Sábado, 02 de Março de 2019 - 05:05

O peso de uma bola

por Afonso Machado

O peso de uma bola
Foto: Arquivo Pessoal

Sábado bem cedinho e a gente já estava com o time escolhido: Ele, o Zito e eu. Ele dava um jeito e jogavam os três no mesmo time, nem que pra isso tivesse que forçar a barra. O Zito fazia o meio, com a 10, eu ficava mais atrás, com a 5, e ele, a raça, o nosso camisa 9, artilheiro, enfiado lá na frente, na cara do gol. Um chutão pro alto, a bola indo longe, descendo o morro. E nós olhando. Se olhava era pra cidade, ninguém reparava o mar, porque a cidade lembrava a vida e depois tinha que ir lá arrancar alguma coisa pra viver. A bola voltava, continuava o jogo.

 

Bola com Bidela, que toca pra Bombeiro, pra Fidércio, pra Buião... Eu adivinhava a jogada, desarmava o Buião e tocava pro Zito que, rápido, lançava a bola em profundidade bem no pé dele, então o drible, o chute certeiro e o gol: gool! Era sempre assim. Eu desarmava o Buião e tocava pro Zito, que lançava a bola pra ele, e gol, e mais um gol. O campinho, o nosso arranca-toco, construímos com a vontade e uma enxada. Talvez o primeiro sentimento de união e da força do trabalho. Ficava no fim do beco, que era um matagal, no topo do morro, na beira do nada e de onde se avistavam os prédios, o teto de um enorme shopping center e, mais longe, o mar.

 

Jogávamos até a noitinha. Aos vencedores tínhamos que pagar tubaína e pão com molho, no bar do seu Antônio.

 

Minha mãe e a do Zito, entre elas se repartia um prato de feijão. A mãe dele não tinha. Não tinha nada, quase nada. Nem mãe quase ele tinha?! Pai, nunca teve. Por essa vergonha, ela sumiu. Sumiu pra cidade. Ele desapareceu.

 

Eu e o Zito perdendo gols. Nossa bola de plástico, murcha.

 

Passou uns tempos, ele reapareceu. Roupa de colégio, mochila, matando aula. Trouxe uma bola de capotão. Acabava o jogo, se limpava e descia. Dizia que no colégio lá de baixo ele não jogava.

 

Era época de aprontos. Eu gostava de me levar por ele. Ele quem sabia. Se metia a gente em enrosco, tirava. Tinha consideração. Eu e o Zito, o enrosco era simples: mão na bunda das meninas, correntinha de ouro, leite de porta de casa, bujão de gás, balão em bar. Coisas miúdas, de moleque. O enrosco nele era outro: a família nova, da cidade, que pegou ele pra criar. Um, ele chamava de irmão; o pai, ele não chamava de pai; a mãe, ele chamava de tia. Eles chamavam ele de filho.

 

Combinamos, uma vez, um Maracanã. Era a primeira vez que eu ia. Todo mundo foi, até o Bidela e o Fidércio, do outro time, foram. Mas não encontramos com ele. Antes de começar o jogo, eu fiquei olhando da geral pras cadeiras azuis, cativas. Uma por uma. Esse pai da cidade, dono da cadeira azul, proibiu ele de ir com a gente. E quando o Flamengo marcou o gol e pulamos, gritando e se abraçando de alegria, o Bidela e o Fidércio eu abracei, o Zico também abraçou, o que eu mais queria era ele ali, junto da gente, se abraçando com a gente.

 

No campinho, teve um tempo de futebol de segunda a sexta. Deduraram as faltas dele no colégio, e ele sumiu.

 

Passou uns tempos, reapareceu com a camisa do Flamengo. Novinha, número 9, só de ver dava fome de bola. Esse pai da cidade quem deu, na condição dele tomar jeito, de nunca mais subir o morro. Naquele dia, lembro, ele não perdeu nenhum gol. Depois, passamos no bar do seu Antônio, compramos cigarro, vinho, cachaça, tudo dinheiro dele. Primeira vez que puxei fumo. Ficamos onde iam os namorados. Escondidos, escutando, olhando... As mãos no peito da menina, no meio das pernas dela, depois ela tirando a calcinha. E nós, de longe, batendo punheta. O namorado viu, correu pra cima da gente. Agarrou ele pela camisa do Flamengo e rasgou todinha. O filho da puta devia ser vascaíno.

 

Eu e o Zito juntamos tudo. Até mãe ajudou. Vendi a caixa de graxa. Ficamos pedindo em farol. Fizemos carreto na feira. Muitos dias sem jogo, mas compramos outra camisa. Pra entregar foi sufoco, não era bom se a família da cidade visse ele com a gente. Quando entregamos a camisa do Flamengo, ele olhou no nosso olho, olhou fundo, vendo longe, como olhava a bola indo longe, descendo o morro.

 

Depois, foi a vez de eu descer o morro também. A madrinha da cidade me ajudou. Estudei pouquinho. Fiz o concurso, o emprego na Repartição, e o resto, mulher, você sabe.

 

Hoje ele reapareceu. Quase 30 anos! Disse que foi procurando, perguntando, até que encontrou. Veio de carro e me levou na casa nova. A família da cidade, ele tem até hoje, agora mais a dele: filhos, três, como nós. Disse que aquele pai morreu, então ele fez a promessa de estudar até o fim. É dentista do consultório que o irmão da cidade também é. Disse que está bem, sossegou, depois que saiu do apartamento. Mora, agora, num terreno comprido, lá pros fundos de Jacarepaguá. O portão da casa é no fim da rua, fica num morro verde, desses que se olha a cidade e de longe se avista o mar. Na entrada, a casa, na frente o jardim e a piscina, mais em cima uma casinha e, do lado dela, outra, construindo. Por último, no alto, ele aplainou um pedaço do terreno e fez o campinho de futebol. O Zito mora com ele, é caseiro, cuida do terreno e a mulher do Zito ajuda a patroa.

 

Me fez botar um calção. Tinha gente esperando, do Fidércio e do Buião, eu me lembrava. Fazia tempo! Eu joguei atrás, o Zito no meio, e ele, no ataque. Um chutão, a bola passou o cercado e desceu o morro. Nós olhando. Ele veio perto de mim, apontou a casinha construindo, disse que era minha. Que é pra gente morar lá. O terreno é grande e cabe mais um. Que é pra levar você pra ver se gosta, mulher, e assim eu fico livre do aluguel. Que andou vendo e, por ali, tem ônibus direto pra Repartição. Que o maior sonho dele era ter o terreno, fazer o campinho e a gente jogar junto. Eu disse que ia falar com você. A bola voltou, continuamos o jogo.

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