Sábado, 27 de Abril de 2019 - 05:02

A poesia original

por Ruy Espinheira Filho

A poesia original
Foto: Arquivo Pessoal

UMA MULHER ORIGINAL                   

 

Seguindo as pétalas de um malmequer,

o mundo ofereceu-lhe essa mulher.

 

Como era ela? Estava e não estava.

Sempre assim: ou beijava ou revoava

 

em brisa - ou pedras ásperas de vento

quando de humor mais árduo e virulento.

 

Aqui, vinha até ele em primavera.

Ali, rindo no dorso da Quimera,

 

um riso que com fogo em seu revérbero

fazia fugir ganindo o pobre Cérbero.

 

Mas logo era outro rir (melhor: sorrir...),

fazendo o mundo inteiro reluzir...

 

Essa mulher... Do amar mais docemente

à estrela dura de uma dor de dente.

 

O que fazer? E havia o que fazer?

Talvez fugir?  Talvez. Ou então morrer...

 

E ele morria, morria, intensamente!

Porém ressuscitava logo, doente,

 

denso de angústias, sem rumo e sem fé.

E assim foi na loucura... Foi até

 

estar, súbito, além do bem, do mal,

numa infinita paz celestial,

 

depois de longo sono de sonhar

um sonho lúcido e então despertar

 

de esfinge decifrada: que só havia

nela o que era nas outras - a magia

 

de alma como as de todas as mulheres,

imprevisíveis como malmequeres...

 

 

 

 

 

DE ELEGÂNCIA E CHAPÉUS  

 

                           Em seu imponderável, ao poeta,

o último a quem vi usando aquele chapéu.

 

 

Muito cedo, ao final do sono, recordo meu pai num terno completo,

todo elegante, inclusive no chapéu,

que usava com leve inclinação para a direita.

Muito elegante, meu pai, como sempre, em corpo e alma.

E o chapéu me fez lembrar outro chapéu, bem menos charmoso,

que ele só usava para dirigir o velho jipe inglês,

sobra da Segunda Guerra Mundial,

nas viagens entre cidades muitas

para cumprir seus compromissos de advogado.

Depois, com os anos, acabaram-se as viagens

e eu herdei o chapéu para proteção em dias chuvosos,

pois sempre abominei usar guarda-chuva.

 

O que durou até a vez em que um poeta me pediu emprestado

o chapéu

para enfrentar a chuva e resolver um assunto rápido.

E não voltou.

Ah, sim, ele voltou, o poeta, em outra ocasião,

como voltou muitas outras vezes, por muitos anos, mas

nunca mais o chapéu.

Nunca mais, nunca mais.

 

Hoje também já não volta o poeta

a não ser nos sonhos da memória do sono ou da vigília.

E fico imaginando meu pai, num bar do Paraíso,

cumprimentando o poeta com um gesto amplo

do seu mais belo chapéu

e nada perguntando sobre o chapéu mais humilde,

batido de poeira e muitos ventos e chuvas,

com que o poeta corresponde ao cumprimento,

chapéu que ele, meu pai, tão bem reconhecia

e ali o ignorava como se jamais o houvesse visto,

por ser muito elegante, meu pai, como sempre,

em corpo de alma.

 

 

 

 

 

POETAS 

 

Várias estantes erguidas

de um canto ao outro da sala,

que se foram enfileirando

desde a esplendorosa aurora

que os anos não trazem mais.

Poetas (homens, mulheres)

de flores, rendas, espadas,

êxtases na Natureza,

vastos desertos de tédio,

vida suja das cidades,

luares de amor, desamor,

intrigas, perseguições,

ideologias e guerras,

fama, sucessos, vitórias,

fome, esquecimento, mortes

lentamente nas prisões.

 

Poetas cantando, cantando

(cantam porque o instante existe,

porque tudo vale a pena,

se a alma não é pequena),

cantos que vão dos horrores

à inocência das crianças,

entre os labirintos das

ledas quimeras que cismam

e angústias em que se abismam.

Dos desencantos da vida

aos seus múltiplos encantos,

estes sempre renascendo

nas searas da esperança.

 

Na sala, por vários metros,

ao longo e de alto a baixo,

vastos tumultos humanos

que chegam de toda parte

ou emergem do coração

(que, mesmo sendo pequeno,

jamais é menor que o mundo,

ainda que só fique em rima,

sem nenhuma solução).

Sim, os poetas, que veem

dos céus à terra e da terra

aos céus; e, com sua pena,

às coisas desconhecidas

dão formas e mais: concedem

ao que era aéreo nada

habitação e um nome.

 

E assim é. Desde bem antes

dos altos muros de Troia,

vindo à descida ao Inferno

e a aventuras na Espanha

(um horizonte de cães

ladrando longe do rio)

com casadas infiéis,

mais a memória que arde

às cinco em ponto da tarde.

Alguns, a chorar a flor

carregada pela fonte.

Outros, doando de si

reflexões fraternais.

Outros, indo pra Pasárgada,

pois são amigos do rei

(que nada tem do inditoso

rei de um país pluvioso).

E esses outros escutando

crocitar, nos seus umbrais,

o corvo que lhes promete,

para sempre, nunca mais...

 

E aqui vou eu, entre eles,

junto a seus males e bens,

seguindo todas as vozes,

murmúrios, risadas, prantos.

Cantos vários. Mesmo canto:

o do Homem, que não é

mais que o sonho de uma sombra.

 

E vamos, até o final,

do Quê, do Quando, do Onde.

Vamos bem além de tudo,

de funerais e cirandas.

 

Até a última nau.

A vasta nau do silêncio

com todas as velas pandas.

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