Sábado, 11 de Maio de 2019 - 10:34

O síndico do 1.406

por Carlos Ribeiro

O síndico do 1.406
Foto: Arquivo Pessoal

Não vem sendo muito incomum, nesses últimos anos, algumas rusgas entre os moradores do 1.406. Elas acontecem, principalmente, nas noites de sexta-feira, quando costumam levar os bichinhos de estimação para passear. O problema é agravado pelo fato de que ninguém considera seriamente a Convenção do Condomínio. Afinal de contas, bem ou mal, ela estabelece as mínimas regras necessárias para uma boa convivência. Você quer um exemplo disto? Pois veja, então, o segundo parágrafo do artigo 10, que proibia o transporte de felinos de maior porte no elevador social. A proibição se deu após um destes animais – acho que um leão, pertencente ao ex-proprietário de um circo, residente no 910 – ter engolido, num momento de descuido, o bebê do casal do 708. O acontecimento causou um certo estremecimento entre os condôminos, e um processo que, embora tenha causado uma certa agitação, não foi muito longe. O proprietário tinha lá suas relações com uma rede complexa de influências, envolvendo um deputado do DEM e um ex-senador da república, e a coisa terminou em pizza. Isto sem falar na pressão exercida pelos militantes da Sociedade Protetora dos Leões (SPL-Ba), responsáveis por uma ruidosa manifestação na rua em frente, ao verem noticiada, no jornal das oito, a intenção de se entregar o animal a um zoológico. Atitude esta que implicaria, segundo especialistas na matéria, na revisão de uma complicada malha de leis e direitos adquiridos, o que iria ferir a própria Constituição, com resultados negativos para a imagem do país no exterior. Foi mais fácil – e aqui devemos louvar a engenhosidade dos nossos legisladores – acrescentar um inciso à Convenção, exigindo-se das mães e babás o transporte de crianças menores de 40 centímetros exclusivamente no elevador de serviço – saída, de resto, bastante razoável para o impasse. Problema mais complexo, entretanto, é o provocado pelo morador do 506, infeliz proprietário de um elefante asiático. Embora mais dócil, silencioso e menos volumoso que os similares africanos, estes paquidermes ultrapassam o peso máximo permitido nos elevadores. A situação é agravada pelo costume do proprietário de levá-lo duas vezes ao dia para passear na rua, em horários nos quais os moradores mais conscientes evitam transitar pela escada, sob pena de, na melhor das hipóteses, ter que retornar todo o trajeto (para cima ou para baixo, conforme o caso), evitando-se assim o risco de ser amassado pelo animal. Eu mesmo deixei de circular pelo prédio nesses momentos, após ter lido no dicionário que “o mamífero, de tromba preênsil e com os orifícios nasais abertos na extremidade desta” possuem “patas reunidas num maciço volumoso e amparados atrás por uma almofada elástica” que sustentam um peso médio de três toneladas – o que pode causar um considerável estrago naqueles sobre os quais pisem, com ou sem má intenção. Esta me parece ser a questão principal, embora os demais moradores reclamem mais do mau cheiro dos excrementos largados no caminho pelo animal. (Devo abrir aqui um parêntesis para fazer justiça ao proprietário que, inicialmente, levou sacos para recolher o cocô do elefante, tarefa, entretanto, inviável, devido ao fato da indústria de plásticos ainda não ter fabricado sacos suficientemente grandes para tal fim. Ele admite a legitimidade das reclamações, solicitando apenas não fazê-las diante do pobre animal, que padece de um profundo complexo de rejeição). Algum morador mais insensível – desconhecendo, certamente, os laços de afeto que unem os homens aos seus bichinhos de estimação – chegou a sugerir a troca do elefante por outro animal menor. Deu, como exemplo, o mico-leão dourado do 703. O macaquinho, que foi considerado, durante algum tempo, o modelo ideal de animal doméstico, causou um certo frisson no prédio, até o dia em que arrancou, com uma dentada certeira, o dedo mindinho do filho do general, do 801, fato justificável pela maneira inconveniente e insistente com que o menino futucava o seu (lá dele) focinho. Tais argumentos não foram, entretanto, suficientes para aplacar a fúria do militar e evitar uma certa agitação nos quartéis. O incidente poderia ter consequências funestas para o dono do primata, não fosse este um diplomata graduado do governo norte-americano. Este detalhe, e a intervenção do próprio Chefe da Casa Militar da Presidência da República, levou o general a admitir que o dedo mindinho do filho não era um problema suficientemente grande para justificar um confronto com o Pentágono, mesmo porque o problema acontecera logo após os atentados de 11 de setembro, quando os ânimos estavam bastante exaltados. Bem... a verdade é que é difícil, meus amigos, para o síndico do edifício, conciliar tantos interesses conflitantes. Imagine que, um dia desses, o proprietário do 306 insistiu na abertura de um buraco no teto do seu apartamento, para que sua girafa não ficasse com problemas de torcicolo, proposta rechaçada veementemente pelo morador do 406, que alegava invasão de privacidade – mesmo porque o buraco (e a cabeça da girafa) invadiria exatamente o seu quarto. A questão, que ganhou algum espaço nos principais meios de comunicação do País, foi parar nas barras dos tribunais. Houve até quem propusesse encurtar o pescoço do animal, através de procedimentos cirúrgicos, provocando uma grande polêmica na classe médica quanto aos fundamentos éticos de tal procedimento. Confesso que tem sido difícil, para mim, administrar os problemas do Condomínio. Corri até o risco de ser linchado, quando sugeri a criação de um espaço exclusivo para os bichinhos – uma espécie de SPA, no qual pudéssemos colocá-los, com segurança e conforto, livres das neuroses urbanas dos moradores do 1.406. Chegaram mesmo a sugerir, nos jornais, que eu estava querendo criar guetos; imaginem! chamaram-me até de nazista! Vejam só até onde vai a incompreensão humana. Mas, tudo certo, mesmo porque, pensando bem, não sei a quem poderia confiar o casal de tubarões-martelo que crio (em sigilo) nos reservatórios de água do prédio. Ninguém pode saber disso, ou logo vai aparecer uma comissão reclamando da qualidade da água e não sei mais o quê. Sim, meus amigos, a vida é mesmo muito difícil para o síndico do 1.406.

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