Sábado, 13 de Outubro de 2018 - 05:01

O Elevador Peba

por Carlos Navarro Filho

O Elevador Peba
Ilustração: Borega

 Vou me aventurar a uma incursão pela seara do cientista político e comportamental Franciel Cruz e do mestre pauloafonsense Janio Ferreira Soares. É um risco pois não tenho a verve do primeiro e muito menos o talento do beiradeiro.  Mas dá coceira nos dedos, e a coceira me joga de roldão sobre o teclado. É sobre uma ocorrência no avião que me trazia de volta para casa, documentada apenas pela minha memória do que vi e ouvi, mas assino em baixo e dou fé, no dizer do poeta, Eliezer Cesar.


Imaginem um cristão de pés e tornozelos edemaciados por 16 horas de voo em classe econômica, boa, diga-se de passagem, sentado em outra classe econômica, desta vez de avião barato, esperando a hora de decolar para mais nove horas. Eram as últimas, tentava em vão me animar dona Pops ao meu lado. O incômodo era grande, torturado por não poder estirar as pernas para o lado adequado, torturado por não  conseguir dormir nem com três uísques estrategicamente engolidos no tempo imediatamente anterior à chamada de embarque. Mortificava-me ainda pensar no investimento mal calculado, não apenas pela ausência de conforto. Isso já estava previsto. Doía mais o valor do euro, este sim pela hora da morte. Ainda pensei em acrescentar mais uma dose de uísque, mas desisti quando vi o preço no cardápio do avião.


Baixei a bola e decidi esperar pacientemente a decolagem, e mais pacientemente o ruim serviço de bordo. Matutava o meu infortúnio para visitar parentes que moram longe quando de repente adentra um grupo falante de sorridentes senhoras e senhores carregados de pacotes e sacolas. Localizam os assentos e uma das madames senta-se umas duas fileiras à frente, ao lado direito. O rosto me pareceu familiar, mas o que me chamou a atenção é que tinha ficado isolada e de lá mesmo falava alto com o restante do grupo, acomodado umas duas fileiras atrás. Por falta do que fazer passei a olhar a vida dos outros. E o fato de olhá-la cada vez que fazia um comentário, assaz audível, terminou por me levar a identificar na madama uma socialite baiana, figurinha carimbada das colunas na soterópolis. Não, era engano. Que ideia mais besta! Mais conversa, mais curiosidade, e a imagem da socialite foi clareando em meus olhos, foi se firmando. E não é que era ela mesmo? Era ela sim, não restava mais dúvida.


Futuquei dona Pops e começamos a fofocar aos sussurros. Será que ela vai dizer que viajou de primeira classe, ou de classe executiva em uma companhia aérea chique? Será que vai elogiar os serviços de bordo, que já conhecíamos, nós pobres e ousados mortais? Será que...? Será? A nossa sessão de fofoca sussurrante foi interrompida pela conversa da socialite, desta vez com a vizinha ao lado que acabara de conhecer, narrando os tours por Madri e a boa qualidade do hotel onde ficara hospedada.


- A cidade é linda. Ficamos na Puerta del Sol, ali pertinho da Plaza Mayor. Hotel maravilhoso, só tem três estrelas, mas é ótimo. É antigo e aqui tudo antigo é ótimo não são aquelas porcarias de Salvador.


Conversa vai, conversa vem, prosa já relaxada pela atenção da vizinha de assento, que parecia de pouco falar, a madame continua dando detalhes do hotel. À medida em que ia ficando mais à vontade o nível do hotel ia proporcionalmente deteriorando.


Era bom, mas nem tanto. Deixava a desejar no desjejum. A uva não era de melhor qualidade, igualzinha ao restante das frutas. O dois tipos de croissant, um recheado de presunto, não eram bons. Pequenos e murchos. O café sim era muito ruim, tinha um gosto estranho, parecendo que tinha sido coado em pó de reuso.


- É bom sentar e afivelar o cinto, alertou a vizinha, finalmente anunciaram a decolagem.


- É esse avião está muito atrasado. Mas deixa eu lhe dizer – falou antes de sentar. Cansamos de subir e descer dois andares de escada.


- Ou, não tinha elevador?


- Tinha, mas era um elevador peba danado. Ninguém tinha paciência de esperar...


Mais não ouvi.


E me preparei para acompanhar, durante a semana, as colunas sociais e, na medida do possível, as redes sociais. Queria checar o hotel cinco estrelas no qual se hospedara minha socialite companheira de voo e a primeira classe na qual viajara.


E teile, e zaga

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