Sábado, 03 de Novembro de 2018 - 05:03

ROMEU E JÚLIO – A HISTÓRIA DO AMOR (II)

por Lázaro Carvalho

ROMEU E JÚLIO – A HISTÓRIA DO AMOR (II)
Foto: arquivo pessoal
— Este feito do meu velhinho merece uma comemoração. Divina, pegue uma champanhe, vamos brindar, — ordenou Sufrágio.

—Sufrágio, eu preciso falar com você —avisou seu Candinho.

—Pode falar, meu velhinho, você pode falar e pedir o que quiser, estou muito orgulhoso de você. Mas antes, deixe-me dar uma palavrinha com Júlio César, “meu filho, você foi brilhante, parabéns! Foi graças à sua oração poderosa que papai foi liberto. Fiquei impressionado, meu filho, com o seu poder de oração, com sua autoridade e com sua capacidade de exorcizar. Se você algum dia resolver se dedicar à vida religiosa, você conta com todo o meu apoio para abrir sua igreja. Onde você arranjou tanta força assim, hein, menino?”

—É só ter fé verdadeira, simples assim —respondeu humildemente Júlio César.

—Sufrágio, eu preciso falar com você —insistiu seu Candinho—, quero que você repreenda Divina porque tarde da noite, quando vocês já estão dormindo e eu estou sossegado cochilando na espreguiçadeira, ela vai me atentar. Ela para na minha frente, tira a roupa, fica pelada rebolando pra me provocar.

Sufrágio não conteve a gargalhada. E se divertiu com o suposto assédio da governanta: —então, Divina, você está seduzindo meu velhinho, né? —comentou Sufrágio ainda se rindo da situação.

-—Assediar idoso é crime, viu, Divina… Isso que você sente por vovô é gerontofilia —comenta Júlio César, aproveitando o momento de descontração.

—É mentira dele, Dr. Sufrágio. Ele é que fica passando a mão em mim. Toda vez que ele sai de uma crise de prisão de ventre ele fica assim tarado, me apalpando —apressou-se em se defender Divina.

—Calma, Divina. Você já devia estar acostumada com os delírios de seu Candinho —aconselhou madame Dicéia.

—Olhe, Júlio César, papai está mostrando que ainda tem sangue nas veias. Se ele apalpa é porque sente atração, sente desejo. Então, meu filho, vou encarregar você de contratar os serviços de uma profissional do sexo para aliviar seu avô. Bem, agora vamos ligar o rádio para ouvirmos as notícias da guerra, seu avô deve estar avexado querendo saber os feitos de hoje dos nossos pracinhas nos Alpes italianos.

Júlio César correu para trás da grande estante divisória, folheada em jacarandá, logo após a espreguiçadeira de seu Candinho. Ligou um antigo rádio receptor valvulado que emitia apenas o chiado característico da banda de amplitude modulada. Impaciente, seu Candinho reclamou da demora.

—Calma, voinho. As válvulas ainda estão esquentando.

Ao cabo de alguns segundos, a voz microfônica de Júlio César, rompeu o silêncio:

 A rádio Irreverência da Bahia, PRA – 740, sob o prestígio comercial do “Banco Pênis” – crédito consignado com as menores taxas do mercado. Do papel higiênico “Anus Dourados” –suave como um simples carinho. E do supositório “Força Estranha”, para você levar vantagem sempre, apresenta: NOTÍCIAS DA GUERRA.

PRACINHAS DA FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA CONQUISTAM A CIDADE DE MONTESE, NO NORTE DA ITÁLIA.

Hoje, dia 14 de abril de 1945, após uma das batalhas mais sangrentas desta 2ª guerra mundial, os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira após quase 03 meses de intensos combates, conquistou a cidade de Montese, no norte da Itália.

O ataque da FEB, no dia de hoje, teve início por volta das 9h35, e foi realizado pelo 11º Regimento de Infantaria de São João Del Rei. O combate só terminou por volta das 15h. Com a vitória importantíssima dos nossos pracinhas sobre alemães e italianos. A tomada de Montese é de fundamental importância para o avanço das tropas aliadas contra os exércitos do Eixo.

Além dos atiradores alemães, os brasileiros tiveram que enfrentar o frio e o risco de terem os pés congelados, o que poderia causar gangrena e necessidade de amputação. Nós, brasileiros, nos orgulhamos desta grande conquista dos nossos pracinhas.

A rádio Irreverência da Bahia apresentou: Notícias da Guerra. Podemos voltar a qualquer momento se um fato novo justificar uma edição extraordinária.

Acabado o noticiário, Júlio César mais que depressa tratou de desligar o rádio e retornar para o centro da sala onde estavam os outros. Seu Candinho estava eufórico com a vitória dos Brasileiros na Itália. Levantou-se da espreguiçadeira, ajeitou a boina na cabeça e com os braços erguidos se pôs a caminhar em ritmo de dança, girando pela sala. Todos se divertiam com a alegria do ex combatente, que, destarte, vivia os delírios de uma remota realidade trágica, da qual ele havia tomado parte.

—E aí, papai, gostou da grande vitória brasileira?

Seu Candinho esboçou aquele seu único sorriso para todas as ocasiões, riso de zíper fechado no lugar da boca, bateu continência e ergueu os punhos, em sinal de vitória.

Sufrágio desejou boa noite a Divina, beijou o pai, deu a benção ao filho e, na companhia da mulher, dirigiu-se ao dormitório do casal. Divina foi ver televisão no seu quarto, Júlio César foi fazer o toucador e seu Candinho voltou para a sua espreguiçadeira.

Mais ou menos, uma hora depois, Divina aparece silenciosamente na sala à meia luz e se dirige à presença de seu Candinho. Movia-se devagar, sem nenhuma boa intenção aparente. Estava descalça e envergava um quimono na cor vermelha. Parou em frente do velho, que cochilava metralhando, aos montes, italianos e alemãs, na heróica tomada de Monte Castelo. Despertou com a barra do quimono de Divina acariciando maliciosamente o seu rosto. Mal abriu os olhos e a voz de Divina se fez soar ácida e libidinosa:

—Acorda, velhotinho safado. Já acordou, foi?

Seu Candinho esfregava as mãos, animado. À medida que falava, Divina desfazia da cintura, com requinte de sedução, a amarração do quimono vermelho de cetim de seda para a agitação de seu Candinho, que naquele momento detinha o privilégio apocalíptico daquela visão. O quimono vermelho agora pousava inerte aos pés da espreguiçadeira.

Seu Candinho saboreava aos poucos a nudez de Divina. Quanto mais admirava a beleza daquele corpo nu, mais se inquietava nos pensamentos. Até que havia nele um desejo físico, mas insuficiente para inverter a lei da gravidade e se erigir vitorioso e ameaçador. Esboçou o sorriso de gravata borboleta de sempre. Dessa vez a língua comprida e flácida, a mesma língua viril de outrora, projetou-se para fora da boca à semelhança de uma flecha impelida pela força de um arco esticado ao máximo. Fez estalido...

Divina dançava, se exibia, se mostrava toda, se movia com a performance de uma stripper.

 -—Vamos velhote taradinho, será que você é capaz de decolar este Boeing de última geração, ou você só se lembra de pilotar os velhos teco tecos de guerra, hein, safadinho? Vou dançar bem gostoso pra você, tá? Você fica passando a mão em minha bunda, né? Agora dê tapinha nela. Ah, pode morder ela, vou rebolar bem gostoso na sua frente, safadinho, você gosta...? vou provocar você até os limites da sua resistência, você agüenta, velhotinho tarado?...

Divina só desistiu da provocação perversa ao cabo de mais alguns minutos quando percebeu que a respiração de seu Candinho estava nos estertores. Ela apanhou o seu quimono jogado no chão e dirigiu-se mais que depressa para o seu quarto.

O deputado Sufrágio Bandeira chega em casa à noite na companhia de Adamastor Possi Mourão e o apresenta à esposa amada, que já havia sido orientada para tratar seu Dama de Dr. Adamastor, e garantiu à esposa que ele finge não gostar do tratamento, mas, que no fundo, ele adora.

—Esta é a minha esposa Dicéia Helena.

Seu Dama a cumprimenta beijando-lhe a mão e comenta:

—Sufrágio, sua esposa é muito bonita! Parabéns, minha senhora —Madame Dicéia sorriu com simpatia —Bondade sua, Dr. Adamastor.

—Faço questão que a senhora me chame de seu Dama, é assim que sempre fui chamado e quando alguém me chama de Adamastor, a ficha demora um pouco a cair. E como estamos em família, vamos nos tratar com menos formalidade, não é mesmo, Suflê?

—Claro, seu Dama, estamos em família.

Sufrágio abraça o filho e o apresenta a  seu Dama:

—Este é o varão primogênito, o meu filho Júlio César! 

—Seu filho é um rapagão, Sufrágio! Um belo rapaz. E tem cara de predador!

Júlio César riu um riso que até então ninguém conhecera: um riso forte e gravíssimo. Sufrágio ficou surpreso com o riso gutural do filho e constatou que ele estava mesmo levando a sério o acordo entre ambos, conquanto tenha percebido certa dose de exagero no papel interpretado pelo morgado. Mas, antes assim, relaxou...

—Seu Dama, este é Romeu, o melhor amigo de meu filho. Amigos de infância, são quase inseparáveis— Apresentou Sufrágio, Romeu, a seu Dama.

Madame Dicéia, distraída em pensamentos, observa atentamente seu Dama e fica tentando entender como pode um homem de tanto dinheiro, de tantas terras e de tanto poder ter uma estatura tão pouco expressiva. Notou que ele tem mãos pequenas, dedos curtos, e as unhas rosadas. Ela via na figura do grande cacique político sertanejo, a presença do caudilho Getúlio Vargas, na sala de sua casa.

.—Os dois, provavelmente, devem massacrar as muitas cabritas desgarradas desta cidade —atalhou seu Dama, sorridente.

A risada de Júlio César que se seguiu à suposição de seu Dama assustou Romeu, que buscou, com os seus, os olhos do namorado. Júlio César, discretamente, se persignou ante o absurdo inconcebível proferido pelo visitante.

—Vamos para a piscina conversar ao livre, não vamos desperdiçar uma noite tão linda de lua cheia, propôs Sufrágio, vamos, seu Dama, vamos Júlio César, vamos, Dicéia, vamos todos. Vamos Romeu, Vamos, papai.

O facho brilhante da lua de alumínio se espargia sobre o belíssimo jardim do  deputado Sufrágio Bandeira, e oferecia um cenário ideal para um encontro tão esperado.

—E aí, meu jovem, você já se formou? Atua em que área? —perguntou seu Dama interessado.

—Ainda não, mas falta pouco, Atalhou Sufrágio, eu queria que ele fizesse engenharia civil, para cuidar da construtora, mas ele quis ser advogado. Ele já está bem envolvido com o departamento jurídico da Construtora.

—Eu não tenho filho, como você sabe, só tenho filhas para me consumir. As filhas nos trazem os problemas na forma de marido e nós temos que arcar com o ônus de ser sogro. Não tive a sorte de ter um filho macho, bem apanhado, como esse seu menino, Suflê.

—É, seu Dama, eu gostaria de ter um casal, mas Dicéia não podia ter mais de um filho, estou muito satisfeito com o filho que tenho. Júlio César é o filho que eu pedi a Deus. E Deus deferiu o meu requerimento. É um menino inteligente, criativo, bem humorado, adora contar piadas. Um dia vou pedir para ele lhe contar a história de um concurso feito no Ceará para eleger a biba mais criativa do ano. É muito engraçada esta piada. Este menino tem o talento e a inteligência de um ator, é um grande artista, seu Dama. Ele é carismático e performático.

—Suflê, manda esse menino passar uns dias lá na fazenda, o que mais tem por lá são cabritas fogosas, esse menino vai fazer acabamento, vai passar o rodo, comentou seu Dama, já no 6º uísque e dando uma sonora gargalhada.

Romeu fez figa nas duas mãos e já sentia se desenvolver na sua alma uma antipatia repugnante por aquele homem baixote, inconveniente e lascivo, para quem o sexo devia ser a coisa mais importante da vida. Ele fez figa com os dedos médio e indicador cruzados.

Sufrágio contou a seu Dama o episódio da prisão de ventre de seu Candinho, a preocupação da família e o bom êxito alcançado graças a oração inspirada de Júlio César.

—Então vocês fizeram uma oração, em família, e após o sucesso chegaram mesmo a cantar o hino nacional, foi, Suflê? —perguntou seu Dama imaginando a cena e se rindo da situação.

—Este meu filho é um talento, seu Dama. Vai ser bem sucedido em tudo que fizer na vida. Júlio César, meu filho, conte para seu Dama a história do brasileiro pobre quando compra o seu primeiro automóvel...

Júlio César soltou o seu riso potencialmente grave e começou a contar a história...

Seguinte, seu Dama, quando o sujeito lascado, morador da periferia, compra seu primeiro automóvel, naturalmente, é um carro de segunda mão, um carro usado, podendo ser semi-novo ou velhinho conservado, ele logo escreve no para-brisa traseiro do carro: “Pertence a Jesus”, ele atribui a Jesus a propriedade do veículo para ver se Jesus arca com os débitos do emplacamento e assume as multas existentes.

Mais tarde, quando ele consegue comprar o seu primeiro carro 0 km, é um carro popular, tudo bem, mas é seu primeiro carro 0 km. Aí ele não diz mais que Jesus é o proprietário, ele muda a inscrição e escreve no para-brisa traseiro: “Foi Deus Quem me Deu”, escrevendo assim ele tira de Jesus a propriedade do veículo. O carro agora é dele só.

E quando ele adquire o seu primeiro carrão luxuoso, ele toma precauções jurídicas. Ele muda a inscrição e escreve no para-brisa traseiro:  “Quando Deus quer é assim”, deixando bem claro que foi ele quem comprou e é ele quem está pagando as prestações, sem ajuda de ninguém. Dizer que foi Deus quem deu pode ter implicações porque quem dá, pode, um dia, querer tomar de volta...

Seu Dama ria muito. Ria tanto que tossia. A sua admiração por Júlio César era uma admiração íntima. Crescente. Promissora. Caminhou em direção ao morgado e pondo-lhe as mãos sobre os ombros, falou olhando profundamente os olhos absurdamente negros do rapaz:

—Meu jovem, prometa que você vai passar uns dias comigo na fazenda, promete?

—Prometo fazer o possível, seu Dama, para passar uns dias por lá.

—Teremos noites inesquecíveis de bate-papo e diversão. Quero muito ouvir as histórias que você tem pra contar.

O convite de seu Dama soou como um despautério para Romeu, que sentia o ciúme lhe roer por dentro. Não sabia até onde suportaria aquele assédio indisfarçável do baixote imoral.

A empada de massa podre com recheio de camarão era degustada sem parcimônia por seu Dama, que aproveitava aquele ambiente confortável, sem a presença indesejada de assessores, puxa sacos, políticos oportunistas e bajuladores profissionais e saboreava as sensações deliciosas que seu coração romântico urdia, olhando a lua cheia que se derramava sobre os presentes naquela mesa de jardim do éden.

Júlio César, subitamente, empalideceu. Buscou, desesperadamente, o olhar cúmplice da mãe, no que foi, de pronto, acolhido. Madame Dicéia dirigiu-se até o filho e segurou firme a mão dele. Ela também estava apavorada, temia pelos frágeis limites do único fruto do seu ventre.  Júlio César respirou fundo, fechou os olhos e cravou o polegar direito na palma da mão até sentir a unha rasgando-lhe a carne. Sentiu náusea, contração de vômito, tontura, calafrio e esteve a ponto de desmaiar.  O objeto de todo o asco que ele sentia caminhava lentamente, parava, dava um tempo mexendo as antenas, perscrutava o ambiente. Parecia dançar. O casco marrom escuro tremeluzia. Júlio César não tirava os olhos daquele animal nojento. Sufrágio Bandeira temeu profundamente e admitiu a frustração dos seus planos políticos ante o iminente chilique do filho, decorrente da presença intempestiva do asqueroso inseto. O aspirante a candidato oficial ao governo do Estado pareceu voltar a respirar quando viu a lustrosa barata batendo em  retirada entre os arbustos enfileirados no canteiro do muro.

Com os olhos umedecidos de orgulho e de alegria pela resistência heróica do filho amado, Sufrágio Bandeira viu na energia moral de Júlio César a postura digna de um bravo. Com o pensamento em forma de oração agradeceu a Deus por ter honrado sua descendência com um ser da magnanimidade e do denodo do seu único filho. 

Seu Dama não percebera qualquer anormalidade no recinto, sorvia distraidamente o uísque que lhe estimulava o pensamento. Romeu, agora, com os músculos afrouxados, estava impressionado com o desempenho surpreendente daquele que ele não tinha dúvida de ser o amor da sua vida.

Servindo-se de mais uma dose, seu Dama levantou-se, e dirigindo-se a Sufrágio perguntou:

—Então, será que eu posso saber o que está achando desta maravilhosa noite sul americana o futuro governador do Estado da Bahia?

Sufrágio Bandeira sorriu amarelo, levantou-se e perguntou com o coração acelerado:  -—Isso quer dizer alguma coisa, seu Dama?

—Mas é claro que quer dizer alguma coisa sim, Sufrágio Bandeira! Eu quero dizer que esta linda noite ocidental em comum acordo com esta linda lua tropical e com as brasileiríssimas estrelas a flamejar no céu da pátria, decidiram que você será o nosso próximo governador!

—Você ouviu isso, Dicéia? Você ouviu isso —perguntou Sufrágio dirigindo-se à esposa com os braços abertos —você ouviu, meu amor?

—Ouvi sim, Sufrágio. Dr. Adamastor acaba de declarar apoio à sua pré-candidatura ao Governo do Estado.

Sufrágio Bandeira beijou carinhosamente a esposa amada, abraçou efusivamente o grande líder político, não conseguiu agradecer por palavras. As lágrimas da emoção escorriam-lhe pela face em direção aos cantos da boca. Passados alguns minutos, Sufrágio falou para a família:

—Agradeço o apoio inestimável, apoio sem o qual não me seria possível concorrer ao Governo do Estado. O apoio de seu Dama é a alavanca que possibilita a minha indicação como candidato oficial. , E Sufrágio candidato a eleição está no papo!

Aplaudido pelos familiares e por seu Dama, Sufrágio fez sinal para que parassem os aplausos, ainda tinha o que dizer:

—Digo ao senhor, seu Dama, digo aos meus familiares e digo, sobretudo, ao meu filho Júlio César: você, meu filho, é o meu orgulho. A sua colaboração, a sua  compreensão acerca dos meus objetivos políticos merecem a minha eterna gratidão. Quero viver muito para ter tempo suficiente a fim de expressar a minha gratidão a você. E, ao senhor, seu Dama, digo que o seu inapreciável apoio a qualquer postulante a cargo eletivo é mais que possibilidade de vitória, é a certeza dela, é a probabilidade concreta e material! Serei reconhecido ao senhor pelo resto da minha vida! Muito obrigado pelo seu apoio, muito obrigado por estar aqui em minha residência.

Seu Dama demorou-se um pouco mais na residência dos Bandeiras, mas ao cabo de uns 30 minutos manifestou desejo de voltar para o hotel. Despediu-se de todos e  Sufrágio Bandeira, na companhia do seu motorista particular, fez questão de conduzir o padrinho político até o apartamento deste no apart-hotel na Orla Atlântica de Salvador. Na manhã seguinte Sufrágio Bandeira partiu para o interior do Estado para encontros políticos de pré campanha.

Noite alta, os gritos desesperados de seu Candinho despertam a família, de sobressalto. Ainda fortemente impressionado com o pesadelo que tivera, ele recusava-se a dar detalhes, por mais que insistissem em saber de que se tratava o inefável pesadelo. Ele limitava-se a dizer que fora um sonho de mau presságio com Sufrágio. Madame Dicéia e Júlio César  entreolhavam-se, muito menos preocupados com o mau agouro do sonho de seu Candinho e muito mais pelo estado emocional apresentado por ele, que, com o coração aos saltos, soluçava e desfazia-se em lágrimas.

Divina, prontamente, pegou água com açúcar e cuidadosamente foi fazendo seu Candinho beber aos poucos. Enquanto recebia os afagos da família, ensimesmado, Francisco Cândido Bandeira, seu Candinho, para familiares e amigos, revia as imagens do sonho aterrorizante: ele e Sufrágio estavam na parte mais alta de uma área descampada numa manhã de sol. O céu limpo era de um azul intenso, salpicado de pouquíssimas nuvens ralas.  Sufrágio que até então estivera ali ao seu lado, transformara-se num formoso pássaro. Era a fisionomia e a cabeça de Sufrágio no corpo de um pequeno pássaro, um papa capim, que logo se transfigurava em outro pássaro, um galo de campina, mas com a mesma fisionomia e cabeça de Sufrágio. Segundos depois o galo de campina dá lugar a um gavião real, voando em círculos, pra logo em seguida mergulhar em vôo rasante a fim de se apoderar da presa.

Seu Candinho não entendia o porquê das tantas transformações da ave, quando o gavião real subitamente já não é mais o gavião real, transmuta-se no mais belo condor dos Andes a planar, majestoso, exuberante, tirando proveito das correntes de ar quente. Seu Candinho, que pasmado assiste às mutações do filho, de repente  ouve o grande estrondo e vê, aparvalhado, o condor imortal dos Andes fragmentar-se em milionésimas partes incandescentes, que à feição de fogo líquido, despencava sobre sua cabeça, consumindo   pele, carne e ossos do seu decrépito corpo físico.

Seu Candinho volta a dormir e os demais vão para a cama. Por volta das 6h  madame Dicéia é despertada pelo toque do seu telefone celular. Do outro lado da linha uma lúgubre voz masculina anuncia a tragédia: o avião em que viajavam Sufrágio Bandeira e sua comitiva espatifara-se todo ao se chocar contra uma das tantas serras da região Oeste do Estado. Não houve sobreviventes. Madame Dicéia gritou mais forte ainda do que gritara seu Candinho, pouco antes, ao acordar do pesadelo. Júlio César pulou da cama e correu desembestado para acudir a mãe.

Madame Dicéia, com as mãos na cabeça chorava desesperada quando o filho entrou afoitamente no quarto, acompanhado de Divina que correra ao ouvir os gritos  da patroa. Madame Dicéia tartamudeou: “o avião do seu pai bateu na serra, meu filho...”

Júlio César abraçou a mãe e chorou inconsolável. Após alguns minutos de choro conjunto, perguntou ele:

—E agora mâmi, o que vamos fazer? Se contarmos pro vô que pápi morreu, ele vai ter um infarto fulminante.

—Não sei, meu filho, estou desnorteada. Temos que tomar as providências para o funeral.

Os telefones tocavam a cada instante. Amigos da família, políticos, dirigentes do Partido, eleitores, choviam ligações de pêsames.

—Temos que ser fortes, mâmi, precisamos cuidar do vô Candinho. Agora eu entendo que o pesadelo dele foi um pressentimento de mau agouro. Não podemos contar a ele o que aconteceu. Venha comigo, mãmi.

Ao chegarem à sala, seu Candinho conversava com Divina, ambos preocupados com os gritos de madame Dicéia. Seu Candinho perguntou à nora, “você também teve pesadelo, Dicéia?”

—Não, seu Candinho, eu estava gritando de alegria. Estamos muito felizes porque Sufrágio venceu a eleição. Ele acaba de ser declarado governador da Bahia!!! Estamos comemorando a vitória de Sufrágio.

Júlio César correu para trás da estante divisória e logo o som da Rádio Irreverência da Bahia se fez ouvir.

A Rádio Irreverência da Bahia, anuncia em edição extraordinária: “o candidato ao governo da Bahia, Sufrágio Sodré Bandeira, acaba de ser eleito governador do Estado. Sufrágio Bandeira venceu a eleição, já no primeiro turno, com 52% dos votos válidos. E a Bahia está em festa”!

O som da Rádio Irreverência da Bahia fez transbordar a sala com a contagiante e percussiva música baiana. Os tambores de cores do Olodum pareciam rufar no meio da sala grande de madame Dicéia.

Seu Candinho imediatamente se pôs a comemorar esfalhafatosamente a suposta vitória política do filho. Com as mãos na cintura se movia sob o ritmo de marcha de coreografia militar. Variou para os movimentos de um mestre sala e evoluiu para audaciosos passos de frevo de rua. Rodopiava, se abaixava, pulava, parecia atoleimado, possuído, irrefreável. Excedeu os limites do frágil corpo até se estatelar inconsciente, de costado no piso de madeira da sala, com os olhos sapocados. Seus lábios inexpressivos escancararam um sorriso demasiado. A língua macróbia, desgastada, vencida, ora inútil, sepultou-se inteira, perfeitamente confinada no assoalho sob medida da boca murcha, há muito desusada para fins de beijos, sexo e devassidão.

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