Sábado, 04 de Maio de 2019 - 05:06

Diversão em família

por Elieser Cesar

Diversão em família
Ilustração baixada pelo autor

DIVERSÃO EM FAMÍLIA

Somos uma família diferente. Temos nossas próprias regras e não gostamos de imitar os outros. Sempre encontramos um jeito peculiar de nos divertirmos. Esse traço nos distingue dos demais e, creio, mantem o equilíbrio, a harmonia e a sanidade mental da família. São criativas e variadas as nossas diversões. Há dias em que minha mulher, vindo da cozinha, avisa qual será a brincadeira do dia, para alegria expansiva das crianças e, devo reconhecer, minha secreta satisfação.

- Bombar o colesterol!

As crianças pulam de entusiasmo. É a deixa para que todos avancemos nos pratos que minha mulher pôs na mesa: salsicha, salame, mortadela, bacon, costeleta de porco, queijo, ovos fritos, biscoitos recheados, pastéis encharcados de gordura e outras iguarias que apreciamos. Nem precisa dizer que nos refestelamos – com o perdão da vulgaridade – até o cu fazer bico. Depois, nos entupimos de refrigerante e tiramos uma sesta que ninguém é de ferro.

Outras vezes, saindo da mesma cozinha, carregando pratos, minha mulher grita:

- Desafiar o açúcar!

Então, atacamos toda a sorte de guloseimas: chocolate, brigadeiro, queijada, cocada, mousse, sorvete, quebra-queixo, chicletes e outros doces. Saímos, lambuzados e, depois, como ninguém é de ferro, tiramos uma sesta.

Aos domingos, muda a senha vinda cozinha:

- Quebrar a dieta!

Em seguida a mesa é coberta por pratos substanciosos como rabada, sarapatel, feijoada, mocofato, xinxim de bofe e de galinha, caruru, vatapá e mariscada. Sentamos com as crianças que, Graças a Deus, sempre tiveram um bom apetite, comemos a valer, inclusive a açucarada sobremesa e, como ninguém é de ferro, tiramos uma sesta, já pensando na suculenta merenda que nos espera mais tarde.

Quando a mulher está sem disposição para a cozinha, vamos no divertir nos restaurantes, onde, ao final das refeições, escandalizando os comensais, orquestramos uma desafinada sinfonia de arrotos. Uma verdadeira guerra de arrotos, quase sempre vencida pelo menino mais velho. Claro que, depois da exibição, não voltamos ao mesmo restaurante. Não por receio de não sermos atendidos ou até postos para fora, mas porque perderíamos a graça e o prazer de surpreender os outros clientes, como fazemos na Sexta-feira da Paixão, quando (sempre em uma churrascaria diferente) as crianças, como esses meninos birrentos que, aliás, não o são, começam a espernear:

- Painho, carne! Mais churrasco, mainha!

Não pensam, no entanto, que a maneira de nos divertimos em família é apenas gastronômica. Esta é apenas a parte caseira dos lazeres que asseguram a nossa invejável coesão familiar. Temos também os divertimentos comportamentais. Desse tipo de entretenimento, é o papai aqui quem se encarrega.

Ficou acertado entre nós que, quando digo “aos pombos!, vamos todos à praça principal onde os columbiformes cagam, sem a menor cerimônia na cabeça dos pedestres (uma vez até acertaram a lente dos meus óculos). Nessas ocasiões, a menina mais nova atira milho na calçada. Os pombos chegam numa precipitação de asas, aterrissam pressurosos e, com aquele sestro de pinicar a cabeça para frente, começam a comer o milho. Só aí é que tiramos as pedras que carregamos escondidas no bolso e começamos a alvejar aquelas indefesas criaturas, até sermos contidos por pessoas indignadas ou ameaçados de prisão pela guarda municipal. Neste caso, só nos resta a retirada honrosa:

- Vamos, crianças! – ordeno.

E, com o brio de um pequeno pelotão obrigado a recuar diante da chegada de reforços do inimigo, saímos todos, com as mãos nos bolsos já vazios de pedras, assoviando uma música pastoral, como a “cena à beira do riacho” da sinfonia de Beethoven. Sim, até ia me esquecendo, a boa música é outro cultivo da nossa família. Temos o prazer de cantar trechos de ópera, sobretudo quando os vizinhos assistem ao telejornal ou a novela do horário nobre da tevê.

Claro que temos ocupações mais inocentes e até obsoletamente infantis. Como sair tocando a campainha das casas vizinhas. Numa dessas investidas, uma moradora me pegou em flagrante, ao abrir a porta no momento em que eu acabara de acionar a campainha (para o meu azar, acho que ela já estava mesmo de saída). A mulher colocou as mãos nas cadeiras e, menos do que reclamar, escrachou:

- Mas, até o senhor?! Nesta idade e não tem o que fazer. Um meninão crescido...

Minha mulher e as crianças, que haviam sido bem-sucedidas na abordagem às portas alheias, me olhavam de longe.
Vermelho de vergonha, balbuciei uma desculpa:

- Oh, me perdoe, minha senhora! Ando tão distraído...

A mulher bateu a porta na minha cara. Como um cão enxotado, saí com o rabo entre as pernas.

Fazíamos também “o desafio dos tímpanos”. Consistia em bater panelas, como nos protestos de rua, e berrar o máximo possível, até que um vizinho reclamasse ou ameaçasse chamar a polícia ou o hospício, como disse um mais nervosinho. Contudo, a peça que as crianças mais gostavam era pegar o metrô para tomarmos o assento dos idosos, até chegarmos à estação final, ou alguém reclamasse o lugar, sacudindo-nos pelos ombros. Então nos levantávamos com a desculpa de sempre:

- É que chegamos de tão longe!

Também gostamos de conversar durante as sessões de cinema, com as crianças fingindo que não compreendiam a cena mais boba:

- Painho, pode me explicar? O que aconteceu, mainha? Ele morreu?

E, minha mulher, quase gritando:

- Quem já viu artista morrer, e ainda mais no meio do filme?!

Júbilo maior era sermos postos para fora da sala de concertos. Nesses episódios, procedíamos assim: sentávamos todos circunspectos e, no momento de maior atenção respeitosa à orquestra sinfônica, ou ao quarteto de câmera, mesmo conhecendo a música clássica, suas nuanças e pausas abruptas que enganam os leigos, prorrompíamos em palmas escandalosas, como se estivéssemos nas arquibancadas lotadas de um estádio de futebol.

Eram esses tipos de diversão que faziam a nossa família feliz.
De volta à casa, reiniciávamos as brincadeiras gastronômicas. Por falar em comida, na semana passada morreram o professor vegano e a dona do restaurante vegetariano da esquina.

Oh, vida cruel!

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