Sábado, 23 de Fevereiro de 2019 - 05:01

Passeio Público

por Nelson Cerqueira

Passeio Público
Foto: Arquivo Pessoal

Naquela noite, que parecia uma noite como outra qualquer, H. Junior, fotógrafo lambe-lambe por profissão obrigatória, estava no ponto de ônibus, que depois vira de bonde. As estrelas fugidas do céu deixavam a alma cheia de ausência daqueles pontos brilhantes, e uma certeza aleijada de que sem estrelas também não pode existir noite. Mas existia.

 

Assim qualquer pessoa estranha, que tivesse o hábito de me observar, poderia falar sobre mim e sobre o que era materialmente aquela noite, que para mim era cheia de luz, 15 de agosto e dia de meu aniversário, por isso mesmo trabalhei até mais tarde, queria comprar uma camisa de cambraia, dessas bem finas, para vestir no outro dia.

 

Enfim, chega o bonde de Ribeira. Corro para ver se arrumo lugar, com o diabo da máquina pesada como toneladas. Tudo começa a ficar para trás. De repente, as pessoas começam a dar uma risada meio estranha, riso de olho parado e lábios esticados para a esquerda e para a direita. Tinha faltada luz na cidade baixa. O motorneiro ia numa velocidade dos infernos e quando começou a descer a ladeira da Calçada, descontrolou-se. Era um lugar já conhecido, costumava cair bonde. E esta não seria exceção. O bonde descarrilhou e de repente já estavam no chão eu, a máquina e um monte de gente.

 

Sempre trabalhei com esta máquina e somente, com esta queda de hoje, percebo que ela tem essa forma tão comprida, esse pano preto tão envolvente, parece cobrir não apenas a máquina, mas todo o meu corpo e até a pessoa a ser fotografada. A câmera, que é um modelo da Rolleiflex, me parece algo agigantado e como se estivesse se dando a risada do bonde. O tripé não sofreu nenhum acidente com a queda.

 

A lente só agora me dá esta impressão de tela de cinema pra sessão de 10 as 12.

 

Me levanto, carregando a minha máquina, ambos ilesos do acidente e vemos uma serie de corpos cobertos de sangue se contorcendo nos últimos instantes de vida. Saio descendo a ladeira e chego num armazém, armazém "Última Aurora”. A chuva está batendo no vidro da janela, como se fosse menino jogando pedras. Muitos homens no armazém bebem cachaça, o relógio de pendulo balança as 12:17 do novo dia e um calor infernal e sempre renovado aperta meu cérebro, como se fosse um secador de cabelo em temperatura forte.

 

Entro com a máquina e perguntamos que horas são. Falo de como trabalhamos hoje, de meu aniversário, da camisa de cambraia. A máquina me parece mais gigante que quando caímos com o bonde, aquele pano preto agora encolhido de timidez. Conto das pessoas, que estão no chão, enquanto os homens me olham sem dizer uma palavra, sem expressão de surpresa, mas também sem demonstrar naturalidade. Todos parados sem bater os olhos nem abrir a boca. Um loiro, me parece o dono do armazém, de olhos azuis e cabelo escovinha, ordena a outro que vá chamar Eugênio e depois faz silencio. Tento conversar mais um pouco diante daqueles olhares ausentes e não tenho nenhuma palavra contra.

 

Penso que é melhor pegar minha máquina e dar o fora, ir para o ponto do bonde, quem sabe tem algum que passe em 10 minutos? Penso e pego a máquina. Quando vou botando a cabeça de fora da porta, três dos homens me seguram a camisa e os braços dizendo que devo esperar Eugênio, a menos que deixe a máquina. Argumento que devo sair, que o bonde é o último, que tenho de chegar em casa. Jamais poderia deixar minha máquina que é a própria razão de ser de mim mesmo. Como iria fazer fotografias, e de onde iria eu tirar dinheiro para comer e comprar uma nova camisa de cambraia bem fina, no meu próximo aniversario? Todos são mudos ante os meus argumentos, até que entra o homem da ordem, acompanhado de outro mais forte de olhos negros, vestido de marrom, molhado de chuva. Suponho que deva ser Eugênio. E não estou enganado. O loiro escovinha começa a falar sem parar, contando os detalhes de minha máquina, de seu charme, até a minha tentativa de fuga, considerada aqui um desrespeito. Eugênio ouve balançando a cabeça que sim, enquanto um outro fala mais coisas numa língua não reconhecida por ninguém a não ser por aquele que se chama Eugênio. Tento dizer algo, me defender, conto outras coisas, digo a eles que não é assim. Mas eles não me ouvem, só fazem falar com Eugênio, repetir que eu queria fugir, que queria desrespeitar. Nem uma palavra, nem um olhar, nem um gesto na minha direção.

 

Eugênio vira-se para mim, o único que me olhou, mas sem estar me olhando, pois aí eu não via seus olhos, e disse que eu tinha de deixar a máquina e sair pra pegar o bonde. A voz rouca, úni­co barulho no meio do silencio de todos. Disse isso e não acrescentou motivos nem falta de justificativas, era como um veredicto pronunciado no meio de um tribunal, onde o réu tem vários advogadas de acusação e nenhum de defesa, nem tampouco lhe é permitido se autodefender.

 

Mas eu não posso deixar minha máquina. Falo de tudo que já falei, repetindo agora como um gravador tudo que disseram os homens. Não tenho resposta a não ser uma espera de que eu saia e deixe a máquina. Pego o tripé com tudo e me lanço em direção a porta. Quando vou botando um braço no lado de fora, aparecem todos os passageiros do bonde que caiu e avançam em minha direção, com aquela mesma risada. E estão sujos de sangue e vem com cordas na mão. Um deles, de olho de boi quando quer pular a cerca, joga a corda para prender meu braço e os outros todos avançam com cordas de vaqueiro balançando no ar. Puxo o braço num instante de velocidade encontrada não sei onde, e a corda passa me deixando livre. Foi um movimento rápido como se eu desse mil passos para trás. Bato a porta com força que a casa treme diante da chuva. Respiro de alívio encostando a cabeça na lente da máquina e imaginando o que todos aqueles passageiros teriam feito comigo, caso tivessem prendido meu braço. O coração ainda acelerado, me viro rápido e vejo os homens do armazém, o loiro, o que saiu e Eugênio. Todos parados me olhando sem dizer uma palavra, sem expressão de surpresa, mas também sem demonstrar naturalidade.

 

A chuva continua a bater no vidro da janela como se fosse meninos jogando pedras.

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