Sábado, 25 de Maio de 2019 - 05:01

Vagões agrestes

por Antonio Pastori

Vagões agrestes
Reprodução: Autor

OS VENTOS

 

Ventos quietos à porta.

lineares 

libertos

 

semivestes

semi agrestes.

litorais 

 

sítio inventa sonhos

mato invade caminho

 

ventos na cabeceira

vento nas cabidelas

 

lunares levados aos varais

aprumo de asa nos quintais

 

semi as luas

semi quases

sambaquis

 

dos ventos quasares

 

canto coado na boca

frio artefato da nuca

 

rio arteiro das tocas

 

tem vento sim

tem vento som

 

tem vento assim na esplanada 

 

lupanares em brisa liquefeitos

arrimo dos santos e dos unguentos

 

semicristos

semiateus

 

assanham a cabeleira

deságuam a cabaceira

 

ventos do norte

vão nos vãos 

se vão sem mais.

 

sem mundos

sem mandos

sem deus.

 

 

 

 

 

 

CASTANHO

 

eu sou o apanhador dos teus campos 

e meu olhar respinga outonos em cantigas de mudas

não amealho as estradas ao longe e faço do que esperas 

a porta escancarada e as janelas libertas.

 

derivo as perdas onde tu amansas

ao equilíbrio das tuas ancas 

o sacolejar dos sonhos, 

o espelho dos dias.   

não nasci de primaveras.

 

habituo os dedos às circunferências. 

às superfícies lisas.

e sou futuro diante do teu frêmito

aperto as pedras, 

os soluços diante da tarde.

 

e sou castanho a caminho  

poente e diminuto

infinito de sandálias nas mãos.

 

sou adeus e te dou boas vindas

e cheiro das sacadas de onde o tempo desmora

o teu amor desmedido de sol.

 

 

 

 

 

 

A ANTIGA CAIXA DAS FOTOGRAFIAS 

 

aberta a caixa

as mãos enrugadas remexem

é uma velha foto

a algazarra em frente 

meninos com dentes

ondas humanas

perto do cais 

um riso um rio

 

o poema vem julgado morto

 

espuma entre bocas

aos dados de metal

reminiscências

de sonho amarelo claro

ermo de facas

 

a fotografia sangra nômade

é matança

na colisão dos céus

o tempo doendo entre coitos

 

a ânsia do cais cair

é a lembrança a aplaudir

a flor dos dias respirados

 

o matar do poema

não é a foto

é o espaço

 

não é a chuva

é a poça

 

nunca será o movimento

 

o matar do intruso

são anéis deserdados

como algemas na mesma caixa

 

onde tomba a foto abandonada

 

não é o silêncio

é a algazarra.

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