Sábado, 01 de Dezembro de 2018 - 05:02

INGRESIA

por Franciel Cruz

INGRESIA
Foto: arquivo pessoal
Os incríveis brancaleones
rubro-negros
 
 
 
 
Autoritário e narcísico, como todo bom pai deve ser, eu tinha um sonho: impor ao meu filho, quando ele desembarcasse neste vale de lágrimas, minhas concepções ético-filosóficase culturais. Traduzindo: fazia-se mister (recebam, hereges, novamente um mister pelos mamilos e distribuam) torná-lo torcedor do Esporte Clube Vitória.
Otimista e abestalhado, como todo bom pai deve ser, achei que esta seria uma tarefa fácil. No caso específico, principalmente, porque quando meu rebento chegou, no início da década de 90, o brioso Rubro-Negro abandonava um histórico de choro e ranger de dentes e começava a se impor, conforme preconizado pelo menino Gramsci, de forma hegemônica no futebol baiano.
Porém, ai porém, (alô, Paulinho da Viola), em verdade lhes informo: hodiernamente, os guris de dois, três anos, não têm mais a menor noção do que realmente importa. E afirmo isso não como uma teoria solta ao vento, mas baseado em fatos. Vocês, céticos, podem até duvidar, mas a realidade é que, em 1993, o menino Sandro (eis o nome do santo) não vibrou com aquele brinquedo assassino que encantou o país e sagrou-se vice-campeão, enfrentando o poderio da multinacional Parmalat.
Persistente e crédulo, como todo bom pai deve ser, mesmo depois desta falha, deste pecado original, continuei acreditando que ainda era possível convertê-lo para o caminho da salvação.
E lhe falei sobre as maravilhas que o menino Petkovic fazia, em 1997, e do carrossel montado, em 1999, por Toninho Cerezo.
Em vão.
Assim, derrotado e humilhado nas quatro linhas, restou-me apelar: já que o sacaninha não queria saber de bola, teria que o impingir com minha falsa erudição. Vocês podem achar isso démodé, mas sou do Tempo do Carrancismo, quando tínhamos a obrigação moral de deixar marcas indeléveis em nossos herdeiros. Por isso, tal e qual um vaqueiro perverso, com a ferradura em punho, distribuí gracilianos e guimarães, bandeiras e drummonds, além de outros maizomenos cotados.No entanto, mais teimoso do que mula ruim, ele empacou em aleivosias do tipo de harry potter.
Então, vendo que literatura não dava camisa a ninguém, ou melhor, não vestia camisa em ninguém, fui para outra trincheira: cinema. Na época, uma febre nipônica adentrava o imaginário dos guris. Com o mesmo senso de oportunidade de um Índio da Costa, sugeri Akira Kurosawa e Yasujiro Ozu. O menino, percebendo que a vida não é filme (japonês), saiu de baixo e disse que gostava de lutas. E lá vou eu com o velho e bom Spartacus, de Kubrick. Ele disse nécaras e nada.
Violento e impiedoso, como todo bom pai deve ser, pensei em abandonar estas frescuras da educação moderna e aplicar o método tradicional: madeira no lombo do desinfeliz até que ele ficasse parecido comigo. Porém, na hora que já ia pegar o cansanção, o improvável aconteceu: os olhos dele brilharam para a obra de Mário Monicelli. Minha honra e o lombo do guri foram salvos pelo Incrível Exército de Brancaleone. Rimos juntos. E, ao perceber que de alguma forma estávamos mais próximos, eu quase chorei.
Maestro, corta o melodrama e volte novamente para o futebol.
Mutatis mutandis, o elenco do Rubro-Negro de 2010 poderia ser comparado aos personagens da referida comédia. Tal analogia reforça-se quando lembramos os protagonistas do Leão. A eles. A armada Rubro-Negra era defendida por um goleiro colombiano que estava no ostracismo no Atlético (PR). Na lateral-direita (ala é a puta que o pariu) um cidadão que carrega as dores e esperanças de seu estado natal, a Paraíba. A zaga era composta de dois garotos da divisão de base. Na lateral-esquerda (ala vocês já sabem quem é) um renegado do futebol carioca. Na cabeça de área, um cara que, em 2005, abandonou a primeira divisão para jogar na Terceirona pelo Leão. Ainda no meio, um jogador que, aos 38, insistia em lutar contra o tempo. O craque da equipe, Elkesson, teve que fraudar a própria identidade para poder jogar bola. Na frente, outro que, por questões, digamos, documentais acabou no xilindró na época. Não bastasse, ainda eram comandados por um técnico que nunca foi técnico.
Por tudo isso, mesmo chegando à final da Copa do Brasil, preferi não fazer pressão sobre meu filho. Afinal, se os timaços de 1993, 1997 e 1999 não entusiasmaram o referido, não seria aquele de 2010 que faria o milagre. Assim, contentei-me que estivéssemos juntos, ao menos, no apreço cinematográfico.
Contudo, depois da peleja decisiva contra o Santos, ao chegar em casa de madrugada, completamente grogue, cheirando a álcool e fumando sem cessar – como todo bom pai deve fazer quando seu time perde uma final –, ouvi as seguintes palavras do guri : “Meu pai, o Vitória jogou muito”.
Tal frase, que aos ouvidos de muitos soaria como uma mera platitude, me deixou desnorteado emocionalmente, com os olhos rasos d’água – de verdade. E agradeci a aqueles incríveis (limitados e desajeitados) gladiadores Rubro-Negros. Afinal, eles me deram algo muito mais importante que o título que não veio, mas ainda virá. Eles fizeram com que MEU filho, pela primeira vez, tivesse orgulho de MEU time. Obrigado, rebain de sacanas
 
 
 
 
 
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Qual é
o lugar DO REI?
 
 
 
 
Vocês, besuntados de erudição, talvez tenham uma palavra melhor, mas não consigo encontrar outra, senão epifania, para simbolizar e definir aquele sentimento febril que marcou indelevelmente a conturbada infância deste velhaco locutor que ora vos aborrece. Repetindo: epifania.
Já que entramos nesta seara, sigamos. Pode parecer, e é, uma confissão clichê e brega, no entanto, a verdade é que desde aquele primeiro encontro senti e percebi que meu destino estava inexoravelmente ligado ao daquela criatura esquisita por causa de outra palavra inconsequente: iconoclastia.
Repetindo: iconoclastia. Sim, sim, iconoclastia. Agora nem mesmo os doutos daqui irão me dizer que existe uma palavra melhor para resumir aquela criatura rouca, praticamente sem voz, entregando o microfone às 3 putas que subiram no palco em frente à Igreja Matriz e que provocaram tosses, sussurros e ranger de dentes nas senhoras de boa família do sertão de Irecê.
E o pior, ou melhor, é que não havia possibilidade de fuga, de não ser abduzido por aquela situação. Era muito gostoso e lisérgico, mais gostoso e lisérgico até mesmo do que o acarajé temperado com sardinha e outras mumunhas, que uma índia do Paraguai vendia na frente da minha escola, sob o olhar desconfiado do vigia Abdias, alcaguete da ditadura que a gente sempre homenageava com esta versão da cantiga do também genial Messias Holanda: “O galo canta e o macaco assovia, a pica do jegue no cu de Abdias”.
Mas derivo. É que toda vez que trato dele, o homem, o gênio, o deus, o pentelho, o mito, fico assim, meio emocional. Claro, minha comadre, estou me referindo a ODAIR JOSÉ, cujo aniversário, veja vocês, é no dia de São Roque, mais uma prova de que data é destino.
Então, para que eu não derrape mais, motô, puxa aí o freio de mão e volte até o ano da (des)graça de 2007.
Lá estava, absorto, realizando uma profícua reflexão sobre os problemas socioeconômicos e culturais de Pindorama quando Dona Sônia, cidadã que organizava a zorra toda lá em casa, interrompeu minha ressaca, digo, meditação, para largar a zorra. “Sêo Fransuel, como é que fazem uma desgraça desta? E ainda passam no Fantástico?”.
Ainda viajando na gloriosa boréstia  njebrinística, digo, elaborando complexos raciocínios sobre a conjuntura, não compreendi o motivo do rebuliço – até que ela me explicou que a justa revolta era motivada porque um bando de hereges profanou a palavra do REI (a Allegro Discos lançou em 2007 um tributo intitulado “Eu vou tirar você desse lugar”).
Ato contínuo, abandonei a ressaca/reflexão e larguei também as perguntas: como é que fazem uma desgraça desta? Por que diabos tentar dar um tique, um toque moderno a Odair?
Eu mesmo respondi. Não cabe. O bardo goiano num é moderno, é eterno, perene.
E comecei a xingar toda a árvore genealógica dos pilantras, mas xinguei em caixa baixa, maestro.: paulo miklos, suzana flag, pato fu, columbia, mombojó, zeca baleiro, mundo livre s/a, suíte super luxo, shakemakers, leela, sufrágio, picassos falsos, poléxia, jumbo elektro, arthur de faria e seu conjunto, terminal guadalupe, volver e los pirata.
O que estes rapazes e moças, alegres e deslumbrados, não entendem, nem nunca irão entender, é que jamais Odair José sairá de onde está. E o lugar do Rei é na vitrola de um bar pé rapado, tal e qual o de Pedin, na República Livre e Independente da Rua Tertuliano Cambuí, no árido sertão de Irecê.
Nestes tipos de recintos, nas velhas mesas de sinuca, a vida está sempre pela bola 7. Ao som de uma canção odaírica, a dor de amor não é graça – é à vera. Afinal, felicidade não existe.
O resto é barulhinho moderno de guitarras distorcidas – diversão de menino amarelo criado em playground.
Pronto. Encerrado o desabafo, confesso que nem mesmo as peripécias destes traidores me fizeram abandonar o mestre.
Assim, exatos 10 anos depois, no festejo do São João de 2017, despenquei novamente para a briosa cidade de Irecê para ver o referido. Valeu a missa. Ele continua o mesmo gênio iconoclasta de sempre. Numa festa junina do interior não fez uma mísera concessão ao regionalismo. Só cantou rock.
Passadas mais de quatro décadas, a cena se repetiu. As senhoras das boas famílias novamente ficaram incomodadas, fizeram muxoxos e abandonaram o show antes da metade. Mas ele não cedeu. Não saiu de seu imponente lugar.
Por fim, cabe perguntar novamente: qual é o lugar de Odair? Seguinte. Mesmo se mexendo pra lá e pra cá, ou talvez exatamente por causa disso, permanecer no mesmo canto de sempre, provocando epifanias e arrebatando os suburbanos e iconoclastas corações.
 
 
 

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