Domingo, 18 de Novembro de 2018 - 11:46

AS BOTAS PESADAS DOS ROTHSCHILD

por Carlos Navarro Filho

AS BOTAS PESADAS DOS ROTHSCHILD
Foto: arquivo pessoal
Outono de mil e oitocentos e oitenta um. Três da tarde de quarta-feira, dia dezenove de outubro. O amplo salão está mergulhado na penumbra de uma tarde fria. A iluminação dos abajours de cristais dourados não dá conta de clarear de verão aquele ambiente esfumarado pelos cachimbos, estando alguns homens de suíças grisalhas a pitar fumo negro em cigarros, uma invenção recente dos norte-americanos, que custava caro em Paris, acessível só a bolsos requintados.
No salão, espremiam-se mais de oitenta cavalheiros interessados na importante assembleia que formalizaria a criação de uma nova e moderna empresa. Vários cavalheiros ainda vestiam os casacos, não recebidos pela recepção limitada aos cinquentas lugares em torno da grande mesa ovalada. O local é a Praça Vendôme, número doze na porta do prédio de quatro pavimentos contando o sótão. A praça é dos lugares mais nobres da cidade, mandada construir no século dezoito pelo próprio Luis XIV. No centro da praça há a coluna de quarenta e quatro metros de altura levantada mais tarde por Napoleão em comemoração à vitória em uma de suas batalhas. O monumento imita a coluna de Trajano, em Roma, e no topo Napoleão posta-se vestido de imperador romano.
À cabeceira da mesa, Louis Cahen D'Anvers escolhido pelos anfitriões, o Marquês Du Lau, representando os irmãos Rothschild, e Paul Mirabaud, representando a empresa Miarabaud, Paccar, Puerari e Companhia, que se tornariam o maior e o segundo maior acionista daSocieté Minière et Méttalurgique de Peñarroya. A empresa havia sido pensada por Mirabaud, mas pela grandiosidade da proposta era preciso ser capitaneada por investidor do quilate dos Rothschild, que desde o início do século consideravam-se donos do mundo, poderio que perdurou até o início do século vinte. É atribuída ao primeiro Rothschild, o judeu alemão Mayer Amschel Bauer, a afirmação de que se tivesse o controle do dinheiro de um país a ele pouco importaria quem fizesse as leis.
Os donos do mundo compraram três mil e oitocentas ações, das dez mil que comporiam o capital da empresa, pagando novecentos e cinquenta mil francos e tornando-se os maiores acionistas, com 38% do capital. Mirabaud subscreveu três mil ações, e a composição final ficou com setenta e sete sócios pelos quais o total de ações foi distribuído. Um século depois, a Penarroya causaria um dano ao Recôncavo Baiano que só encontra paralelo na Baia de Minamata, no Japão.
No mercado mundial, notícias de oportunidades correm céleres quando não se as consegue manter trancadas, ou quando estão trancadas e são dirigidas ao grupo certo. Quarta-feira, onze de agosto de mil novecentos e cinquenta e quatro, treze dias antes do sacrifício do líder brasileiro, o Diário Oficial da União publica o decreto 35.930 do presidente Getúlio Vargas concedendo à Penarroya autorização para funcionar no Brasil, com uma empresa de capital social de dez milhões de cruzeiros.
Era ação decorrente das informações chegadas a Paris pelos interessados. E depois de ter dominado por largo tempo a Europa e superar duas grandes guerras, a Penarroya decidiu explorar as reservas brasileiras de chumbo e investir em metalurgia, estabelecendo-se no Rio de Janeiro. Uniu-se a Adriano Seabra Fonseca, dono da Plumbum, que extraía chumbo no lado paraense do Vale do Ribeira, em um lugar que foi batizado mais tarde de Adrianópolis, para explorar a mina de Boquira e a metalurgia em Santo Amaro, próxima ao escoamento portuário dos minérios por Salvador. A empresa no Recôncavo baiano levou o nome de Companhia Brasileira de Chumbo – Cobrac. A operação incluiu a Prest-O-Lite, fábrica de baterias e primeira empresa contatada pelo padre Nazário, que durante algum tempo fez parte da sociedade. Essa é a história da chegada dos Rothschild no Brasil, uma parte do mundo em que ainda não tinham posto os pesados pés.

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