Sábado, 16 de Março de 2019 - 05:20

Saulo, Saulo, por que me persegues?

por Biaggio Talento

Saulo, Saulo, por que me persegues?
Foto: Arquivo Pessoal

aVaras criminais. Wilfred estava no corredor onde se localizam oito ou dez dessas varas num prédio ao lado do Fórum à espera de uma audiência na qual seria testemunha de acusação contra bambambã de uma igreja pentecostal que nunca havia ouvido falar. Os adeptos da seita andaram a distribuir panfletos contra Iemanjá na festa dela, no Dia 2 de Fevereiro no Bairro do Rio Vermelho. Jornalista, Wilfred fez matéria sobre o assunto e foi convocado para depor sobre o caso pelo Ministério Público. No panfleto a rainha das águas era chamada de “demônio”.

 

A espera é longa no corredor da repartição judicial cujas cadeiras são ocupadas por testemunhas, réus, advogados, parentes de presos que vem acompanhar os julgamentos. Enfim gente do ramo. Julgam-se muitos pedidos de habeas corpus naquelas salas. Criminosos convencionais e anticonvencionais circulam por pelo corredor. Advogados matam o tempo em bate-papos animados. Falam de concursos públicos para juiz e promotor, tratam seus clientes com desdém. Parecia que para os causídicos tanto fazia se os réus fossem condenados ou não. Um dos advogados, diante da ausência do seu cliente para a audiência, comenta com o colega: “Ela já deve ter sido preso novamente ou então foi morto”. E os dois caem na gargalhada. Pouco depois, sai de uma das varas um jovem franzino, com ar enfadado e algemas prendendo seus pulsos pelas costas. Está acompanhado por dois policiais com as armas no coldre. Uma bela morena, provavelmente sua mulher, com um garoto parrudo pendurado no pescoço, vem atrás acompanhada por uma senhora de meia idade, distinta e de rosto sofrido. As expressões de desânimo das duas mulheres denunciam que a audiência não foi das melhores para o preso. Pouco depois, sentam-se ao lado de Wilfred dois pastores da igreja que estará no banco dos réus. Falam dos programas de rádio da organização. Um deles tem a voz metálica dos locutores de FM e aquele sotaque carioca de pregador radiofônico. “Deus seja louvado”, saúda um deles ao atender o celular. “Rezem pelo nosso pastor” recomenda pouco antes de desligar, preocupado com o julgamento.

 

Finalmente o repórter é chamado para a audiência e de chofre presencia o funcionário encarregado de digitar as declarações pedir licença à juíza para ser substituído por um colega. Não queria participar desse caso, pois, sendo de “santo” gostaria de “dar na cara do pastor”, que aparentava mais de 70 anos. Seu advogado deveria ter alguns meses menos. Era um daqueles causídicos de ar atrapalhado, cheio de papéis e livros nas mãos, com andar arqueado pelo volume dos anos e certamente alguns pesos de consciência que aqui e agora seria impossível enumerar. Quando os dois abriram a boca para falar algo, se confirmou os indícios de que estava ali uma dupla mais para comediantes trapalhões do que os papéis que, em realidade, representavam na sociedade. Depois de algumas bobagens “à guisa de esclarecimentos” ditas com uma dificuldade linguística quase insuportável dos dois trapalhões, o melhor reservaram para o fim. Formularam para Wilfred as seguintes perguntas: “Como a testemunha vê a figura de Iemanjá, uma santa, uma deusa, uma figura folclórica? Pregar a palavra de Deus é crime? Se a testemunha considera que procurar ajudar as pessoas para achar o verdadeiro caminho é crime? Se a testemunha não considera tudo isso crime, considera o sr. pastor um criminoso? Se a testemunha tem plena consciência contra quem, na verdade, está prestando testemunho; se a testemunha quer saber quem é e pode explicar quem é e o por que; se a testemunha já leu a Bíblia e se sabe quem foi Saulo e porque ele se converteu?”. Wilfred pensou com seus botões: será que o nosso pastor também teve sua “viagem para Damasco” e talqualmente Saulo se transformou de perseguidor dos cristãos no principal pregador da religião que tem em Jesus seu profeta? Será que o cara era balalaô ou judeu e, depois de receber o “facho de luz divina” na cara, acompanhada da clássica pergunta do criador “Saulo, Saulo por que me persegues?”, tornou-se o mais verborrágico dos pregadores evangélicos? Não, não. Era visível que o ramo dele era outro. E deveria contar com bons assessores pois, pessoalmente, não parecia ser talhado para a coisa. Os seguidores de Lutero são muito estudiosos. Para desafiar o papa é preciso muita dedicação na análise das Escrituras e coragem e, certamente, não se tratava do caso em tela. O máximo que se podia esperar aqui era a elaboração de um panfleto tosco contra Iemanjá. Para frustração de Wilfred, a juíza indeferiu as perguntas e encerrou a audiência. O jornalista nunca soube se o pastor foi condenado a pagar alguma coisa, mas teve certeza que seus sermões durante longo tempo foram contra aquela testemunha que ajudou a fazê-lo sentar, humilhantemente, no banco dos réus.

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