Sábado, 02 de Fevereiro de 2019 - 05:00

A Rota dos Pássaros Rubros

por Antonio Pastori

A Rota dos Pássaros Rubros
Foto: Arquivo Pessoal

O FIM DOS SILÊNCIOS

o acaso da linha vem escrito

por cruzar o trem desgovernado

 

tempo risca e aflora jardins 

ao mínimo de luz carregas

 

o que nenhuma madrugada esconde

o que nenhum amanhecer esmaga

 

qual seria pirilampo ou besouro

qual daria a todos e a outro?

 

em cor anil de desenhos súbitos

ao ímpar da voz em ventre único

 

por que aquietas tempestades em murmúrio de crinas

e levas apenas o que couber nas mãos e no vento?

 

o amor não cabe em lugar nenhum 

no que acaso da linha venha escrito

 

do trem ser bússola no que desgoverno

e os trilhos acolherem os desequilíbrios

 

estações são feitas para partir

no mínimo de faca que houver

 

ao talhar dos acenos 

e pelo fim dos silêncios.

 

 

 

 

CONCRETUDES

do saber de passarada estrela é parida

 

por isso 

nunca diga

que dia morre

ou noite nasce

 

dia e noite

são faces de mesma musa

 

lua minguante

é tatuagem de asa

 

e sol é pintura 

com bico de pena.

 

 

 

 

A CRIA DOS TINTEIROS

(A rota dos pássaros rubros IV)

 

bem sei das luas esvaídas em sumo por nós na esteira do que se diz adeus 

dúbia acaso choras e não sabes do escrito na esquina à frente do arvoredo

 

e triste é o afago da chuva por alcançar velhas borboletas 

por desenhar a procria de sanhaços e o parto das rendeiras

 

por avermelhar manchuras na estrada dos cataventos 

por negar o endoidecer das horas rubras e dançarinas

 

há uma trilha sem volta das folhas rendidas aos rios 

como a imersão do que olhas agarra esquinas no cais

 

são minúsculas as nesgas do sol em raias cruas

e o que é belo por onde ninguém vê são dores gris

 

porque bem sei do vento e de vinhos seus 

trazidos do norte pela sanha dos invernos

 

da chuva tinta rezara ao cio das manhãs

da lama esguia brotaram os dois rabiscos

 

onde vais sei que chamas em láudano e forcas ao limo dos infinitos segredos 

porque ali na mesma esquina te espero sem jardins nem lonjuras.

 

e você bem sabe como isso me faz seco em azul

e salvador é chuva entre seixos no andar infindo 

 

bem sei e és assim mais e nada crês

côas além dos pássaros tão rubros 

as marcas e o adeus do quereres 

 

porque na esquina na casca do velho carvalho estão lá 

na medida do que é folha ou secura antes dos cascalhos…

da cata ao tempo sem armadilhas à culpa dos canivetes

 

sim, na casa dos arvoredos onde céu é cria de tinteiros

quaram poentes do que foram dois rabiscos para sempre.

 

 

 

 

SENHORINHA

foi a última vez que alcancei teu espectro enquanto a noite vinha

eram fiapos de luz embebidos de silêncios miúdos na tarde caída

porque ainda era dia e isso se devia às garças dadas às saliências do sol

 

teu andar em vãos retos abria clarões entre as casas  e movia ladeiras

colhia olhares de soslaio pelas janelas por querências de amanhecer

porque já era noite e isso assemelhava escuros e claros em dedos tintos

 

e meninos paridos das portas já sabiam antes de você como os rios eram criados

eles ganhavam das velhas garças a réstia de iluminuras que ia dar nas estrelas

porque se ainda não era madrugada, o brilho do sereno era dado a relógios

 

e teu andar desenhava a cidade em contornos de seixos

não a cidade que existe, mas aquela sabedora dos grilos

namorada do rio, criatura do andar do andar do andar descalço

 

porque se a rua dos velhos sapos ainda discute o que é dia? o que é noite?  

as ventanias adormecem na mesma casa daqueles poemas moleques e insones        

sim, senhorinha, porque o sol já vem e isso cabe a você

prolongar o menino caminho e avisar do fim dos silêncios aos teus sanhaços.     

 

 

 

 

DIVISÃO DE BENS

não preciso de posses

sou por todos os prazeres

 

leva teus vasos antigos

sou mais as trepadeiras

 

ser por tão pouco

é saber-se inteiro

de tudo que é muito

 

 

 

 

DADOS NOS DEDOS SUJOS

pra você

dei meu dado viciado

mar em maio enlouquecido

 

pra você

estampei nos muros

o verso solto aos meus domínios

 

doei guerras

colhi almas

 

e dancei até o fim

sem saber do início

 

pra você

noturnos

 

pra você

invernos

 

tudo de vinho e sangue

na boléia dos encantos

 

qual o que casa

com quem junta

 

o que dos casos

nos dados marcados

por tua vida toda

 

 

 

 

DO SER DAS ILUMINURAS

(A rota dos pássaros rubros IX)

 

do ser das iluminuras

pedra seca se espalha

vaga é a lida dos encantos
ao por das passaradas.

 

sou de beirais e esquinas

coro onde a luz se atrapalha

vinco de amanhos e infâncias

vento buliçoso de estradas.

 

queimo no fim dos dias

a chama do que de mim se espraia

porque vaga é a lua dos mundos

do bem das vigílias invernosas.

 

na rota rubra das passaradas.

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