Sábado, 20 de Outubro de 2018 - 05:03

Maloca das almas

por José de Jesus Barreto

 Maloca das almas
Ilustração: Borega
    Assim que se achou perdido na mata do sem fim, escutou sons de cantos ritmados a palmas e batidas secas vindos das bandas do poente e pra lá rumou como que guiado, imado pelos ecos, ora longínquos ora mais próximos, uma sonoridade ritual dos encantados entes das florestas.

  Quando a gorda lua já apontava alumiando as folhagens, deu de cara com uma aldeia e dezenas de humanos em festejos no terreiro aberto diante de uma grande maloca, morada da comunidade.

  Robustos adultos de diferentes idades giravam seminus numa grande roda a cantar, batendo os pés no chão, sacudindo maracás, levantando poeira. Mais adiante, perto da maloca, idosos sentados, acocorados, mulheres e crianças de todos os tamanhos a uma certa distância, de pé,  participando, espiando, um ar de contentamento e louvação tomando conta daquele estranho e vivo pedaço de mundo.

   Pareciam à espera do visitante desconhecido, pois o cercaram e o acolheram assim que o avistaram, aos gritos, em alegrias. E como que para sanar o assombramento daquele ser recém-chegado e estancar seus receios, fizeram-no sentar num tronco de pau grosso, linheiro e tratado, postado no chão à entrada da maloca e puseram-se todos a falar ao mesmo tempo em torno dele, num dizer estranho, e lhe deram uns goles d’água de uma cabaça e quando o sentiram mais à vontade ofereceram-lhe um cachimbo de ervas que os homens fumavam e depois lhe trouxeram uma beberagem numa cuia e o estranho foi aos poucos como que se tornando um deles e já se viu sem camisa sem calças sem óculos sem sapatos sem medo e sem vergonha, tonteando, só com a cueca samba-canção a lhe cobrir o corpo, a rodopiar com eles no meio daquela clareira alumiada pela lua, batendo palmas e ritmando a cantoria deles nas passadas compassadas ...

... e a cabeça foi girando a aldeia girando as pessoas girando a mata girando o céu girando a lua girando as estrelas girando o mundo inteiro girando e não sabia mais de nada que possa ter lhe acontecido ... perdido, atiçado, tomado de luz, pleno de som, de cheiros, de gostos, pele arrepiada...  aceso de instantes e apagado de memórias, sem lembranças, sem pensamentos. 

...

   Nem tinha ideia que horas seriam aquelas em que despertou com a lua já quebrando, a mente adormecida, a pele eletrizada, o corpo inerte por dentro dolorido, as carnes tremelicando, o coração num baticum descompassado, ali estendido numa rede esticada bem no meio da maloca, um magote de crianças a espiar rindo, curiosas, mulheres em afazeres, entrando e saindo...  do mundo aquela penumbra que lhe aconchegava o espírito.

   E um velho índio tipo pajé ao lado, soberano, sentado num tamborete, cachimando e fumaçando, balbuciando palavras desconhecidas, um maracá e um ramo de folhagens na mão em sacudimentos compassados sobre aquele corpo prostrado, o coração a pulsar como se quisesse sair pela boca, um ser deslembrado que não conseguia mexer um dedo mindinho sequer.

   Parecia ter acabado de chegar de um outro mundo desconhecido, um infinito de luz, agora ali entalado, sem fala, sem quereres e sem medos.

   Então, o xamã, aquela entidade das matas de barba rala e longos cabelos brancos, deu uma grande baforada, resmungou, passou os olhos em volta e uma grande quietude pairou na maloca. Reverenciando-se perante o silêncio absoluto, o velho índio começou a falar, olhando pro tempo, com voz grave e pausada que, mesmo naquele tom baixo emitido, era nítida e ouvida por todos os presentes, quietos, respeitosos, e parecia ecoar da maloca pela mata adentro e mundo e noite afora, conforme assim foi entendido:

 

 - Seu coração faz baticum mas sua alma está em paz, já está se aquietando, agora. Porque nós todos somos feitos de corpo e de alma.

    Quando nascemos, o Criador de tudo, aquele que mora no ar que respiramos, no vento, no escuro profundo das águas, no esconderijo das matas, nas folhas, no chão onde brotam as sementes, na chama, no corisco, no espírito de cada ser vivo, o Senhor de tudo o que existe e do que até desconhecemos, ele, o Supremo, quando nascemos, nos dá de presente uma alma.

  E essa alma vai morar dentro do coração de cada um.

  Quando o coração bate forte é porque a alma está dizendo alguma coisa.  Às vezes aflita, ou com medo, ou sofrida ...  ou até mesmo querendo voar de tão feliz.

  A nossa mente precisa saber escutar e entender o que a alma nos diz.

  A alma é como um passarinho. Chega um dia, uma hora que ela quer sair, voar, ir embora ...

  Então, é melhor libertá-la, deixá-la ir de volta pra o lugar de onde veio...

  Esse lugar pode ser o ar... ou o tempo, que nem vemos.  Ou o azul sem fim, na direção do sol, da lua, estrelas...  Tem almas que vieram das águas doces, das aguas salgadas, almas que habitam as plantas, outras vindas do barro do chão, das pedras, da chuva, do relâmpago ...    

  Ou, quem sabe, de uma onça, de uma cobra, um carcará... um arco-íris ...

 

*

 

 Depois desse dito o velho parou, olhou em volta e riu.

  E todos na maloca riram com ele. Até os cachorros, os gatos, os macaquinhos, os papagaios riram. E rindo também, aquela criatura na rede se deu conta, reencontrando-se de volta a esse mundo, agora pleno de vida e em paz com a própria alma ...

Como se fosse outro. Renascido.

Foi tudo o que conseguiu lembrar daquele acontecido. 

 

Histórico de Conteúdo