Sábado, 16 de Fevereiro de 2019 - 05:01

De feiura e transatlânticos

por Cristiano Teixeira

De feiura e transatlânticos
Foto: Arquivo Pessoal

A beleza está nos olhos de quem vê

 

Na escola, era chamado de Sapo, pelos colegas. Mas isso foi há muito tempo há trás, no tempo que a palavra bulling ainda não tinha sido inventada e todo mundo tinha um apelido sem que isto virasse caso de polícia ou de tratamento psicológico. O Gordo geralmente era um garoto mirrado, Jacaré era porque tinha a boca grande e quando sorria todos os dentes se mostravam, Cabeção tinha a cabeça grande mesmo, e por ai vai. No caso do nosso ilustre personagem, não havia como olhar para ele e não associá-lo ao anuro. Quase não tinha pescoço, a boca estendia-se de uma orelha a outra, que eram muito miúdas. Os olhos eram esbugalhados em razão de uma deficiência glandular. As pernas e os braços eram finos e compridos demais, presos a um tronco curto demais e que carregava uma barriga saliente que era redonda e dura. Costumava usar camisas justas, e isso só piorava as coisas, pois a barriga parecia que aumentava de tamanho. Em resumo, era irremediavelmente feio como um sapo.

 

Mas o apelido de Sapo ficou no passado, agora ele era o doutor Sapo, quero dizer, doutor Feliciano Pastori, um famoso cirurgião plástico, responsável pela criação de centenas de narizes arrebitados, bocas carnudas, seios duros e arredondados, nádegas proeminentes – para aquelas que se queixavam de não as possuírem em quantidade suficiente antes da intervenção cirúrgica – e rostos de pele esticada como o tamborim. Era irônico que o gênio responsável pela criação de tanta beleza fosse justamente o oposto de suas criações cirúrgicas. Não havia jeito, mesmo usando roupas e sapatos de grife, relógios caros, continuava a se distinguir dos demais homens por sua feiura. – veja bem, sapos não são criaturas de aparência abominável como o escritor aqui provoca o leitor a imaginar. Eles são até criaturas simpáticas, apesar de suas características pouco estéticas. A ideia aqui é reforçar na imaginação do leitor a imagem de algo que foge aos padrões de beleza. Peço humildemente desculpas, se ofendei algum sapo aí, lendo a minha história.

 

E você acha que o doutor Pastori se incomodava com a ausência de predicados físicos com a qual viera ao mundo? Seu couro não cabia a sua autoconfiança e autoestima. Ele sempre foi um sujeito simpático e galanteador, ainda que fosse difícil uma mulher deixar-se seduzir apenas pelos atributos de sua personalidade, porque era difícil de encarar o resto, o homem era feio e ponto final.

 

Mas, como diz o batido ditado, a beleza está nos olhos de quem a vê. E foram os olhos de uma bela mulher – muito bonita mesmo, posso lhes garantir – que viu beleza no feio doutor Feliciano; talvez ela achasse que se lhe desse um beijo, ele se transformaria num belo príncipe, como nos contos de fadas, mas se isto realmente aconteceu, foi apenas em sua romântica imaginação.  Apesar das críticas das amigas, ela casou-se com ele e teve filhos que, graças a deus, pareciam-se com a mãe!

 

O doutor Feliciano, como eu disse antes, era um sujeito simpático e carismático – não tinha mencionado que ele também era carismático? Eu esqueci, ando meio esquecido ultimamente. –, isto lhe rendia amigos. Ele tinha uma conversa boa e, diferente da maioria dos médicos que eu conheço, sabia falar sobre outros assuntos que não apenas sobre a sua profissão. Ele animava uma roda de conversa quando fazia parte de uma.

 

Certa vez foi participar de um congresso internacional aqui mesmo na capital baiana. Este tipo de evento também tem a vantagem de proporcionar o reencontro de amigos da mesma profissão que, por uma questão de distância, raramente se encontram. E foi isso mesmo que aconteceu. O doutor Feliciano teve a alegria de reencontrar uma colega de escola que não via desde aquelas priscas eras e, por motivos óbvios, foi ela quem o reconheceu.

 

Você não mudou nada, disse ela pensando em como o amigo de infância continuava a parecer-se com um sapo. Ela também seguira a mesma carreira do doutor Feliciano; felizmente há tanta gente no mundo insatisfeita com o próprio corpo, de modo que não faltam cirurgiões plásticos para socorrê-los. O reencontro dos dois amigos foi cheio de alegria e de recordações. Havia assunto para horas seguidas de conversa. Dava para se perceber que os dois eram muito camaradas nos tempos de escola. E quando a doutora Juliana – não tinha dito como ela se chamava? Pois digo agora! –, que morava na Islândia – sempre quis conhecer este nórdico país e, enquanto isto não acontece, me satisfaço em enviar meus personagens para lá. – convidou o querido amigo de infância para jantarem juntos antes de ela partir de volta para a terra do Eyjafjallajökull, ele mostrou-se embaraçado e adiantou-se em explicar: Tenho de perguntar à minha esposa, sabe como é, ela morre de ciúmes de mim. A doutora Juliana ouviu aquela resposta sem conseguir conter a expressão de admiração, ao mesmo tempo que analisava o amigo e se perguntava: mas ciúmes de quê?

 

 

 

 

Comida de pobre em navio chique

Bartolo Sarneli (pronuncia-se bártolo) trabalhou na companhia de navegação marítima do pai, em Santos. Em suas frequentes viagens a Salvador, para visitar a família e amigos, como era de se supor, ele vinha de navio. Bartolo tinha então apenas dezoito anos; considerado um menor de idade, naquela época. Entretanto, ele carregava sempre no bolso um documento que mostrava com satisfação, e um pingo de atrevimento, próprio dos mais jovens, quando lhe barravam o caminho por causa de sua idade: era uma carta de emancipação, esta lhe conferia os mesmos direitos que um cidadão adulto. Não sei se hoje em dia ainda se usa isso, mas o fato é que Bartolo é a única pessoa que conheço que um dia foi emancipado.

 

Mas como eu dizia, ele viajava bastante de navio e, como era o filho do homem, recebia tratamento de primeira classe, tendo, inclusive, o privilégio de sentar-se à mesa do comandante durante as refeições e pedir ao chef da cozinha o prato que ele bem quisesse. Olha, naqueles transatlânticos se podia comer os pratos mais requintados e as bebidas mais finas, na primeira classe. Repito, Bartolo podia pedir o que quisesse, sem precisar pagar um único centavo por isto!

 

Certa vez, num luxuoso transatlântico a caminho de Salvador, o chef lhe perguntou à mesa o que ele gostaria de jantar naquela noite, e Bartolo lhe respondeu à queima roupa: Um espaguete ao alho e óleo!

 

Eu contei a vocês que Bartolo é um legítimo genovês, assim como o foi Cristóvão Colombo? Que ele sabe fazer qualquer tipo de massa e conhece segredos culinários italianos que não existem em nenhum livro? E como todo italiano que se preza, ele é um turrão? E que os seus cabelos, hoje em dia, são brancos como algodão, e que se pusessem uma longa barba nele e uma túnica vermelha e ele saísse por aí voando num trenó puxado por nove renas, seria facilmente confundido com o Papai Noel? E, para quem não sabia, tenho o prazer de informar que seu avô, Pasquale De Chirico, foi um proeminente escultor, responsável por um amplo conjunto de monumentos escultóricos em Salvador, sendo o monumento ao poeta Castro Alves, na Praça Castro Alves, e o Cristo, do Morro do Cristo, na Barra, apenas algumas de suas criações? Mas onde eu contava que ao ouvir o simplório pedido de Bartolo, o chefe francês – o quê? Não tinha dito que ele era francês? – fez uma careta de desprezo e disse assim para o emancipado: Mas seu Bartolo, espaguete ao alho e óleo é comida de pobre. Lembram que eu falei que Bartolo (pronuncia-se bártolo) e era um turrão? Pois é, não houve argumento, e o chef teve de ir fazer o espaguete ao alho e óleo do rapaz.

 

Quando o garçom trouxe finalmente o seu trivial espaguete ao alho e óleo, o seu característico aroma de alho torrado inundou o ambiente do restaurante de primeira classe do transatlântico, aguçando a curiosidade e as papilas gustativas dos outros passageiros que serviam-se ali de refinados pratos da culinária internacional. Quem conhece o poder do aroma do alho fritando no azeite, sabe muito bem do que estou falando. O que você tem aí, Sarneli?, perguntou um dos comensais que não se conteve de curiosidade. Outros quiseram saber também, mas não vou citar todos eles. Pois então, para finalizar esta história, no jantar da noite seguinte, o espaguete ao alho e óleo foi o prato mais pedido!

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