Sábado, 12 de Janeiro de 2019 - 10:03

Farsa e crônicas urbanas

por Franciel Cruz

Farsa e crônicas urbanas

MELANCÓLICO CREPÚSCULO:
do ódio à indiferença

 


No princípio, era o ódio. E o ódio estava em tudo e em todos. Detestavam o mordomo, por motivos óbvios, aqueles que eram partidários da ex-presidente que tomou a rasteira. Detestavam o indigitado, também, aqueloutros que apoiaram a trapaça farsesca, acreditando, de uma forma um tanto quanto
cinicamente ingênua, que dias melhores viriam. Mas só chegaram, ou, melhor dizendo, só permaneceram, as noites. Nada de luzes. Restou somente o ódio, amplo, geral e irrestrito.

Óbvio que o ódio, não raras vezes, é apenas sinônimo de impotência. Porém, por mais paradoxal que possa parecer, existia certa vitalidade no rancor – tanto daqueles que o cultivavam quanto naquele que era o objeto de tal raivoso sentimento. A ira é, ou era, de certo modo, vida.

A segunda fase da conturbada relação, que ainda estava umbilicalmente ligada à primeira, descambou para o axioma do Bandido da Luz Vermelha. Qual seja. Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha. Avacalha e se esculhamba. E o ódio, de modo catártico, virou galhofa. E todos riam, mesmo sabendo que o riso em demasia é apenas desespero. Mas,
ainda assim, havia vida. A galera se sentia bem por estar no combate pela via do humor – e o mordomo também estava de boa na lagoa, pois levou a escrotidão ao paroxismo, o que não deixa de ser também uma forma de humor. Cada um ao seu modo, portanto, estava feliz. E a felicidade era, e é, uma arma quente (beijos para a dupla caipira Lennon/Belchior). De muitos e estranhos modos, era vida.

A terceira, e última etapa, porém, parece ser a da desimportância, da apatia. E esta é terrivelmente contagiante. Mortal. Tal simbologia mostrou toda sua força/fraqueza quando o vampiro, que parecia imortal, teve novo problema peniano. Potência e doença não são apenas metáforas. A situação se complicou.
Os médicos prorrogaram a estadia do indigitado no nosocômio (quase escrevi manicômio) por motivos de “segurança”.

Nas CNTPs, as reações seriam extremadas. Contudo, o mordomo atingiu um nível tal de irrelevância que, naqueles dias de internação razoavelmente grave, não despertou nem mesmo os tradicionais (e abjetos) sentimentos de ódio nas internetes. Nem mesmo foi objeto de pilhéria. Ficou relegado à indiferença, coisa sem vida, mórbida e morta. Melancólico crepúsculo.
Tanto para o desinfeliz quanto para nosotros.

 

 

 

Caso comum
DE TRÂNSITO

 


Ao me deparar com aquele céu sabático, que de tão cintilantemente azul dava até vontade de acreditar em deus, desisti de esperar o buzu no ponto das antigas e quase extintas baianas de Amaralina e segui rumo à Pituba.

Sob o embalo da brisa suave, estava tão absorto na contemplação daquela belezura primaveril que não escutei o primeiro grito. Também pudera. Aquele berro, aquele uivo raivoso, não combinava com a paisagem & pensamentos parnasianos que embeveciam este antiquado locutor, que ainda tem coragem/
desplante de escrever “céu sabático & belezura primaveril”.

Pois muito bem, digo, pois muito mal. Nem consegui escutar o segundo urro. Já existiam 3 (repetindo por extenso e em caixa alta TRÊS) metralhadoras apontadas pra meus cachos lambuzados de kolene.

“MÃOS NA CABEÇA, VAGABUNDO!”, ordenou um dos meganhas. Ao me ver com as mãos na cintura, numa postura quase caetânica, o indigitado perdeu as estribeiras.

“VOCÊ NUNCA FOI REVISTADO, NÃO, PORRA?”

Mais distraído que aquelas criaturas que compram sandália de couro na Barroquinha, respondi: “Ahn”.

“ABRE MAIS AS PERNAS QUE VOCÊ É ALTO”, bradou outro, já começando a sessão de apalpamento.

Se antes, no início da delicada abordagem, eu estava me sentindo um Bin Laden dos trópicos, todo importante, com tantas armas apontadas pra mim, agora, com os amassos, passei a acreditar que eu era o próprio Javier Bardem. No entanto, alguns minutos depois de gritarias e grunhidos incompreensíveis
proferidos contra este buda nagô aqui, eis que os milicos apenas pediram meus documentos. E decepção maior. Olharam e foram embora, sem nem se despedir, trocar telefone, nada e nécaras.

Um tanto quanto atônito, até pensei em anotar a placa para marcar um segundo encontro e reviver aquelas, digamos assim, carícias agrestes. Todavia, como o camburão da PETO atravessou a rua na contramão, achei que eles não queriam mais nada comigo.

Era apenas mais um caso comum de trânsito, das coisas que acontecem todo dia, em nosso tempo e lugar, como diria Belchior. Ou talvez não, pois quando este tipo de abordagem ocorre com os meninos negros daqui do bairro, eles nunca podem contar a história depois.

 

 

 

CLÁUDIA FERREIRA
e o motorista do
                          1636

 

Nada ou tudo que se diga sobre o covarde e brutal assassinato de Cláudia da Silva Ferreira poderá dar a dimensão da barbárie cometida pelo Estado. O vídeo mostrado na segunda-feira, dia 17 de março daquele ano de 2014, pelo Jornal Extra, é terrivelmente chocante. Os três policiais do 19º BPM de Rocha
Miranda, os subtenentes Adir Machado e Rodney Archanjo e o sargento Alex Sandro Alves, tratam a auxiliar de serviços gerais e mãe de 8 filhos, quatro naturais e quatro adotados, como se fosse um saco, para usar a forte e, paradoxalmente, impotente
expressão do viúvo Alexandre Fernandes da Silva.

O desprezo policial, como sói acontecer, contamina e/ou é contaminado pelas diversas outras esferas de poder e da sociedade. A auxiliar de serviços gerais Cláudia da Silva Ferreira, moradora do Morro do Congonha, que, como se observa, tem nome, profissão e residência, transforma-se apenas em uma mulher arrastada pela viatura, segundo os noticiários. Ou então em uma “trabalhadora”, de acordo com a fala da então ministra Maria do Rosário em seu pronunciamento no Twitter.

Esta é uma lógica que se repete per seculae seculorum. Os jornais e os outros veículos da mídia e do poder especializaram-se em retirar não só a dignidade dos deserdados, mas insistem em não reconhecer nem mesmo o presente que eles receberam na pia batismal. Aliás, o único momento em que há tratamento igualitário entre pobres e ricos, já disse e repito, é na
seguinte ocasião: quando um pobre é assassinado ou um rico é detido por tráfico ou algo que o valha, nunca (ou muito raramente) dão-se destaque aos seus nomes. Quando a situação é inversa, isto é, um rico é assassinado e um pobre é preso com uma trouxinha de maconha, aí sabemos toda a árvore genealógica de todos os envolvidos.

É absurdamente incrível esta disparidade de tratamento. Para ficar no campo policial, vale comparar os fatos e procedimentos. A polícia feroz, que matou o menino Joel e, pouco tempo depois, seu primo Carlos Alberto, aqui no Nordeste de Amaralina, em Salvador, é a mesma que se porta de modo extremamente
condescendente diante de uma agressiva moça que diz ser sobrinha de um juiz e conhecida do radialista e ex-prefeito Mário Kertész. Eles se guiam pelo devastador axioma. “Rico também delinque, mas aí não é problema da polícia”.

No entanto, o que queria também destacar é que o dia de ontem não ficou marcado somente pela barbárie, não pelo menos para mim e para as cerca de 80 pessoas que lotavam o ônibus 1636, com destino à Mata dos Oitis, via orla. Exatamente no horário do rush, com a cidade toda engarrafada (é incrível como a atual gestão conseguiu o impossível: piorar o trânsito de Salvador), nervos à flor da pele, cansaços, estresses, foi possível presenciar um ato de delicada bravura.

Seguinte foi este.

No primeiro ponto da Avenida Pinto de Aguiar, uma senhora com uma criança no colo adentrou o ônibus lotado. Nas Condições Normais de Temperatura e Pressão, o motorista, já exausto por um dia de trabalho e aborrecimentos, tocaria o bonde sem maiores preocupações. Mas não o motorista do ônibus 1636. De modo surpreendente, ele parou o buzu e falou com voz serena, mas firme. “Só sigo viagem se derem lugar a esta senhora”.

Passaram-se pouco mais 30 segundos, que pareciam uma imensidão, tamanho o constrangimento, até que, enfim, uma pessoa se levantou. A senhora, então, pode se sentar com seu filho e a viagem prosseguiu normalmente.
Normalmente, vírgula, extraordinariamente. Ali, naquele momento, estávamos presenciando mais um ato de terna bravura daqueles que, apesar das mais duras adversidades do cotidiano, recusam-se a se entregar à barbárie. Aliás, a batalha da serena, mas combativa, delicadeza contra a estúpida brutalidade parece ser a mais importante luta neste Brasil tão desigual e
desgraçadamente dividido.

Por isso, apesar dos dissabores de um buzu completamente lotado, fiquei o resto da viagem imaginando como seria confortante se o motorista do ônibus 1636, de Mata dos Oitis, fosse o responsável por prestar socorro a Cláudia da Silva Ferreira.

 

 

 

P.S. Antes de escrever estes rabiscos, fui ao Google para ler algo sobre a morte de Cláudia da Silva Ferreira. Porém, a referida ferramenta de pesquisa sempre completava com outro sobrenome. Apareceram as mortes da atriz Cláudia Magno, ocorrida há exatos 20 anos, a reportagem sobre “O Assassínio de Cláudia Lessin Rodrigues”, que recebeu o prêmio Esso de 1977, e até mesmo o boato sobre a “morte” da cantora Claudia Leitte.

 

 

 

 

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