Sábado, 22 de Junho de 2019 - 05:32

Nas asas do tempo

por Jadson Oliveira

Nas asas do tempo
Foto: Arquivo pessoal

Seria apenas mais um perdido pelas ruas da cidade? Ia subindo a Avenida Sete, início da noite, rumo ao Campo Grande, cambaleando… delirava? Vicentão ia ficando para trás: “Não vou mais, Jadinho, já estou bêbado, vamos pra casa. Você não pode andar por aí assim... sozinho... vamos embora”.

 

Lá me fui tentando um equilíbrio impossível. Não ouvia mais Vicentão, meu querido amigo, 34 anos de jornal e boemia, meu direitista predileto – aliás, não o ouço mais, não o vejo mais, nunca mais, escafedeu-se, embarcou com bilhete só de ida na canoa do Caronte, como rezam essas mitologias.

 

Mas eu queria justamente passar por aqui, não nos ermos dos mortos, mas aqui, junto do Forte São Pedro, onde também me vem a sombra da morte, de Tirson, do antigo Bar do Tirson, o ex-craque do Bahia que queria porque queria me cobrar 20 reais numa dose de Cavalo Branco, “porra, Tirson, você pode entender muito de bola, mas não sabe porra nenhuma de preço de uísque”, mas eu estou confuso, misturando as coisas, outro dia conto esta parte.

 

Foi aqui - era isso que eu ia dizendo - foi aqui que vivi o ápice da minha quase brilhante carreira bancária, no antigo BANEB (o Banco do Estado da Bahia, “doado” pelo velho cacique ACM ao Bradesco, nos idos dos anos 1990), subgerente duma agência do BANEB na capital, lá pra 1969, com 24 aninhos, minha mãe orgulhosa do filho promissor, a confiança sempre renovada do chefe de Recursos Humanos (chamava FUNCI o departamento), seo Argolo (Argolão, a gente dizia entre a gente, era – ou ainda é - um homem grande).

 

Mas não deu, deixei escorrer minha futurosa carreira, estranhas ideias já começavam a mexer comigo, a onda hippy, o comunismo, as utopias entortavam meus pareceres de jovem sonhador/generoso/besta, as coisas não casavam, o gerente, meio durão, meio caretão – pode-se dizer “normal” – até que foi legal, tentou me levar ao caminho natural, mas não deu.

 

A gota d’água foi numa manhã em que um taxista chegou lá me cobrando uma corrida feita na madrugada, a partir da antiga casa de mulheres 63, na Ladeira da Montanha. Realmente não caía bem para um funcionário com a patente de subgerente... eu joguei a toalha e o gerente apoiou, aliviado. Sentei e bati na máquina (de datilografia, claro) o pedido de dispensa da função.

 

Era bem aqui a agência - eu apontava, gesticulava -, era aqui, agora tem uma agência dos Correios, o banco mudou-se pra Rua João das Botas, hoje Bradesco. Mirava pras bandas de cima, pro lado do Campo Grande, mas não mais caminhava, estava estendido no chão, um bocado de gente me cercando, um casal me apalpava – seriam anjos? -, parece que pegaram meu celular, depois uma moça iluminada chegou – seria minha fada madrinha? -, “o senhor conhece esta moça?”, eu sorrindo, meio abestalhado, delirante, “é a paixão dos meus 50 anos”, e para ela: “estou bem, mas não me deixam levantar, o que está acontecendo?” “É a sua ex-mulher!!!??? Meu Deus, você é um cara abençoado, se fosse a minha ex era capaz de querer passar o carro por cima de mim”.

 

Parece que me fugia a consciência, escorria um pouco de sangue da testa, me doía a mão esquerda, eu tentava ficar de pé e não podia, ou não deixavam, “o culpado foi Vicentão, ele se picou e eu ia andando, andando... não sei...” Senti que levitava, ia subindo devagar, as vozes se apagando pouco a pouco, minha fada madrinha, com incríveis asas brilhantes, me levando para o nada para o ermo, “estou bem... estou bem...”

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