Sábado, 09 de Fevereiro de 2019 - 08:21

O tempo não tem voz mas como fala!

por João Carlos Teixeira Gomes

O tempo não tem voz mas como fala!
Foto: Arquivo Pessoal

Soneto da sala

 

O tempo jaz na sala emparedado.

Um relógio bate horas vagarosas.

No retrato da parede, esgarçado,

uma moça de tranças colhe rosas.

 

Pouco a pouco a poeira do passado

pausa leve nas formas vaporosas.

Camafeus, com seu brilho nacarado,

mostram damas em poses langorosas.

 

Cai do sótão um luar emoliente

que a memória confunde nos seus laços

e tudo que se foi traz ao presente.

 

Roçando os velhos móveis, pela sala,

o silencio , prudente, oculta os passos.

O tempo não tem voz mas como fala!

 

 

 

 

 

Transcendência

 

Sei que estás nesta sala e não me falas.

Sei que aqui estás, e não me alcanças.

Levitas, e por isso és transcendência.

Em outra órbita circulas, que te isola.

 

E, no entanto, és mais que um pressentimento.

Algo cheio de carência e ansiedade.

Aqui estás, esforças por mostrar-te

mas a matéria é outra esfera, inatingível.

 

Buscas nas sombras a revelação

das tuas leves formas inassumidas.

Sentas em minha cadeira ternamente,

 

pousas na escuridão teus gestos brancos

que confuso não entendo mas percebo

 e te vais quando a manhã descerra os olhos.

 

 

 

 

 

Sol e rosa

 

Rosa e sol, sol e rosa, ocluso sonho,

corpos de amor em si compactados,

no êxtase em que o sonho recomponho

por glória dos amantes jubilados

 

No fogo ardem, no fogo a rosa cresce,

pelo nobre delírio aglutinados,

além da carne jovem que estremece sob

o jugo dos amantes sujeitados.

 

Rosa é o amor nascido em rubras chamas,

doira o sol nas centelhas projetadas

no sonho que desata as suas flamas

 

por sobre a legião doida e fremente

das almas a girar, apaixonadas,

pela rosa e pelo sol de um sonho ardente.

 

 

 

 

 

Janeiro

 

Janeiro, Sol e salsugem. Ao mês primeiro

é justo que consagre um canto de louvor,

o tempo evocando em que, à frente de um saveiro, aos altos mares me lancei e me fiz navegador.

 

O sol ardia forte mas havia brisas mansas

varrendo os caminhos da infância que se foi.

Na praia uma moça puxava as negras tranças

e abelhas ferravam o dorso alvo de um boi.

 

Vagando na maré sem porto nem destino,

meu barco ia rangendo ao ritmo forasteiro

das ondas a embalar meus sonhos de menino.

 

Ó tempo mágico que se fez nunca mais!

Tua imagem revejo nas glórias de janeiro

em pranto eternizada, e conchas e corais.

 

 

 

 

 

Soneto à beleza

 

Doou-te um deus o cetro da beleza,

pois te fez, entre todas, sublimada,

e se na perfeição há realeza,

por tão bela já nasceste coroada.

 

O que planta em teu corpo a natureza

nos mistérios da forma consagrada,

não há verso que celebre, na grandeza

dessa argila me que foste modelada.

 

Revendo o farto rol das heroínas

esquecidas nos palácios de outrora

que a história afundou entre ruínas,

 

se ao bardo é natural rogar loucuras

ao deus que te criou só pelo agora

que em ti eternizem as formas puras.

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