezinhas curadoras. Varrer o rastro é tirar da memória o pisante pisador a ser esquecido... São tantas as crenças envolvendo a marca da pisada humana que Câmara Cascudo conta de um padre potiguar que realizou um casamento apenas em presença da noiva e das marcas do noivo que "fugiu da raia" deixando, inevitavelmente, as pisadas denunciadoras na areia do terreiro da fazenda. Válido! Indissolúvel.

Cresci com a recomendação da minha vó e de Dinda: "Misericórdia, menina! Não siga rasto de quem nao se sabe o que leva no coração!" Celina, senhora cheia de saberes que conheci em 2002, na Bahia, conta que em seu tempo de menina em Ubatã os seus mais velhos já recomendavam não andar ninguém descalço pois a terra marcada pelo contato com o pé poderia ser usada para feitiços.

Entre os tabus estudados por Freud há anotação sobre os aborígenes australianos: "um homem não seguirá a sogra na praia até que a maré tenha subido e desfeito as suas pegadas na areia."

Em Tucano-Bahia, Pedro Santinho, rezador maior que tanto nos ensinou, mostrou-nos como de grande valia a “Reza da Barca de Noé”, riscada sobre o rastro de um sofredor de dor de dente e outros males - a cada passo, a subtração de uma letra e a aproximação da cura.

Dessas e de muitas crenças se alimenta a cultura popular universal. Daquilo que o homem entende, bem ou mal, constroi-se um saber que se propaga e que o traduz revelando nas entrelinhas das histórias e das estórias seus medos, e suas fantasias justificando tabus mitificando hábitos.

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