Sábado, 09 de Março de 2019 - 05:01

Cine-cachacismo sertanejo

por Franciel Cruz

Cine-cachacismo sertanejo
Foto: Arquivo Pessoal

Maestro, um instante, por favor. Deixe-me ouvir direito.

Quer dizer que acabou a ingresia moralista acerca da pinga ingerida

pelo ex-presidente Lula? Então, para o bem e para o mal,

a branquinha já pode voltar à mesa central deste boteco.

 

Garçom, se não for lhe trazer dissabores, misture-a com cinema

e sertão, oquei? Sim. Sei que é um convite à embriaguez de

fritar miolos, mas, avante. Canudos sempre está entre nós. A

tragédia termina nunca. Ê cachaça.

 

De acordo com o missionário Antonio Olavo, desde a década

de 40, já foram cometidos 30 filmes e vídeos sobre a causa de

Conselheiro. Haja fé. Nesta epopeia cinematográfico-cachacista-

religiosa, saco primeiro meu velho e bom Eclesiastes 1.9, e

leio contrito: “Não há nada de novo sob o sol”. Eis a verdade.

Palavras da salvação.

 

Pronto, maquinista. Já pode subir os créditos. Garçom, nova rodada

de pinga, faz favor. Agora, misture-a com sertão e seresta,

mesmo sabendo que isso pode provocar substancial desequilíbrio

no juízo do sujeito que abandona o torrão natal.

 

Tive a certeza cabal também desta tese por conta de um episódio

passado há quase 20 anos. Tenho consciência de que

esta história que relatarei abaixo ganharia em emoção e beleza

se, ao invés de me prender à realidade, eu a fantasiasse.

Mas, como um escrivão ranzinza, a tudo só consigo apor a frase

opressora: isto é verdade e dou fé.

 

Sei ainda que alguns possuídos pela bubônica do rato irão insinuar

que estou querendo ofender meus personagens com

nomes, no mínimo, esquisitos, mas a verdade (olha ela aí novamente!)

é que estava lá no registro do nosso herói: Fariseu

Alecrim. Nascido em Formosa, nos arredores do Raso da Catarina,

onde o Sertão não é para principiantes, ele só viu o mar

em 1985, aos 22 anos. Foi recepcionado na capital baiana por

seu primo Jorge Rogério, que servia como sargento ao glorioso

Exército Brasileiro.

 

Na estreia em Salvador, Fariseu foi acometido por aquele banzo

que vitima os que abandonam o velho torrão. Sagaz, o anfitrião

JR resolveu propiciar ao parente uma volta às origens.

Primeiro obstáculo. Superar o forte cheiro de mijo das escadarias

do Major Calango, que separam o Forte de São Pedro,

onde o militar servia, do Bar Quintal (esta budega, à época,

trazia também o Raso da Catarina no sobrenome, se é que

boteco tem sobrenome).

 

Início da noite. Abertura dos trabalhos. Um, dois, três, quatro,

cinco Príncipes Malucos. Para cada um. Bastavam, conforme

a tradição, quatro doses daquela mistura danosa. Abaíra, mel,

canela, açúcar e sabe deus mais o quê aperreiam de forma

irremediável as ideias de qualquer cristão. E provocam euforia.

Não no calado retirante. Quase meia-noite e nenhuma palavra.

Nem mesmo para o digno bode seco preparado pelas mãos

sábias de Rosinha.

 

No entanto, o nosso astuto e vadio Pedro Malazarte de fardas

não desiste de inventar felicidade para o visitante. Parte para

a cartada decisiva: “Próxima parada será no Du Pacheco, na

Avenida Joana Angélica”, anunciou, convidando ainda para a

empreitada este que vos aborrece. O recinto, não exatamente

aconchegante, era habitado por mestres-de-obras, motoristas

de ônibus, funcionárias da Mesbla, além de palco para serestas

de primeira.

 

A sorte, às vezes, também ajuda. Logo na entrada, um comboio

de mulheres. Paulistas descoladas. Desistiram do roteiro

turístico tradicional para conhecer a Bahia profunda e verdadeira,

como se esta existisse. Começa a dança. Cada qual no seu

cada qual. No canto, a moça fala. Fariseu, não. Responde apenas

apertando-a, mais e mais. Mais até que o recomendável.

Ele sente falta do sol na moleira e começa a suar. Tesão. Cachaça.

Coragem. Vem então aquela ideia brilhante que costuma

agraciar os bêbados nos momentos fatais. Com os olhos esbugalhados

pela certeza, nosso herói rompe o silêncio. “Também

sou de São Paulo. Também sou de São Paulo”.

 

Viiiiiiixe Maria! Hômi quá, sinhô me deixe.

O som alto e a surpresa não permitem à turista mudernosa

perceber o forte sotaque do rapaz. Contudo, no intervalo entre

um Lucho Gatica e um Nelson Gonçalves, ela já quer saber

onde seu conterrâneo mora na paulicéia. Empolgado como um

evangélico, Fariseu, morador da periferia da pequena Formosa,

prossegue falando com as mãos firmes e retas: “Tem a entrada?

Tem a praça? Tem a igreja? Moro ao lado da Igreja”, arremata

triunfante.

 

Som nas alturas. Sem escutar nada, ela balança a cabeça positivamente.

Percebendo que a estratégia é um sucesso, ele a

repete sem parar, como se fora um professor de geometria em

seu mantra particular. “Tem a entrada? Tem a... ”.

O som pára. Fariseu continua. Só.

 

Fim da noite. Vamos para o Boteco do Beleza, aquele cabe-cinco

da Rua do Paraíso. Bebo uma infusão daquelas poca-tênis

e penso em Canudos, no sol e nas danadas – as moças e as

pingas. Euclidianamente, constato. Sem a cachaça, o sertanejo

é, antes de tudo, um tabaréu.

 

 

 

 

 

 

 

 

abril despedaçado

e eternamente

íntegro

 

 

 

Não morra antes de morrer, gritou Yevgeny Yevtushenko. Depois,

um rapaz, de Sobral, reverberou: o ano passado eu morri,

mas este ano não morro. O libertário russo vestiu o sombrio casaco

de vodca exatamente no dia primeiro, consagrado à mentira.

Já o desaparecido cearense resolveu dar o ar da (des)graça

quando o calendário estava nos estertores. Sim, T.S. Eliot, você

tem razão: abril é o mais cruel dos meses. E 2017 tá botano pra

vê tauba lascá ni banda, como sói ocorrer com todos os anos

ímpares e pares.

 

PUTAQUEPARIU A MELANCOLIA!

Mas este berro não é somente uma hipérbole dramática ou

qualquer outra figura retórica. É algo bem mais grave. É como

se minha já fragmentada família, menino Ismail Kadaré, tivesse

se despedaçada de vez neste tinhoso abril, pois Belchior era,

e é, talvez, o único elo entre meus seis irmãos e outros parentes

de tantos e tamanhos pensamentos divergentes. E isto aqui

nem é uma ode apologética à família. E não pensem também

que foi apenas uma morte, no singular.

 

Mas derivo.

 

Voltemos na manha e no tempo, tentando driblar o sentimentalismo,

o choro e o ranger de dentes. Seguinte. Poderia mentir,

mas confesso. Naquele agosto de 2005, não existia mais paixão.

Na verdade, acho que nem mais amor. Tinha até um certo

ressentimento & desprezo porque tudo se desencaminhou, saiu da rota, como se as coisas devessem seguir uma linha evolutiva,

ora, direis.

 

Sim, minha comadre, estou falando da última vez que vi Belchior,

a quem eu já havia amado desesperadamente por uns

bons anos e quatro vinis. Porém, a paixão foi se dissipando

por causa de Paraíso, um disco muito dançante para meu árido

paladar. Nada contra as coisas feitas pra rebolar. Inclusive,

igualmente ao outro Zé Bigode, desconfio de deuses que não

dançam. O problema, na minha fuleira opinião, é que não ornava

com o indigitado.

 

Ou eu queria que não ornasse, sei lá.

 

Motô, num deixe a zorra descarrilhar, não. Vamos levar o bonde

novamente para aquele agosto de 2005. Pois muito bem.

Desculpem-me a contradição, mas não sei, de verdade, agora,

se já não mais havia mesmo amor naquele tempo de cólera. A

única certeza, na ocasião, é que algo me dizia que eu tinha que

ir. Era uma espécie de despedida. Óbvio que não sou profeta do

acontecido nem tão canalha ao ponto de tentar dar um ar de vidência

épica, como se eu já soubesse de tudo que ia acontecer

depois. Não e nécaras.

 

A despedida que eu intuía era de outra ordem. Estava convicto

de que seria a nossa última vez; que eu não gastaria mais

tempo indo a show de Belchior, pois não queria ver o coitado

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