Sábado, 20 de Julho de 2019 - 05:10

Literatura africana

por Araken Vaz Galvão

Literatura africana
Desenho: Elias Santos

 

Continuando com minhas abordagens sobre alguns de romancistas africanos, chego a Ngugi wa Thiong’o, escritor queniano[1] de 81 anos, pertencente à etnia Quicuio; tenho a observar, segundo matéria publicada no jornal espanhol, eletrônico, El País (Brasil, de 20/04/2017). Que ele é um “[...] candidato eterno ao Prêmio Nobel [...]” o que me fez pensar logo: Tomara que ele ganhe este ano – não que considere este mirabolante prêmio muito importante, salvo pela quantia fabulosa de dinheiro que outorga (e por proporcionar que as editoras trogloditas[2] de nosso país, a iniciativa de colocar ao nosso alcance outras obras desse importante ficcionista, pois somente um dos seus livros, “Um Grau de Trigo”, foi publicado entre nós[3]. “Seus trabalhos” (porém), “incluem novelas, peças teatrais, contos e ensaios, da crítica social à literatura infantil, segundo se pode ver no texto publicitário do saite Estante Virtual. Ng?g? wa Thiong’o no entanto é – agora citando a matéria de El País – uma “[...] lenda viva das letras africanas” (porém, é também), “acusado como loquaz (pois), põe” (não sem razão) “em alto o nível sua literatura” (quiçá com muita pretensão – possível pecado ao qual eu, o autor deste texto, estou sempre a cometer) –, e, ademais “diz querer ‘competir’ com as obras de vários gênios, citando “García Márquez, Shakespeare, Tolstói...” Além de Cervantes, por exemplo, dizendo que “Esses são meus padrões”.

Ngugi wa Thiong’o, que completou 81 anos em janeiro, o que me levou, jocosamente, é claro, a considerá-lo um menino, pois vou cumprir 83 anos em maio deste mesmo ano (sem que ninguém tenha se lembrado de indicar meu nome para o Prêmio Nobel[4]). Porém, além de ótimo escritor, ele tece alguns comentários de sábio, ao dizer que “Só que, quando você chega aos 81 anos, a mente te diz ‘estou muito bem’, mas o corpo diz o contrário. Há um conflito entre a mente e o corpo. As mensagens que me mandam são muito diferentes”, detalhe que concordo plenamente. E como concordo! Ao ler esta conclusão Thiong’o tirou de mim um sorriso sardônico, porque amiúde tenho chegado a essa conclusão, tendo-a expressado aos meus amigos esta conclusão com minhsa palavras, o que me levam agora a citar o escritor queniano para dar, a essa amarga conclusão, foros de verdade.

Ngugi wa Thiong’o que, porém, como a maioria dos escritores negros africanos que li nos revela uma prática, muito comum aos escritores estadunidenses, de impregnar em suas obras conceitos extraídos da Bíblia (Novo e Velho Testamentos), o que não anula sua sagacidade, ao dizer: “Meu melhor livro é aquele que ainda não escrevi”. E essa sagacidade, atinge o grau de perspicácia, quando ele afirma, algo que o poeta e pensador mexicano Octavio Paz, enxergando por outro ângulo, já tinha abordado. Outro fato importante, é que Thiong’o fala de ter sentido o lático da dominação colonial em época bem mais recente do que a que Paz se referiu, quando disse similar ao que Thiong’o diz: “[...] E comecei a pensar sobre o tema das línguas na história, o fundamento colonial da desigualdade de poder entre as línguas. E me dei conta de um fenômeno muito interessante: ali onde havia um poder colonial, a primeira coisa que destrói ou controla é o idioma das pessoas. A língua é crucial para o colonialismo e o imperialismo. E eu quis escrever um romance na prisão no idioma Quicuio, como um exemplo da minha resistência. E escrevi meu primeiro romance, Caitaani m?tharaba-In? [publicado em inglês como Devil on the Cross, “O diabo na cruz”], em papel higiênico.” E isso me fez lembrar como as prisões (e os déspotas que as controlam) são parecidas. Reservando as devidas distâncias entre o gênio queniano e este baiano do sertão, lembrei que, nas prisões em que estive não havia papel higiénico, salvo jornal velho, o que me levou a praticar o ato de escrita em papel de cigarro. Pegava as carteiras, que aqueles que fumavam atiravam ao chão, abria-as cuidadosamente e escrevia (ou praticava escrever) no lado reverso, usando, inclusive aquele papel de prata que, segundo Fernando Pessoa é de estanho.

Ontem à noite (21/04/19) comecei a ler o única obra de Ngugi wa Thiong’o publicada em 1967, no Brasil, e essa referência não significa que deseje já me aventar em tecer comentários sobre este seu único livro – repito – publicado no Brasil, é que as suas páginas iniciais, considerando a estrutura narrativa – um dos detalhes da técnica de escrever que mais me impressiona –, impôs-me à necessidade premente de começar os comentários que desejo fazer sobre esta obra, citando algo que encontrei no Google, em uma resenha de Luiz Paulo Faccioli, feita sobre o livro “A Uruguaia”, do escritor argentino Pedro Mairal, em que é dito: “E mais uma vez esbarramos aqui no velho ponto de que a história é o que menos importa numa obra literária: importa a maneira como se conta a história.” Um mantra que venho repetindo, talvez com palavras um pouco diferentes, desde o dia em que, ao sair da prisão, declarei a dois outros amigos de cela: Vou escrever um livro. E ouvi como resposta de um dos companheiros de desdita: “Todo preso político, ao sair da prisão, diz isso”.

Mas eu escrevi e fiz vários, embora não creia que a maioria dos presos políticos, os dos Brasil, pelo menos, o tenha feito.

Ter feito uso, porém do enunciado de Faccioli, sobre a literatura ter por dever contar ou não uma história, porém tenha a obrigação de lançar mão de uma forma de contar muito engenhosa e atraente – dessa forma pensa o autor desta linhas – leva-me reafirmação, com minhas palavras (e com meu ponto de vista) de que será sempre necessário se ter uma história e, partindo dela, contá-la de modo que esse exercício em si, seja uma atração (até maior) para que a leitura seja levada a cabo com prazer. Fazendo uso de um texto que escrevi em outra ocasião, tendo feito algumas adaptações, confesso agora que...

 

Retomando o desenvolvimento do assunto principal, a obra de Thoing’o, quero dizer, em seu livro “Um grão de trigo”, seja por sua estrutura narrativa, pela forma com que as questões cronológicas são tratadas, nos conduzindo sutilmente a diferentes épocas entre o tempo da colonização e da atual independência, sem mudanças bruscas de personagens, fazendo uso, mais bem, dos mesmos personagens, só que em períodos diferentes da História, faz do romance senão uma obra-prima, pelo menos uma obra antológica, no sentido grego do termo. Às vezes dá a impressão, considerando a sutileza da narrativa, pois ela transcorre como se se tratasse de uma série de recordações esmaecidas, que aflora à mente do narrador, por meio das lembranças dos personagens, que retornam de um jeito espaçado, em algumas ocasiões de modo não desejado, aqui e ali, formando paulatinamente um todo envolvente, que força o leitor não parar de ler e, ao mesmo tempo desejar que o livro não termine. Para realizar tal proeza, Thoing’o não recorre a malabarismos verbais nem a artimanhas enganosas de sintaxe, ou mesmo lança mão de métodos ilusórios de pelotiqueiro, faz uso apenas do seu talento para atingir frontalmente nossa sensibilidade.                 

Acabei de receber (23/04/19), pelo correio, o livro de Chigozie Obioma, “Os Pescadores”, e surpreendi-me com o “elogio”, que ele era o “Caçado de pipas” africano. Mais além de que deteste este tipo de elogio – que fulano é bom porque é o Machado de Assis do século XX, por exemplo –, “O Caçador de pipas” não me agradou, porque em que pense, principalmente, aquele tipo de trama literária (inclusive as das obras de ficção), possam ser um meio de se denunciar injustiças sociais, não me convence, inclusive me parece que o uso de um estupro infantil seja muito mais uma matéria para ser usada – para denúncia ou sensacionalismo (nos tabloides) do que matéria-prima para ficção literária. Aliás, este tipo de assunto, em quaisquer situações, ao evidenciar minha impotência frente a brutalidade humana, repugna-me, até mesmo por tudo que passei ao iludir-me que poderia contribuir para mudar o mundo ou as mentalidades que o regem. E mais, esse tipo de assunto, não só me repugna, como não me proporciona, com sua abordagem literária nenhum deleite estético, busca que faço em toda obra de arte. Quando a usam, veja-a – e quase nunca estou enganado –, mais bem, como uma apelação barata (além de me dizer que o ser humano, em sua maioria, é o mais vil dos animais vivos), fecho o livro – como o fiz com a obra “Fogo Fátuo” de Pierre Drieu La Rochelle (1893-1945) e com “O Caçador de pipas”, de Khaled Hosseini, escritor afegão, por exemplo. E fui para um canal pago da TV, e ver mais uma vez o mesmo material sobre o comportamento dos bichos na África, com o cuidado de assegurar-me que não se tratava de matéria que mostrava carnívoros despedaçando herbívoros. O meu açougueiro já exercita essa atividade, sem minha participação – apenas com minha distante cumplicidade, pois sou carnívoro tradicional –, pois não vou aos açougues assistir a se destripar aninais, por isso, enquanto trato de comer meu bife, o faço sem estar pensando no sacrifício do boi, do carneiro, do frango, porque não só a vida já é muito violenta, como eu próprio já passei por situações muito dolorosas para estar me comprazendo com as desgraças que me rodeiam.

Há outro pormenor, pairando em minha mente como uma espécie de má literatura anunciada, algo muito comum nas obras dos escritores dos Estados Unidos, a utilização de situações bíblicas[5] como base para tramas narrativas. Ao que os dados da divulgação publicitárias do livro anunciam como baseado no mito de Caim e Abel. Isso não me agrada para nada. Se desejo algo da Bíblia vou diretamente a fonte básica, e não em seus pastichos, que resultam ser as obras baseadas em temas do livro sagrado dos Hebreus e de algumas religiões do Ocidente. Este livro de Thoing’o não foge à regra – desagradável, em meu entender – em determinado ponto, próximo a seu clímax, aparece a passagem de Abrão e Isac, construindo mais uma óbvia parábola e metáfora para tornar aceitáveis suas tramas. Sendo que no caso do livro de Thoing’o este recurso seria perfeitamente dispensável. Vou creditar, porém, o emprego desse meio às mazelas do colonialismo, até certo ponto natural, pois para melhor dominarem, além da espada, tiveram antes de fazer uso dos missionários; e esses, por suas tacanhas visões do mundo, das diferentes formas de se viver e de se interpretar o comportamento humano frente ao modo como outros povos escolheram para subsistir em naturezas rústicas ou mesmo hostis. Por suas próprias estreitezas mentais, bradavam: Demônio, obra do demônio, porque afinal o inferno é os outros, conforme afirmou Sartre. Os diferentes estigmas criados com essas advertências, no fundo supersticiosas – só que de um tipo de superstição de outro nível – jamais abandonaram o homem colonizado, cuja superstição se dizia combater, basta ver o que sucede ainda hoje entre nós. Ou em países de alto índice de escolaridade, como os Estados Unidos.

 

[1] Antes de chegar à obra de Thoing’o, tentei consultar a obra de Wole Soyinka – primeiro autor negro a receber o famoso prêmio Nobel –, sendo, porém, ao que parece, mais aquinhoado, pois existe três livros seus em português, assim mesmo, em livraria de usados, os sebos, não importando muito este detalhe, o que importa é que possamos adquiri-los.

[2] Ou dinosâuricas, melhor dito, e por isso estão em fase de extinção.  

[3] Vejo, agora (22/04/19) que estou equivocado, há, em português outro, livro dele, “Sonhos em tempo de guerra – Memórias”, com o detalhe de ser apenas o primeiro tomo, de uma trilogia, tratando-se este volume da parte da sua infância, fato que confirma o desrespeito de nossos editores (trogloditas, por isso em fase de extinção, repito), para com o público leitor, que pode ler o primeiro tomo e...?. 

[4] No entanto, fui agraciado com o Prêmio Jorge Amado, outorgado pela União Brasileira de Escritores (UEB/RJ, 2016, além de já ter recebido o prêmio “Talento da Maturidade”, do Banco Real, 2004, com o conto “Os Mortos”.

[5] Vejo amiúde referência ao cuidado que se deve ter em relação ao uso de frases feitas, metáforas desgastadas, expressões populares e lugares-comuns, como exemplo de práticas que devem ser evitadas. Ontem assisti parte de um documentário da TV paga, em que se falava de Ivã, o Terrível, na verdade, Ivã IV (1530-1584), onde era realçado sempre sua crueldade, mesmo quando era colocada em evidência sua obra revolucionária e feitos extraordinários. Ivã IV foi uma das figuras mais relevantes do mundo, não só em sua época, mas na criação de um dos Estados mais fortes, inclusive até em nossos dias. No entanto, realçam fundamentalmente sua crueldade, quando figuras do Ocidente, que destruíram impiedosamente para construir depois, nunca ou quase nunca têm suas crueldades realçadas. Haja hipocrisia!  

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