Sábado, 18 de Maio de 2019 - 09:01

Fábula carnavalesca

por Cristiano Teixeira

Fábula carnavalesca
Foto: Arquivo Pessoal

A duas semanas do carnaval, Roberval tomou uma decisão difícil. Resolveu passar o feriado no mato. Em razão de seu temperamento, esta lhe pareceu a decisão mais sensata a tomar, agora que se casara com Dolores e ela estava com uma barriga enorme de sete meses. Depois que soube que ia ser pai, dois meses depois do enlace nupcial, Roberval resolveu tomar tenência na vida. De agora em diante, ia demonstrar dedicação ao trabalho, para não ser posto na rua, e manter-se longe das brigas de rua.

 

— Preto, você devia ficar e pular o carnaval, e eu vou para a roça ficar com mamãe. Se eu for brincar com a barriga deste tamanho, Júnior corre o risco de nascer antes da hora, no meio da avenida. Ai você vai ter um filho que vai ser um tremendo folião! Olhe, faça assim, considere este o seu carnaval de despedida, antes do menino nascer.

 

Apesar do jeito carinhoso da mulher o chamar, a pele de Roberval era branca como o leite. Por mais que ele tentasse pegar um bronzeado na praia, o máximo que ele conseguia era um vermelhidão disforme que se espalhava pelos braços, ombros, costas e peito, e que se desfazia um dia depois, transformando-o novamente no branquelo de sempre.

 

— Mãe, você sabe que eu só vou pra estas festas para brigar. – e querendo impressionar a mulher, acrescentou. – Eu prometi a mim mesmo, agora que vou ser pai, ficar longe das brigas.

 

Quem olhasse para Roberval, dificilmente acreditaria que ele era o arruaceiro que proclamava ser. Ele um tipo baixo e gorducho que mal cabia nas camisas que usava. Os cabelos bem escuros eram mantidos curtos à moda militar, o rosto quadrado, porém, tinha uma expressão afável, por traz de um par de óculos de armação quadrada e pesada. Ele mais parecia um menino amarelo que um valentão.

 

— Menino, você não consegue conter este seu temperamento e divertir como uma pessoa normal? – perguntou Dolores que considerava o marido um doce de pessoa, um homem que jamais tinha levantado a voz para ela ou a tivesse ameaçado com a mão. Ela não compreendia de onde vinha aquele gênio dele de brigar em gangue por causa de bobagem.

 

— Você sabe como eu sou, eu só sei me divertir desse jeito, tenho o pavio curto e pronto.

 

No final, Dolores até ficou satisfeita com a decisão do marido. No fundo, era isso mesmo que ela desejava. Tê-lo ao seu lado durante o feriado tranquilizava o seu coração. Vai que o menino quisesse nascer no meio da noite, quem a levaria de carro até o posto de saúde?

 

Roberval passou a semana calado e pensativo. Saía cedo para o trabalho, como de costume, e voltava diretamente para casa. Cumpria religiosamente o seu papel de bom esposo, resignado. Doía-lhe o coração saber que ia ficar de fora das festas de agora em diante. O verão era o melhor período de festas do ano, e havia pelo menos uma ou duas acontecendo em algum lugar da cidade até antes do carnaval. Havia os ensaios dos blocos, Senhor do Bonfim, a festa de Itapuã e de Iemanjá e os pré-carnavais. Roberval era um jovem rapaz e a decisão de se casar com Dolores foi repentina. Os dois já estavam juntos há dois anos e as coisas entre eles iam tão bem que numa manhã, depois que fizeram amor, ele disse as palavras para ela: que acha de a gente casar no final do ano? Bem, não foi como um pedido de casamento, mas pareceu um. Entretanto, a pergunta encheu de felicidade Dolores, que respondeu sem pestanejar com um sonoro sim!

 

Agora, com uma criança a caminho e Dolores tendo de deixar de trabalhar alguns anos para poder se dedicar ao filho deles, Roberval já pensava em arranjar um segundo emprego durante a noite, só até Dolores poder voltar a trabalhar novamente. Depois que a criança nascesse, ela ainda tinha direito a uma licença remunerada de quatro meses, e quando este tempo chegasse ao fim, seu primo lhe prometera um emprego de meio expediente à noite em sua empresa de segurança. O seu plano era este e tinha tudo para dar certo.

 

Naquela semana que antecedia ao carnaval, Roberval pensava nas palavras de Dolores quanto a ser esta a sua última chance de poder pular como ele gostava, antes da criança nascer. De fato, ela tinha razão, depois que ele se tornasse pai, ele não podia mais se comportar como um moleque, brigando toda vez que fosse a uma festa. Aquele poderia ser realmente o seu último carnaval de verdade. Mas ele já lhe dera a sua palavra que iria com ela para a roça. Ele não era nem fã de carnaval. Não era um folião na expressão da palavra, seu prazer de ir para a rua era se juntar com os amigos e se meterem numa boa briga.

 

Foi próximo ao final do expediente que Olegário, um amigo e companheiro de briga, telefonou para Roberval. A turma ia se encontrar no pré-carnaval na Barra e contavam com a sua ilustre presença. Este era o tipo de incentivo que Roberval esperava. Ele, então, ponderou todos os seus pensamentos daquela semana e chegou à conclusão de que ir ao pré-carnaval, quando muito, poderia ser um bom prêmio de consolação. Ao se decidir ir, seu ânimo encheu-se de entusiasmo, iria se divertir como no carnaval e ainda poderia manter a sua palavra com Dolores.

 

Não era ainda nove da noite quando Roberval estacionou seu carro numa viela mal iluminada, não muito longe do Farol da Barra. Ele, como era de se imaginar numa noite de festa como aquela, teve dificuldade em encontrar uma vaga para seu carro numa rua próxima, já todas tomadas por carros e guardadores que não hesitavam em cobrar preços abusivos pelas vagas. Ele, então, se lembrou daquela rua com calçamento esburacado e de seu único poste iluminado. Havia uma vaga perfeita entre duas entradas de garagem, onde cabia perfeitamente um automóvel de pequenas proporções como o seu. Mal ele se preparava para descer do carro, quando se aproximou um rapaz alto e forte se dizendo guardador e querendo receber adiantado. Aquela inoportuna intromissão deixou Roberval irritado. Ele não estava disposto a pagar por uma vaga num local que ele próprio descobrira e onde ninguém mais teve a ideia de ir procurar. Ele achou aquilo um abuso, aquela esquecida viela estava fora dos pontos tradicionais de estacionamento. Não, não ia pagar coisa alguma, decidiu enfrentar o guardador. Um diálogo tenso de palavras grosseiras foi travado pelos dois homens no meio da rua deserta. Isto foi o bastante para aflorar o gênio violento de Roberval, mas sem o apoio e incentivo do espirito de grupo que a cumplicidade de sua turma de brigões proporcionava, sozinho, ele não era tão corajoso para enfrentar com os punhos outro homem que era o dobro de seu tamanho. Portanto, Roberval limitou-se à agressão verbal. Insultou o guardador e seguiu o seu caminho ao encontro dos amigos. Enfurecido com a afronta, o guardador só precisou dar três passos quando Roberval lhe deu as costas, e agilmente lhe aplicou uma rasteira, pegando-o desprevenido. Roberval caiu de mal jeito, batendo a cabeça no meio-fio. Teve morte instantânea ao fraturar a cervical. Talvez algum um dia ele tivesse desejado morrer brigando, mas o seu fim terminou sendo inglório, ao rés da sarjeta. Foi-se um valentão.

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