Sábado, 05 de Janeiro de 2019 - 05:25

A Criação, não a criatura

por Ari Donato

A Criação, não a criatura
Tela de Rose Fernandes em projeto gráfico de Adriano Biset

SEIS meses passaram-se desde o julgamento dos dois irmãos comerciantes de animais e aves; já quites com a Justiça local, ambos não mais residiam na cidade. A casa fora colocada à venda tão logo eles tomaram um ônibus com destino à capital. Enquanto cumpriam a pena estipulada pelo juiz, convertida em prestação de serviços à comunidade, os dois permaneceram na residência e se desfizeram dos móveis e utensílios até nada mais restar senão os cômodos vazios e as paredes banguelas. Passados esses meses, as marcas da tragédia ainda estavam presentes ali, materializadas na invasão do prédio por desocupados; nas portas e janelas arrombadas e no saque ao quintal. A tabuleta com a inscrição Vende-se esta casa fora alterada e, agora, riscada por cima, lia-se a sarcástica mensagem: Entre nesta casa. Enquanto não aparecia comprador aumentava o número de indivíduos vadios no local, a ponto de os vizinhos se queixarem de balburdias à noite. Mas as autoridades não agiam ou não queriam agir da forma como pediam os reclamantes. “Um dia alguém haverá de tomar uma medida, isso não pode ficar assim” – diziam certos moradores decididos a se queixar ao Ministério Público, de tão animados que ficaram após a participação do promotor no caso que terminou com a condenação dos proprietários da casa. Outros, menos dispostos, discordavam. “A Justiça é cega!” – alardeavam, em um raciocínio torto, esses divergentes, pois que os homens é que são cegos. Alegavam que muitos daqueles animais e aves morreram no quintal da casa antes mesmo de encaminhados às instituições que deles zelariam.

 

As aves menores não sofreram tanto, algumas voaram em direção à mata seguindo o instinto; padeceram os animais maiores de fome e sede durante uma semana. Condenados, e por isso proibidos de tutelar os animais e as aves, os dois irmãos nada puderam fazer; nem se o quisessem. Durante muitos dias cuidaram de hortas comunitárias. Os vizinhos, condoídos, embora precariamente, alimentavam os animais e as aves. As previsões do promotor logo após a prisão dos dois comerciantes para a chegada das autoridades ambientais não se cumpriram. Somente oito dias após o prazo dado pela Justiça a equipe responsável apareceu na cidade para levar os animais e a aves. Isso, quando muitos do plantel haviam morrido. E muitos, entre aqueles que se desprendem da necessidade da análise dos fatos para a emissão de uma opinião, saíram em acusação ao promotor. E diziam que o Ministério Público, uma vez morto o cachorro pertencente ao promotor, pouca atenção estava dispensando à causa dos animais e aves ainda mantidos na casa dos comerciantes. Não são corriqueiras condutas assim, quando interesses individuais deixam de ser acolhidos? Tão certo quanto também é manobrável a assim chamada de opinião pública. O promotor sabia disso e debatia a situação com o jornalista.

 

–   Isso me entristece, preclaro formador de opinião! – pilheriou o promotor. E os dois riram.

 

Ao longo dos dias entre a data determinada pela Justiça e a efetiva chegada, em uma ensolarada tarde de março, dos veículos para recambiar os animais e aves, o pássaro esteve por diversas vezes no mamoeiro do quintal da casa dos comerciantes, de onde avistava os viveiros e as jaulas, vazios e deteriorados. Desde que vira a cutia pela última vez, e isso antes do ataque dos macacos, o pássaro não deixou de sobrevoar o quintal da casa dos comerciantes, embora sem a noção de tempo, ao menos nos moldes da contagem dos humanos. O período entre o amanhecer e o escurecer o pássaro passava com voos entre o quintal e a praça da igreja; às vezes promovia investidas pelos arredores, quando perguntava aos que encontrava por aqueles que estiveram aprisionados naquele local. Mas nenhuma resposta ouvia que não a já desgastada negativa acerca da cutia, do bicho-preguiça, das jaguatiricas, das emas e dos demais.

 

–   Bem-te-vi! – cantou o pássaro, olhando para os lados, como se procurasse pelos amigos que ali estiveram. – Bi-hía! – e repetiu em tom nostálgico.

E nisso estava quando, perto dele, um periquito tagarela assentou em uma das folhas do mamoeiro para atender aos apelos da companheira, ansiosa, que cantava ali mesmo.

 

–   Bem-te-vi! – saudou o pássaro à chegada do outro.

 

–   Ainda deprimido, repetente cantador? – indagou o periquito, mantendo-se um pouco afastado. – Tenho novidades! Posso ficar aqui que não me atacará, certo? – voltou a perguntar o periquito.

 

–   Ando um pouco triste, sim! Mas deixa de tagarelice, jamais ataquei algum de vocês.

 

–   Você é briguento, repetente cantador!  – exclamou o periquito, e sua algazarra foi ampliada com o canto da fêmea, que se acasalou no mesmo talo em que se encontrava o macho.

 

–   Não sou brigão! – reagiu o pássaro. – O caso é que não me intimido diante de uma simples ameaça.

 

–   Que o digam os gaviões e os urubus! – chalreou a fêmea.

 

–   Que nada, eu tenho medo deles! Qual é a novidade, vocês dois vão reproduzir? – perguntou o pássaro com ar de troça.

 

–   Muito engraçado, muito engraçado! – reagiu o periquito.

 

–   Você deve ser o macho! – pilheriou o pássaro. – Os machos da sua espécie são mais faladores. Além disso, mais robustos.

 

–   Viemos trazer-lhe uma notícia e você descamba para esse assunto da maturidade sexual,  que ingrato! – grazinou a fêmea, e deixou o mamoeiro, indo pousar na copa de uma das mangueiras, nos fundos do quintal.

 

–   Desculpe-me! Sou brincalhão, à vezes um inconsequente – rendeu-se o pássaro. – Mas, por favor, qual é a novidade?

 

–   Antes de falar, devia pensar! – ralhou o periquito. – Logo você, também de uma espécie sem dimorfismo sexual  – completou, enquanto dava passos laterais ao longo do pecíolo onde estava.

 

E seu peso fez a folha pender.

 

–   Por favor, qual é a novidade? – repetiu o pássaro.

 

–   Minhas alvíssaras, repetente catador! É sobre a cutia... – tagarelou, contrariado, o periquito, voando para junto da fêmea.

 

E a folha do mamoeiro balançou-se, retornado à posição normal. Naquele mês, o mamoeiro ainda não frutificara, mas havia frutos maduros nas mangueiras, embora de maturação tardia. As copas estavam carregadas, daí a presença dos periquitos e, também, do pássaro, levado pelo seu regime alimentar variado.

 

O pássaro se apressou em um voo trejeiteiro até à mangueira, colocando-se perto do casal de periquitos. A fêmea continuou a bicar um fruto maduro enquanto o macho prestava atenção ao canto insistente do pássaro:

 

–   Ela ainda está viva, a cutia?

 

–   Sim, está, mas eu não a vi – respondeu o periquito. – Alguns da minha espécie, e que estiveram aprisionados juntos com a cutia, viram-na andando pela capoeira que vai dar nos grandes montes.

 

–   Sei onde é, já vivi ali – atalhou o pássaro. – Conte mais, preciso saber!

–   É somente o que sei, além de ter sido ela levada para lá por humanos que não aqueles que a aprisionaram...

 

–   Estranhos esses humanos... agem das formas mais diversas... – comentou o pássaro, como se falasse para si mesmo. – Certamente os outros também foram para lá, devo procurar a cutia – disse.

 

–   Nada sabemos, mas é possível que os demais animais tenham ido para os grandes montes! – respondeu o periquito. Depois se juntou à fêmea para, também, se banquetear com mangas maduras.

 

–   Cri-ri-ri! Cri-ri-ri! – assim os periquitos se despediram do pássaro.

–   Estou indo, estou indo! – respondeu o pássaro. E seguiu para o centro da cidade, para levar a boa-nova à coruja e ao cavalo.

 

 

O PÁSSARO esteve primeiro com a coruja para dar a notícia do paradeiro da cutia. Sabia que a encontraria, empoleirada, em um recanto da torre do campanário. Ali, naquele local tão desinteressante para o pássaro quanto seu ninho o é para os humanos, vive a suindara, de 37 centímetros de comprimento, sempre trajando uma suave e abundante plumagem; vermelha acinzentada no dorso e branca na parte inferior do corpo. Dada à meditação solitária, embora convivendo com humanos e alimentando-se de pequenos mamíferos, aves e invertebrados, que caça com maestria, a coruja sabe da existência de parentes e contraparentes seus habitando o imenso espaço iluminado pelo grande luzeiro no Firmamento. São parentes que jamais ela visitou; parentes que jamais vieram vê-la alguma vez, à exceção das primas buraqueiras, bem menores do que ela e de coloração parda, da cor da terra. Essas, às vezes, ela encontra por aí, pelos pastos, campos e restingas, à beira de seus ninhos em buracos ao rés do chão. Lamentavelmente, dos parentes que habitam as grandes e distantes florestas nunca recebeu visita. Mas que vivem por lá, disso não tem dúvida.

 

A conversa entre o pássaro e a coruja naquela tarde foi curta. A coruja disse, em meio a um resmungo monótono, que precisava dormir antes de suas atividades noturnas e, por isso, dispunha de pouco tempo para tagarelar. O pássaro respondeu, com piados leves, que compreendia a situação da coruja e se despediu. Daí, foi ter com o cavalo, que se encontrava parado, logo adiante, amarrado à carroça. Ainda suado e resfolegante, o cavalo acabara de chegar de uma longa viagem, conduzido pelo carroceiro, no transporte de troncos de árvore.

 

–   Olá, bom dia! Tenho novidades, caro equídeo! – trilou o pássaro ainda no ar, para depois assentar na lateral da carroça. – É sobre a cutia...

–   Notícias boas, eu presumo! – rinchou o cavalo, interrompendo o pássaro. E balançou a cabeça para cima e para baixo, soprando com força pelas narinas, como sempre faz para se anunciar.

 

–   Sim! Ela foi vista lá pelos lados da capoeira, segundo contaram dois psitacídeos.

–   Essas aves que imitam os humanos?! – reagiu o cavalo, empinando-se de forma agitada. – Não confio nesses tiribas; passaram por aqui tilintando feito um bando de filhotes humanos. Mas, vá lá, diga tudo!

 

–   Se já ouviu, nada tenho de novo! – respondeu o pássaro, desolado. – Eu fiquei contente e penso em voar para lá, ficar um tempo longe daqui!

 

–   Que seja! – assentiu o cavalo, agitando a cauda, alegremente. – Sou indiferente a locais, vivo bem em qualquer lugar, coisa que vem desde meus antepassados. Eu me arranjo diante das dificuldades.

 

–   Equídeos e humanos há muito vivem juntos – disse o pássaro, já assentado no dorso do cavalo.

 

–   Sim! Há muitas e muitas luzes que sequer consigo imaginar – respondeu o cavalo. – Mas, antes de se valerem da nossa força, os humanos já utilizavam a energia dos ovinos, dos caprinos e dos bovinos em seus serviços.

 

–   Hum! – reagiu o pássaro. – Conte mais, por favor...

 

–   Nada compensa ficar a remoer pesar e raiva... – filosofou o cavalo. – Torna-se mais difícil viver em meio a lamentações, acredite!

 

–   Posso dizer, a bem da verdade, que isso não me afeta! – piou o pássaro. – Eu me revigoro a cada vez que o grande luzeiro surge detrás das montanhas.

 

–   Vocês, aves, têm lá suas razões – resmungou o cavalo –, já para nós, equídeos, viver nada é; saber viver, sim, é tudo.

 

–   Não seja exagerado! – piou o pássaro.

 

–   Ah, é? Somos usados e explorados pelos humanos desde que nos domesticaram...

 

–   Trabalhos de carga... – interrompeu o pássaro, condoído.

–   Não só esses e mais os de sela... – lamentou o cavalo. – Os humanos massacram-nos com suas idiossincrasias, quando muitos dos nossos morrem.

–   Os humanos também nos martirizam, se é que você não sabe. Por isso não os entendo... – acrescentou o pássaro.

 

–   Como assim não os entende?! – fez o cavalo.

 

–   Já vi humanos protegendo animais e aves e, também, humanos agindo de forma contrária. Explica-me, como bem e mal podem coexistir em uma mesma espécie? – indagou o pássaro.

 

–   É aquilo que, não tendo partes, não pode ser dividido! – disse o cavalo.

O pássaro pareceu não entender.

 

Se fosse possível ao cavalo explicar, diria que cada um do todo dos seres humanos é individuum, particular da sua espécie.

 

–   Cada humano tem suas próprias particularidades, as quais não compartilha com um semelhante – acrescentou o cavalo.

 

Diria, ainda, o cavalo ao pássaro, que esse ser individual é próprio, particular de cada humano. Dessa forma, o ser que há em alguém é dessemelhante do ser que reside em outrem. É, pois, indivisível, diferentemente de como ocorre com os demais animais no todo de suas próprias espécies. Os seres animados, à exceção dos humanos, se comportam, em cada espécie, semelhantes uns aos outros. Os antigos filósofos gregos defendiam que os animais têm comportamentos e prazeres únicos, mas divergentes entre espécies. Assim, para Aristóteles, os prazeres entre os de espécies diferentes são, também, dessemelhantes. Mas, admitia aquele filósofo, os prazeres em uma determinada espécie não diferem. O gongolô, por exemplo, quando tocado, enrola-se; a lacraia não, reage com picada venenosa. Mas todas as lacrais comportam-se desta forma e todos os gongolôs daquela outra maneira.

 

Ainda na Grécia antiga, os filósofos concebiam a matéria formada por minúsculas partículas indivisíveis, uniformes e eternas. Por essa teoria, a qual cientistas contemporâneos vieram a contestar, após dividir o corpo repetidas vezes chegar-se-ia a uma parcela mínima, e tão mínima, a ponto de se tornar indivisível. A essa parcela diminuta, um daqueles antigos filósofos chamou de átomo. Em grego: sem divisão. Mas se tal concepção a respeito da indivisão da matéria acabou sendo modificada, após perdurar na história por mais de dois mil anos, no caso do animal homem, ente biológico, já se sabe não se tratar de um ser individual senão de um ser específico. De modo que o ser homem animal tem o corpo composto de partes orgânicas preparadas para conservação da vida, e divisíveis na sua composição. E na condição de animal são classificados tanto o homem, embora seja racional, quanto o peixe, a ave e tudo que se move e que sente. Mas o homem é individuum, como defendeu um pensador dinamarquês.57 Para ele, o homem é um indivíduo e, como tal, é ao mesmo tempo ele próprio e toda a espécie humana, de tal sorte que a humanidade está inteira no indivíduo assim como o indivíduo participa de todo o gênero humano. Segundo aquele pensador, nenhum indivíduo é indiferente à história da humanidade, e nem esta é indiferente à história de um indivíduo. Aqui está a essência da existência humana. O apóstolo São Pedro escreveu, em sua primeira carta: “Acima de tudo, cultivai, com todo o ardor, o amor mútuo”  Não seria o mesmo que, embora individual, estar, também, no conjunto?

–   Talvez devido a tais heterogeneidades – ariscou o pássaro – é que seja difícil cultivar amizade com humanos.

 

–   Faz sentido – respondeu o cavalo. – Mas não se aplica apenas aos humanos, também a outros animais, conforme suas probabilidades de ação.

–   Ah, tudo começa a ficar complicado para mim... – piou o pássaro, já se despedindo. – Logo, logo volto a viver na mata.

 

–   Vá mesmo! – relinchou o cavalo. – Mas lembre-se de que só do bom humano é que se pode esperar possibilidade de amizade, pois este procura ser justo.

–   Sei, sei! – piou o pássaro.

 

–   Nada de bom espere do mau humano; seu limite de amizade é reduzido e suas ações causam desarmonia – sugeriu o cavalo.

 

O pássaro fez alguns voos em torno do cavalo e depois afastou-se da praça. Do alto, gritou que seguiria para o quintal da casa onde estiveram presos os animais e as aves e em seguida rumaria para a mata, e lá pretendia permanecer por algum tempo. – Não sei quando volto a revê-los – piou, antes de se distanciar.

O pássaro estremeceu ao imaginar que tornando a viver na mata talvez não mais se avistasse com o cavalo e a coruja; que outras aves e outros animais passariam a fazer parte do seu cotidiano. Sentiu vontade de dar meia volta e confessar ao cavalo que jamais se esqueceria dele. “Como jamais me esqueci daquele bovino que vive em uma habitação de humanos, perto da mata” – disse para si mesmo.

Uma corrente de vento frio agitou as penas do pássaro, acalmando seu espírito, e ele prosseguiu o voo. “Sempre foi assim e assim será, sob os raios do grande luzeiro” – pensou o pássaro. Pouca coisa aprendera a respeito dos humanos, mas o suficiente, ele sabia, para que pudessem conviver pacificamente. Não se arrependera do tempo passado com os humanos, mas sentia a necessidade de voltar à mata e, também, de encontrar-se com muitos dos que vivem ali. O pássaro certamente não se sentia melancólico, não é próprio de uma ave ansiar por probabilidades, aqui uma condição inerente ao ser humano, qual seja, de projetar o futuro mesmo diante do risco de fracasso.

 

Quem, entre os homens, não deseja ser feliz, não deseja estar com os seus e, sentado no meio deles, cantar com eles? Tal desejo aumenta par a par com os dias vividos, quando as curvas da existência se interpõem a ponto de, buscando o passado, não mais se divisar o início da caminhada. Entretanto, pode ser, sim, que alguém não se compraza com a doce melancolia da saudade. Seria aquele cujo espírito deixa-se embaraçar, porque a nostalgia remete à calma, e a calma, se não entendida, à perturbação.

 

– Bem-te-vi! Bem-te-vi!

 

O pássaro cantou, do alto do mamoeiro, após chegar ao quintal da casa onde estiveram presos animais e aves. “Adeus, pode ser que eu volte; pode ser que não. Adeus habitação dos humanos” – despediu-se.

 

O PÁSSARO agora voava pelos campos onde nascera, e dali seguiu para a capoeira, pois ali voltara a viver a cutia.

 

Tão logo chegou aos campos verdes, após deixar a cidade, o pássaro ouviu boas notícias sobre o paradeiro da cutia. “Tenho de revê-la, saber como voltou para cá; se por bondade dos humanos ou por escapada” – assim pensou o pássaro naquela manhã, quando eram passados, pelo calendário dos homens, duas semanas da sua conversa de despedida com o cavalo. “Que tristeza, aqui tudo está acabando” – meditou ao sobrevoar a capoeira, esta vegetação secundária composta de gramíneas e esparsos arbustos nascidos onde antes predominaram matas de grandes e altas árvores.

 

Ora, ali naquele pedaço de chão, em um passado não muito distante, podia-se admirar uma floresta fechada; agora, não. Depois que se estabeleceram na região, os homens derrubaram árvores e afugentaram animais e aves para implantar agriculturas e pastos; ora com fogo, ora com corte de madeiras. Tais ações antrópicas transformaram florestas naturais em capoeiras, algumas destas por sorte já exibem plantas jovens, mas outras, ainda bastante ralas, mais se assemelham a uma caatinga. Pois capoeira nada mais é do que o resultado de um processo natural de regeneração da vegetação em locais onde antes houve corte da fauna primeira. Ah, e tem ainda a quentura abrasante, devido à facilidade com que se espalham os raios solares sobre o solo, devido à rara vegetação, enquanto que nas florestas, intacta, a mata apresenta-se densa, abafada e úmida. “A cutia vive bem na capoeira” – tranquilizouse o pássaro ao lembrar-se de haver ouvido, da parte da roedora, tal revelação.

 

Nisso estava quando avistou a cutia, adiante, a alguns metros de distância, percorrendo um aceiro próximo a uma cerca de arame farpado. O pássaro cantou para anunciar sua chegada e voou em direção à roedora. Ao divisar aquela imagem contra o sol a cutia lembrou-se do gavião. Assustada, disparou em direção a um tronco de árvore chamuscado ali perto, enquanto o pássaro repetia a saudação, desta vez mais alegremente.

 

–   Não se assuste; não se assuste! Vim saber de você!

 

–   Estou bem, mas assombrada! – exclamou a cutia, em tom de desculpas. – E você, como anda?

 

O pássaro assentou-se no tronco de pau que, certamente, fora sapecado pelas labaredas de uma coivara cujos sinais ainda eram recentes. E pulando pelo tronco, para evitar os pontos de cinzas, piou mais vezes.

 

–   Como você se livrou daquele sofrimento e voltou para cá, para a capoeira? – quis saber o pássaro. – E os outros, como conseguiram fugir e aonde foram?

–   Pouca coisa eu sei dizer, menos ainda sobre o que aconteceu aos demais. Foi tudo muito rápido... – respondeu a cutia.

 

–   Mas é certo que saíram. Ao menos, você está aqui! – insistiu o outro.

 

–   Sim, saímos. Mas fomos retirados de lá por humanos e levados para outro local, onde ficamos por certo tempo até que me trouxessem para cá – disse a cutia, enquanto desenterrava com as patas dianteiras algumas sementes e talos de ramagens escondidos sob o pé de pau caído. Guardara para comer depois, um comportamento de há muito tempo e natural entre os da sua espécie.

O pássaro deixou o tronco, onde não havia formigas, e pousou próximo à cutia para, também, buscar alimentos no chão.

 

Então reagiu:

–   Pelos humanos?! Não acredito. Os humanos surpreendem-me com sua instabilidade, são quebradiços quanto um galho seco!

 

–   Se são, não sei! O que sei é que alguns deles tiraram-me de lá e cuidaram de mim até que eu me recuperasse! – respondeu a cutia, após um longo suspiro de lamento.

 

O pássaro não encontrou inseto no chão e, antes de voar para uma estaca da cerca de arame farpado, filosofou:

–   Não entendo os humanos; uns são maus, muito maus, outros são bons, boníssimos, e nunca se sabe de que forma vão agir.

 

–   Entre os nossos também há muitos assim, maus, muito maus... – disse a cutia, enquanto cravava os dentes incisivos nas sementes de feijão-bravo que guardara.

 

–   Mas, nesse caso, sabemos quem são e onde estão, e podemos fugir daqueles que nos ameaçam! – reagiu o pássaro, já no topo de uma estaca, tomada de cupim, a banquetear-se.

 

–   Eu que o diga. Não me esqueço daquele falconídeo, traidor sagaz! – chiou a cutia, olhando para cima e para os lados com receio de o gavião voltar.

 

–   Sabemos que os falconídeos são assim e não nos enganamos quanto a todos eles; já os humanos... – iniciou o pássaro.

 

–   Pouco sei dos humanos. Vivi sempre distanciada e não guardo boas lembranças da temporada forçada com eles – respondeu a cutia.

–   No começo de tudo, quando da geração dos humanos, as sementes lançadas pela Grande Luz caíram diversificadas... – e o pássaro não chegou a concluir seu raciocínio, interrompido que foi pela cutia.

 

–   Nada sei a respeito, repetente cantador; a não ser que tudo ao meu redor é muito vasto e a minha cabeça é muito pequena...

 

–   Ora, isso no entanto não deve impedi-la de enxergar além do seu focinho – o pássaro piou como se ralhasse pela interrupção. – Essa questão dos grãos bem define os humanos...

 

–   Perdão pela intromissão! – rendeu-se a cutia. – Prossiga, por favor!

 

–   Algumas daquelas sementes deram com espinhos e, nascidos e crescidos no espinheiral, os humanos foram sufocados; outras sementes caíram em terra boa, e delas nasceram e cresceram bons humanos.

 

–   Visto assim, os humanos nada têm de seu; tudo já estaria traçado ao surgirem – arguiu a cutia –, e resume-se ao que será, será!

 

–   Não seja tão fatalista! – reagiu o pássaro. – Segundo o sábio pássaro, existe o livre-arbítrio, guardião da vontade de cada humano reger seus atos.

 


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