Sábado, 06 de Abril de 2019 - 05:10

A fake alta performance

por Ricardo Luiz Monteiro Vasques

A fake alta performance
Foto: Arquivo Pessoal

O possível fake “High Performancer” ao seu lado.

 

Como você se sentiria se um colega de trabalho, que usa estimulantes químicos para melhorar o desempenho cognitivo, fosse promovido no seu lugar? Uma pesquisa publicada em junho passado no International Journal of Drug Policy, baseada em um questionário anual respondido por aproximadamente 30 mil pessoas no mundo inteiro (Global Drug Survey), apontou um preocupante crescimento no consumo das chamadas “drogas inteligentes”, conhecidas como pharmacological cognitive enhancement (PCE), que  supostamente induzem a melhoria do desempenho da memória ou concentração. 

 

Alguns desses estimulantes são legalizados e empregados no tratamento de patologias amplamente conhecidas, como o déficit de atenção (TDAH) e distúrbios do sono por exemplo, mas outros incluídos na pesquisa não, como é o caso da cocaína. 

 

O uso desses estimulantes aumentou em todos os países envolvidos no estudo, e o motivo que aparenta ser o principal é preocupante – o desejo de maximizar o desempenho mental. Há suspeitas de que o cenário desvelado pelo trabalho resulte do crescente consumo por pessoas saudáveis, calcado em um novo estilo de vida que emerge da pressão social e profissional pela excelência e super produtividade. 

 

Os EUA lideram o ranking. Aproximadamente 30% dos entrevistados responderam haver utilizado drogas para PCE pelo menos uma vez em 12 meses, mas o maior aumento do consumo está na Europa, destacadamente na França e na Inglaterra.

 

Apesar do debate médico sobre a eficácia desses medicamentos, como Ritalina, Aderall e outros, na melhoria do desempenho cognitivo de pacientes saudáveis ainda não ter apresentado evidência conclusivas, o aumento do consumo dessas drogas é um fato comprovado não somente por essa, mas por outras pesquisas também.

 

A discussão que eu gostaria de levantar nesse momento (há outras, não menos interessantes) é sobre a ética do uso de estimulantes químicos por colaboradores, com a intenção de melhorar o seu desempenho profissional, reconhecimento e ascensão de carreira. 

 

Seja por uma forte ambição pessoal, por um vigoroso espirito de competição,  por um desejo de vencer a qualquer preço o desafio das metas cada vez mais ousadas e com prazos cada vez mais exíguos, ou por outro qualquer, enxergo o uso de drogas como facilitadores de desempenho dentro do ambiente corporativo ou acadêmico como uma prática similar àquela, cujo combate a comissão médica do Comitê Olímpico Internacional iniciou em 1967 – a luta antidoping.

 

Não creio que no Brasil já soframos desse mal (na pesquisa estamos em 22º lugar em consumo de drogas em geral, dentre os países pesquisados), mas se não iniciarmos a discussão logo pode ser que em breve, sem saber, estejamos abrindo portas do crescimento de carreira a “High Performances” fakes, que competiram com outros colegas de forma desigual e irregular, ou até mesmo recrutando e selecionando falsas promessas que só realizaram o seu currículo com o suporte de estimulantes químicos.

 

Já que as questões relacionadas a ética estão em evidência, aí vai mais uma para colocarmos no radar.

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