Sábado, 29 de Setembro de 2018 - 05:02

A VISITA DO DIABO

por Carlos Ribeiro

A VISITA DO DIABO
Foto: arquivo pessoal
      - O diabo tem manhas que Deus duvida - disse o velho recostado no muro do hotel, mascando fumo, diante do mar. Na praia um grupo de rapazes e moças olhava para um ponto indefinido no oceano inundado de espumas. Não pude deixar de ver que o meu amigo, com o seu fumo de corda e o seu picuá de palha, não combinava com aquele cenário, no qual mulheres bronzeadíssimas metidas em sumários biquínis, tomavam sol, e homens musculosos jogavam frescobol e deslizavam, pela água, com seus jet-skis.
 
     - O que há, Pedro? - resmunguei intolerante com tais anacronismos. - O que o diabo tem a ver com tudo isto?
 
Pedro parecia ignorar o meu desdém, quando disse:
 
     - Faz cinco anos hoje que ele bateu na porta da minha casa, lá na Caatinga do Moura. Você sabe, não é? Acho que não esqueceu ainda...
 
Olhei nos olhos dele. Procurei um pé de mentira, mas ele sustentou o olhar. O desgraçado conseguira me fisgar.
 
     - Pode dizer.
 
     - O quê?
 
     - Você sabe. Essa história aí do...
 
     - Do aleivoso. Do demo. Do bexiguento.
 
Olhei para os lados, certificando-me que ninguém mais ouvia essa conversa tão... como diria?... tão out!
 
     - E aí?
 
-      Você tem certeza mesmo de que quer ouvir a história?
 
     - Sim - apressei-me em dizer, interrompendo o meu amigo que parecia querer cozinhar-me em banho-maria.
 
     - E então? - acrescentei, olhando mais uma vez para os lados e confirmando a nossa privacidade. Entre nós, agora, havia apenas o ruído do mar quebrando na praia, latidos esparsos, o canto insistente de um bem-te-vi, murmúrios... Estávamos presentes ali como visitantes invisíveis de um outro planeta, imersos nas reminiscências de um mundo que não era mais o meu.
 
O velho ficou por instantes com os olhos pregados no tempo, mas logo libertou-se do sortilégio e disse:
 
     - Você quer mesmo saber? Pois então eu vou te contar!
 
A Caatinga do Moura, você sabe, é o ponto final de uma estrada poeirenta e esburacada, no sertão da Bahia, terra que, neste país, muito há ainda para se conhecer. Ela começa onde termina as veias desse mundo de modernidade, esse palavrório sem fim que vocês chamam de informação, não é? Informação... Pois é lá, nessas barrancas, onde, claro, todo mundo sabe, andavam aqueles monstros cujos ossos embranqueceram no tempo úmido e escondido das cavernas, até que os cientistas de Minas, mais sabidos que os de cá, os levassem para a universidade de lá, e os daqui ficassem chupando dedo, despeitados, não sei por que, se os ossos estavam lá por tantos anos, não é mesmo? Milhões e etc. e tal. Por que não pegaram? E pra que serve o diabo dos ossos de bichos tão horrendos que, Deus sabe o que fez quando escondeu nas profundas, talvez por que tivessem mesmo parte com o Cão, você sabe o que eu quero dizer, não é? O tinhoso... E é dele mesmo que eu quero falar: o tremembé, o baba-ovo excomungado que afloresce sei-lá-por-que desses abismos, lá mesmo onde termina as estradas e se vai, corróte-corróte, pelos caminhos das noites de lua cheia, tomando mil-formas para enganar o cristão que não sabe o que é caminhar sem tino e sem destino pelas lonjuras. Hei, esparro! Hei, cambota! Hei, babão! E lá vai ele, corróte-corróte, o mil-caras do demo, o chifrudo, o estonteador de donzela perdida. Eia-há! Toca-lhe o palmilhote, zé-chinfrin, que lá vem o cabrão, e você sabe que ele se afunda naquelas veredas sem dono e vai assim, assobiando, de forma que o viajante que passa ao longe diz de si pra si: e não é que tem vivente nessa caatinga?, e pensa logo na prosa em volta da fogueirinha e quando vai ver de perto, óia o assombro, óia o desespero, óia o arrependimento de ver que nenhuma légua mais o separa do come-cú, e tá ferrado - eia-arreia! Mas nessas horas, você sabe, não custa nada se largar pra bem longe, até se perder nas imensuras incomensuráveis do mundo. E é assim, todos deviam saber, que quando se ouve um assobio nas desertidões desertas do sertão que se corra tão rápido quanto puder, e nem se preocupe de pegar as tamancas. É só seguir as mulas que elas sabem por instinto o que fazer nessas situações.
 
E foi assim, meu amigo, que naquela noite, quando eu já estava no meu bem quente do aconchego nas palhas, com minha costelinha, na nossa casinha que, como você sabe, fica lá plantada no meião da caatinga braba, a léguas e léguas de outra habitação, foi assim que ouvi, vindo de bem distante, um assobio - um assobio que de tão longe quase não se dava pra perceber, mas lá vinha ele, do fundo da noite, crescendo. Sim! Podia-se pensar, primeiramente, num desses viajantes desarvorados que se metem nas brenhas como quem vai ali na venda comprar toicinho, mas quem, santo Deus, se atreveria a desafiar os perigos do mundo, àquelas horas, com passos ligeiros, atravessando as imensidões? E era nisso mesmo, meu amigo, que eu pensava e matutava, deitado ali coladinho na minha costela que dormia o sono dos anjos, alheia àquela aparição repentina que de tão longe surgia e se aproximava. O assobio crescia mais e mais e tão rápido crescia que podíamos jurar tratar-se de um gigante cujos passos comia as distâncias e que não se detinha sequer a olhar para os lados. Percebi, então, que aqueles passos não eram passos de quem anda ao léu. Fosse ele quem fosse, sabia exatamente para onde ia e o que pretendia fazer. E a minha cabaninha, humilde e despretensiosa, estava em algum ponto da linha que ele traçara.
 
Levantei-me, alarmado. Na escuridão noturna eu só podia divisar, com os meus olhos cansados, alguns pequenos reflexos da lua de Nosso Senhor que se derramava no terreiro. O assobio estava próximo e se aproximava mais, tocando o meu coração que principiou a disparar como se de repente uma boiada estourasse no meu peito. Eu já podia ouvir os passos! Ele atravessou a cancela, cruzou o pátio e parou, silencioso, diante da porta. Fiquei ali, quieto, sem saber o que fazer, até que ouvi a voz. Ela vinha de um tempo distante, de um ponto ao mesmo tempo desconhecido e familiar de mim. E disse:
 
     - Pai, sou eu, Zequinha, o seu filho. Eu voltei, pai. Eu voltei.
 
Ah! moço! Eu juro por tudo que é mais sagrado que eu estava preparado pra tudo, até pra voz do Cão vinda das gargantas do inferno. Mas aquela voz, ela falava dentro de mim, está ouvindo?, e sempre continuará falando, pois que em meu peito velho de sertanejo todas as portas estarão sempre abertas para ele, o meu filho, que perdi um dia, nos tempos que o Tempo comeu com sua boca voraz, mas eu nunca poderia imaginar que iria ouvi-lo novamente, a viva-voz, ali, diante de mim. Ele estava ali e entre nós nada mais havia se não uma porta que eu poderia abrir num instante, para abrigá-lo mais uma vez e para sempre, nos meus braços!
 
     - Meu filho - disse eu com um fio de voz. - Meu filho, é você?
 
     - Eu voltei, pai. Abra a porta. Aqui fora é frio e triste. Aqui fora, sou triste e só.
 
Você não imagina, meu amigo, o que senti naquele momento, quando o que eu mais queria neste mundo estava ali, a dois passos de mim, no alcance exato das minhas mãos. Mas havia a porta e uma leve... uma leve ponta de dúvida. O meu filho morrera há muitos anos e, como é sabido e consabido, não nos foi franqueada, a nós, cristãos de pouca monta, assim, sem mais nem menos, as portas da ressurreição. Imagine só o que seria se, de uma hora pra outra, os mortos de alevantassem das suas sepulturas e passassem a vagar pelo mundo a procura de um encontro que não pode mais ser feito. O mundo gira, meu amigo, e continuará girando, de forma que não adianta querer pisar no freio nem dar marcha-a-ré. A ordem do mundo é girar, e para que Deus nos deu as lembranças, não é?, se não é para mantermos presente aquilo que foi e que não é mais? Abrir a porta, ali, seria querer desfazer dos feitos de Deus Nosso Senhor, seria querer ser mais que Ele, o Todo Poderoso, Criador do Céu e da Terra, Autor dos Dez Mandamentos e da Lei que rege a morte e a vida, pois ninguém morre eternamente. E no mais, porque viera aquela aparição de tão longe quando a sua sepultura fora feita ali mesmo, pertinho de casa, junto à jaqueira então pequenina que lançava já os seus galhos frondosos para o céu?
 
A voz insistia, queria porque queria entrar, e eu já não sabia mais o que fazer diante do apelo desesperado e triste daquele ser tremendamente infeliz que se irritava, e já não mais pedia, mas sim exigia que a porta fosse aberta, e batia, e empurrava, e rogava pragas, como um demônio. E não era isso mesmo o que ele era?, pensei, enquanto um arrepio me subia o espinhaço: o demônio! O meu filho, não! Ele nunca diria aquelas palavras, pois que eu mesmo o ensinei a ter bons modos e a respeitar pai e mãe, você entende? Alguma coisa estranha, aberrante e aterradora estava ali, querendo entrar a todo custo no santuário puro e preservado do meu lar. Alguma coisa, impiedosa e malévola ao ponto de se esconder sob aquele disfarce, empurrava a porta e não arredava pé, você sabe, essas aleivosias como são teimosas e engangentas.
 
E o que eu devia fazer? Eu não podia ficar ali parado, esperando que ele botasse a porta a baixo; nem seria honrado sair pela porta do fundo deixando tudo o que era meu lá entregue aos caprichos do Canhoto. Afinal de contas, aquela era a minha casa, o meu lar. Ali estava a minha santa esposa que a bexiguento nenhum, deste ou de outro mundo, dou o direito de botar as mãos. Por outro lado, pensei comigo mesmo, não devo nada a ninguém, nem nunca fiz mal a quem quer que seja. Tudo o que consegui na minha vida foi com trabalho e com o meu suor. Deus é mais! – falei, e foi assim, meu amigo, que tomei a decisão mais difícil da minha vida: a de olhar nos olhos de Satanás, eu e Deus Todo Poderoso, Criador do Céu e da Terra, Luminoso Ente Divino dos Espaços Siderais, Divina Luz Universal, Pai, Filho e Espírito Santo. Amém!
 
Acendi o lampião e escancarei a porta, de uma vez. A luz clareou então a casa, e a porta, e a soleira, e a mim, e a ele, o demo, que, veja só, se assustou com a minha audácia. Então eu, um simples mortal, ousava ficar ali, cara a cara com ele, nos cafundós desertos e solitários daquele sertão sem fim e sem começo? Mas eu fiz isto e olhei sem medo na cara medonha e pavorosa do bicho. Falei, então, com firmeza, as palavras do terço do Divino Jesus, e completei o esconjuro com as seguintes palavras que aprendi no almanaque do dr. Bento Lisboa:
 
     - Vai-te embora, excomungado! Arriba-te daqui, cão gosmento, chibungo perebento dos infernos! Fora dos meus domínios, zé lambão, que estes são os domínios do Nosso Senhor, com os poderes de Deus!
 
E foi assim, meu amigo, que botei pra correr o bicho mais asqueroso e desprezível que possa ter sido concebido nesse mundo de meu Deus. Então fechei a porta, retornei ao quarto onde minha mulher, que nada viu e nunca soube o que se passou, dormia inocentemente, e fiquei lá deitado, matutando, com o lampião aceso, pois que, devo confessar, nunca mais o deixei novamente apagado nas noites solitárias do meu sertão.  
 
 

Histórico de Conteúdo