Sábado, 29 de Dezembro de 2018 - 05:38

Yes, nós temos chumbo

por Elieser Cesar

Yes, nós temos chumbo
Foto: Arquivo Pessoal

YES, NÓS TEMOS CHUMBO – No romance Boquira, Carlos Navarro Filho denuncia a exploração de uma empresa típica de uma republiqueta de bananas

 

O jornalismo literário brasileiro acaba de ganhar uma vigorosa contribuição, mistura do melhor da investigação jornalística (rigor na apuração dos fatos e contundente denúncia social) e do cuidado estético da boa ficção: Boquira, do jornalista baiano Carlos Navarro Filho, por muitos anos chefe da sucursal em Salvador do jornal O Estado de São Paulo, numa época em que os grandes jornais do sul do país, incluindo O Globo, o Jornal do Brasil e, em escala menor, a Folha de S. Paulo, mantinham uma pequena e atuante redação na capital baiana.

Boquira pode ser lido como um livro-reportagem ou um romance de não-ficção na célebre definição de Truman Capote, autor do maior clássico do gênero, o cultuado A sangue frio. O livro conta uma história digna de uma republiqueta de bananas que não produziu frutas para os Estados Unidos e a Europa, à custa do enorme sacrifício das populações (como aconteceu com os países da América Latina explorados pela norte-americana United Fruit Company), mas chumbo, da extração ao beneficiamento do minério.

Com um estilo objetivo e direto do jornalismo, mas repleto de personagens e detalhes de vida (como convém ao romance), Navarro relata como, durante muitos anos, a Companhia Brasileira de Chumbo (Cobrac), subsidiária da transnacional francesa Penãrroya Oxide S.A,  contando com  a cumplicidade das autoridades locais e até da ditadura militar, explorou chumbo na localidade de Vila dos Macacos, depois Boquira, no sertão  da Bahia, enfeixando poder sobre a vida e a morte da pessoas do lugarejo.

O autor comenta a gênese do romance: “Esta é uma história feita por jornalistas. Um tanto romanceada, um tanto fantasiada, mas calcada em fatos reais que afetaram seriamente, e ainda afetam a vida de pessoas em duas cidades da Bahia. Pessoas foram mortas física e moralmente sob a complacência da ditadura militar, que apoiava e usufruía de benesses da multinacional que se beneficiou do processo, tal e qual numa republiqueta de bananas, que um dia existiram na nossa latino-américa”.

É uma história de injustiça praticada por uma poderosa empresa contra pequenos posseiros remanescentes de bandeirantes que se fixaram na região e trabalhadores das minas sob a “lei do chumbo”, o minério exportado para os grandes mercados internacionais e também a bala que matava aqueles que ousassem contrariar os interesses da poderosa mineradora.

Os dirigentes da empresa ditavam as leis do lugar, subornando juízes, escolhendo os prefeito, os vereadores e o delegado dos municípios mais próximos como Macaúbas, Oliveira dos Brejinhos, Paramirim e vizinhanças, usurpando as terras dos pequenos agricultores e monopolizando o uso da água, o que inviabilizava a agricultura e a criação de animais. Enfim, assumindo o controle geral e impondo a lei do forte contra os mais fracos, como num filme de faroeste.

Conta Carlos Navarro Filho, pela boca de um personagem: “A empresa controla os negócios, a saúde, a política, os órgãos públicos e a igreja, à exceção de Jesus Cristo, porque aqui ele nunca botou os pés”. Sequer numa goiabeira, acrescentaríamos, considerando que o Nazareno desandou a andar por aí, à toa, se conferirmos credibilidade ao fantástico testemunho de uma futura ministra de Estado pretensamente dotada de visões celestiais.

O juiz da comarca, mal chegava a Macaúbas e, como um funcionário obrigado a bater o cartão de ponto, ia direto à mineração, onde tomava banho, trocava de roupa e só despachava documento depois de consultar a companhia. Aos jovens eram destinados dos tratamentos diversos. Os filhos dos altos funcionários eram tratados com regalia e considerados aliados da mineradora. Os mais afortunados eram enviados para estudar engenharia em Salvador e, depois de formados, voltavam para a mineradora a fim de reproduzir o ciclo vicioso de injustiça e repressão. Os mais pobres, se incorressem em contestação, eram demitidos sumariamente e passavam a integrar a lista dos inimigos da mineração. “Neste caso é melhor ir embora”, diz Navarro. Já aqueles que não queriam perder o emprego, tinha que assistir “os pais morreram de velhice precoce, subalimentação, tristeza, esvaziando a resistência ao esbulho que lhes tirou a terra e o brio”.

CRIME EM SANTO AMARO

Além da mina em Boquira, onde deixou mais de 6 milhões de toneladas de resíduos de chumbo sem qualquer contenção, depois que paralisou a extração do minério, em 1992, a Cobrac explorava uma fábrica de lingote de chumbo em Santo Amaro da Purificação. Naquele município do recôncavo baiano a companhia cometeu um dos maiores crimes ambientais que se tem notícia no Brasil. Depois de encerrar suas atividades, em 1993, deixou um passivo ambiental de 490 mil toneladas de material contaminado, crime que, segundo Navarro, “só encontra paralelo na Baía de Minamata,no sul do Japão”, onde uma   a fábrica de produtos despejou  toneladas de mercúrio, provocando  a debilidade mental e a morte de centenas pessoas.

É Carlos Navarro Filho quem analisa: “O desastre ecológico provocado pela Cobrac em Santo Amaro é imensurável. A altíssima concentração de chumbo e de cádmio, dois metais pesados altamente tóxicos e perigosos, contaminou a bacia do rio Subaé, que recebia os resíduos in natura da usina instalada a trezentos metros do leito do rio, que corta a cidade ao meio”. Já os especialistas da Universidade Federal da Bahia citados no livro,  atestaram que “além de ser praticamente irremovível, a concentração de metais pesados matou ao longo do tempo pessoas e animais, destruiu lavouras nas margens do rio e da baía e envenenou o lençol freático”. Em decorrência disso, “até os dias atuais a população sofre com as consequências dessa contaminação no sangue, no cabelo, em todas as partes do corpo por chumbo e cádmio, em especial as crianças residentes em um raio de novecentos metros da chaminé da Cobrac”.

Já os trabalhadores envolvidos com o processo industrial “começaram a aparecer com problemas auditivos, sonolência, indisposições, cansaço, dores articulares, problemas respiratórios e pulmonares, problemas renais e cardiovasculares, danos ao sistema nervoso, perda de memória e dificuldade de aprendizagem por redução do desenvolvimento neurocognitivo”. Nesta época, chamou a atenção em Santo Amaro a aparição de homens azuis. Navarro explica o fenômeno: “Os sanitaristas diziam que o alto grau de saturnismo [intoxicação do organismo por chumbo], especialmente adquirido na boca do formo da Cobrac, além de confinar os braços, paralisar as mãos, dar impotência sexual nos homens e hemorragia e aborto nas mulheres, faz o sujeito ficar de uma cor grafite, meio azulada”.

O  mais espantoso de toda história é que no auge do litígio entre os posseiros, os verdadeiros donos das terras, e a Penãrroya, o Governo da Bahia tenha entrado na disputa para promover a  pior solução possível: em 21 de fevereiro de 1959, assinou um decreto tornando de utilidade pública e desapropriando uma área de  mil e duzentos hectares para a instalação da Indústria de Mineração e Concentração de Minérios de Chumbo Boquira, que tantos males causaria à região, a  exploração dos trabalhadores grilagem de terras, as mortes atribuídas aos jagunços da empresa travestidos de seguranças e do grande desastre ambiental em Santo Amaro da Purificação.

Até hoje, os Ministérios Públicos (estadual e federal) lutam para que se cumpra uma sentença, proferida em 2014, que obriga a Penãrroya a recuperar os danos ambientais e sociais causados e pagar indenização pelo crime. Contudo, sucessivas alterações da razão social da empresa e recursos jurídicos protelatórios vêm adiando o cumprimento da decisão judicial.

CAÇA A LAMARCA

As boas relações da empresa com a ditadura militar são narradas num capítulo sobre o cerco, a perseguição e a morte do capitão Carlos Lamarca, desertor do exército e guerrilheiro. Lamarca foi  mortos em 17 de setembro de 1971, quando debilitado depois de caminhar  cerca de 300 km pela sertão baiano descansava  à sombra de uma árvore, em Pintada , na região de  Brotas de Macaúbas. Com ele também foi executado seu companheiro de luta armada  Zequinha Barreto.

Carlos Navarro Filho conta que a Cobrac ofereceu apoio logístico (avião, viaturas e motoristas) à perseguição dos procurados e em troca caiu nas graças, do regime militar.  Foi uma luta desigual, como conta Navarro em Boquira, uma operação de guerra com duzentos e quinze militares das três armas, mais a Polícia Militar da Bahia e o Dops do delegado Fleury, dentre eles quarenta oficiais, cento e vinte e oito praças, dois delegados, dezoito inspetores e vinte e sete agentes. Todo esse aparato bélico montado para apanhar dois homens “alquebrados por mais de meses de sobrevivência na caatinga seca e inclemente, sem dormir, sem comer, bebendo o liquido de bulbos de plantas nativas”.

 

TRIUNFO DO JORNALISMO

Boquira é o segundo livro de Carlos Navarro Filho. O primeiro foi a coletânea de contos Gororoba, de 2015. A nova história relatada por Carlos Navarro Filho começa, na verdade, no início dos anos 70, quando ele, egresso da faculdade de Comunicação, mas já no Grupo Estado, resolve formar um pool de jornais, juntando o Estado de São Paulo, o Jornal da Tarde, o Diário de Notícias e o Jornal da Bahia, para cacifar os jornais de Salvador a publicar as denúncias sobre a exploração da mineração em Boquira. Para surpresa do jornalista, todos os jornais publicaram as reportagens, menos o Estadão.

Angustiado com a censura interna de um jornal que já sofria a externa, Carlos Navarro Filho esperou quatro décadas para transformar em romance as reportagens que o jornal de São Paulo decidiu não publicar. Por seu viés ambientalista, Boquira  pode ser considerado um “eco romance”, se é pertinente a classificação, mas é, acima de tudo, o triunfo do bom jornalismo, num tempo em que a longa reportagem parece relegada a um diletantismo anacrônico de repórteres românticos.

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