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Sábado, 18 de Outubro de 2014 - 08:16

A Voz da Terra

por Florisvaldo Mattos

A Voz da Terra
 

OS ELEMENTOS E A CHUVA

 

Amo-te no teu propositado cair sempre

macio sobre os campos, chuva. Tuas serenas

lanças cuidadosamente perfuram chão amargo,

folhas e semente. Cuidadosamente

tua úmida língua de silêncio purifica

pelagem tranquila de mansas reses,

solitários mourões lavas com tua indústria

melancólica de cinza e poeira.

 

Campestre cai sobre exaustas ferramentas

tua dimensão vegetal, tua água solidária,

primaveral de vento e seiva generosa

ásperos espinhos lavando e aconselhando

próspero itinerário de terras trabalhadas

e empresas de outras funções em lavoura

fixa de cacauais em sal de ódio aquecida.

Sobre telhados negros, isenta de perigos,

sobre pedra, tão sobre rostos expectantes

e mudos, tua coma vesperal desaba.

 

És na tarde fria como anjo predileto

com tua lâmina agrária libertando

de saqueados corações desertos braços,

de prisões interiores e fazendas

denso mar de soluço e duras penas.

 

Seguramente amo-te, ó chuva, quando

das altas serras sobre os vales baixa

tua segura astrologia de horóscopo e surpresa,

e uma saúde operosa de existência

cresce sob esta floresta de cercas e arames,

sob esta esperança frágil dos arbustos.

 

Em tua verde matéria de sonho elaborado

com amargura, com olhos e músculos fatigados

abre-se um caminho de experiência vespertina,

um diurno sabor de apodrecidas madeiras

sobre o solo. Um odor rústico de produção

e mantimentos. Abre-se como fruto repartido

entre lavradores teu mecanismo de fartura,

teu humano suor de tendência preciosa.

 

 

 

 

 

SONETO RURAL

 

À precipitação do amanhecer

rural retiro à flauta o som mais puro

de quem, já acostumado com o escuro,

absorto fica vendo o sol nascer.

 

Caprino olho tecido em bem-querer,

preexistente nas coisas que procuro

pastoreando sonhos: amargo ver

desencontrado olhar longe do muro.

 

Recolho pastoral envelhecida

ao som da flauta (pastoral da vida)

armado de silêncio e panorama.

 

Ela se perde verde no horizonte,

como ovelha de luz ou como fonte

onde lavo meu sonho. E se derrama.

 

INSTRUMENTOS VERDES

 

Angústias do metal, frutos do sangue

sobre terra vencida os instrumentos

caem. Do maciço (tortura do âmago)

lamento que aliena machado-gume,

descerro portas negras e janelas:

geografia de sombras anunciando

duro clamor entre raiz e cogumelo.

 

Verdes como sonho oculto sem velhice

entardecem água e terra. Homens.

Verdessonante rio, suas rodas

e pássaros latentes muito verdes,

umidade do solo, os instrumentos,

quando cintilações de aço rápido

ardem podando plumas vegetais.

Sal e olho residente nos caminhos

repousam sobre rio vigilante.

(Colho ouro e sortilégio.)

Curvo de calendários, búzios gastos

e patrimônios outros vesperais,

armadura de outono todavia

teço. É do ofício presa imerecida

que o lavrador recolhe pranto quando,

sobre rebanho e campos de lavoura,

água desnuda, lâmpada tenaz,

verte ânfora dos dias.

 

DURAÇÃO DO AROMA

 

Não morrem no campo as flores.

Pacíficas continuam

arquiteturas de angústia

dissolvendo-se no chão

amoroso das searas.

Como nuvens distraídas

ficam no solo. Ali somente,

um sofrimento que vem,

uma esperança que vai

da boca dos camponeses

ao chão que abriga silêncio.

Não é pranto nem flor. É vinho.

De amarelo outono e lábios

pranto vinho e flores ficam

incrustados no lamento.

 

De sangue batendo aos pingos

na superfície das horas

vai seu perfume durando

nas colheitas. Sobrevive

no suor dos músculos tão

sofridos de cicatrizes,

como um hálito de cinza

prenhe de soluço verde.

Prossegue na dor reunida

à ferrugem dos arados,

a melancolia de olhos,

de pele sacrificada

e ternura corrompida,

de arames e privações.

 

Que venha o vento brandindo

foices de lua no campo

e corte cercas corte o rio

e das chuvas no caminho

corte horizonte de linho.

Entre abelhas e madeiras,

no coração das florestas

corte as flores e o vizinho

aroma das madrugadas.

Corte pranto dos vaqueiros,

corte rastro dos cavalos

e de quem sofre sozinho

corte voz molhada e fria.

Que venha vento soprando

ferraduras de amargura

decepe haste das flores

com o alfange da agonia.

Fria lâmina de sombra

inevitável traspasse

o dorso branco do dia.

E o que fica suado na terra

não é pranto nem flor. É vinho.

 

Sobrevivência do aroma

no lamento desses rostos,

dessas chuvas no caminho,

não morrem no campo as flores:

perduram constituídas

de soluços como o vinho.

 

POENTE AOS BOIS

 

Poente. Calcando vidro úmido da tarde,

lentos, caminho dos currais, os bois

historiam campesino silêncio de fazenda.

No olhar de melancolia e trabalho vespertino

passeia desnudo entre folhas cegas

um sacrifício comum de agrícola fadiga,

paisagem desesperada nutrindo-se

de sombras, de canção despedaçada

entre cedros e riacho.

 

Rústico vento sopra navalhando

biografias de pássaros camponeses

à espessura do azul macio cortando

cinzentos chifres campo couro.

 

De verde espuma aderida ao cerne dos minutos

com peculiar atividade de moinho

silencioso na sombra moendo sonhos,

sua boca preguiçosa os alimentos

(pranto e arbustos) na estrada rumina.

 

Nesta imobilidade do tempo

e das coisas umedeço minhas mãos.

Neste amargo cenário de pedra e vinho amargo,

rodeado de cercas e utensílios campestres,

meu rosto pesado umedeço.

 

Golpeando com asa mansa capim rasteiro,

água útil dos pastos, a cada ruído

arrasto meu coração ferido pelos sítios,

tranquilamente ando

e desando na atmosfera morna dos currais,

contagiado de espetáculo mudo de retorno

entre bestas de carga e tropeiros –

galope roto guarnecido de aflição –

cheiro rural de cascos pisando estrumes.

 

Com os bois (doridos bois)

na solidão profundamente sucedo.

 

SISTEMA AGRÁRIO

 

Meu canto gravado de um saber oculto de águas

esquecidas fabricarei no campo com suor

de rudes trabalhadores, na chuva, sepultando-se

de búzios pontuais, lamentos e desgraças.

Forçosamente rústico caindo sobre troncos,

pelo ar, compacto de húmus e branco vinho, caindo

sobre plantações. Sobre homens caindo. Não os sei

com metralhadoras e mortes pesadas flutuando

em suas mãos calosas de sonho e agricultura.

Senão com amargo clamor, ao meio-dia, quando

com rijas ferraduras rubro sol golpeia-lhes

decisivo o tórax sombrio. De sangue a sua

permanência rural de árvore e vento.

 

Materiais e diários, continuamente os vejo

por frios vales e serras recolhendo incertezas

e dores unânimes, pontes que lhes pesam úmidas,

como rios perduráveis, sobre o rosto seguro (banhados

tão por cinzentos rios, girassóis destroçados

vigiando rebanhos e metais decadentes

revisando no tempo em sonora aliança), como

estranhas biografias e equipagens

de passados cavaleiros, em derrota.

 

Impossuídas, colheitas vão durando,

como denso muro de sono cicatrizado

em seu corpo amanhecido sobre a terra, que

pensamentos cruéis e sombras apunhalam.

Meu canto fabricarei com lágrimas e suor

subterrâneo de músculos e ferramentas.

 

Maduram no verde dos cacauais suas asas telúricas.

Nas semeaduras, sob tempestade, reside no solo

seu mecanismo de lutas e existência

de incessante labor camponês. Agrário sempre.

Suas armas essenciais, sua geometria agreste

hão de impregnar-se necessárias de úmidas

paisagens agrícolas, de horror precipitando-se

sobre homens em silêncio nas estradas pacíficas.

Eles que sonhavam com instrumentos longínquos

terão na cabeça, rugindo sempre, uma voz de ameaça,

quando a seus pés um ruído grosso de sacrifícios

vai sua boca de amor sem pão revolucionando.

 

 

 

SERRA DO JACUTINGA

           

Lá debaixo esta serra é tão longínqua,

Como lá de cima a água, seu espelho.

A alma infante me fala na descida,

Se de cima diviso o chão vermelho.

 

Quando lanterna do silvado trina

A lembrança – ah, que vento verdadeiro

Morde-me o nu do peito na corrida

Que é a alma que me abraça o sol inteiro.

 

No instante em que galopam precipícios

As nuvens sobre a terra (seu cavalo),

Uivam tardes de outrora que persigo

Presa de mim e dos anis vassalo.

 

Campo verde de malva e calumbi

Informa que da mata olhos selvagens

Nos espreitam. Logo saltam dali

Paca, teiú, quati, tatu – miragens...

 

E o mato esconde aos olhos do menino

No cenário de sonho da descida

Agudo fio do aço campesino

Que pela vida foi cortando a vida.

 

TROPAS DE CACAU

                        Para James Amado

 

Conduzindo cacau para Água Preta,

Sinto na tropa um fio de soluço;

É algo de mim que viaja em fuga, é seta,

Que aponta um tempo em que eu, pagem de buço,

Mirava o efeito que um sol exegeta

Produzia na flora, de onde um ruço

E um castanho rompiam (quanta meta,

Quanta preparação para o soluço!).

Aqueles burros hoje, aquelas cargas,

Recalcando ladeiras na memória,

Como em todas as estações amargas,

Fazem trajeto inverso de outra glória:

São estrelas em tardes andarilhas,

Remédio que à alma exausta chega em bilhas.

 

 

BARRO VERMELHO, UM LUGAR

                                  

Ai! sítio que me atiça

as emoções primeiras.

Coração nas ladeiras

rasga-me. A serra: do alto

a mata avisto, a casa.

O descampado onde água

arisca (o riacho) risca-me

fervente infância – ai! asa

despedaçada; mergulho

fundo no espelho – em brasa.

 

Ai! vento que me estuma

à mente, ao rosto, aos lábios

acesos calendários.

Entro com as ferramentas

do sonho na derruba.

Dilacera-me a fúria

da lâmina nas árvores,

e mais que isto, o que avisto,

no começo das chuvas,

os horizontes graves.

 

 

O TEMPO, O LUGAR

                       

As três portas da frente onde era a venda,

guarnecida de vastas prateleiras,

e outra mais e mais outra, toda a senda

que levava ao quintal de bananeiras;

a franja da floresta, onde eu a lenda

desfiava de Anice, a que as primeiras

quimeras fez passar por uma fenda

na alma e que se ocultava dos que às feiras

de cristalinos sábados rumavam;

os cavalos de pau e as de bambu

flautas, mais a valer quando imitavam

virentes sons; e os ninhos de jacu,

por onde começava nova história.

Tudo isso me abre sulcos na memória.

 

 

RES DERELICTA

                       

Entro na casa. Chão vasto de auroras,

Velho armazém de secos e molhados

Repousa de silêncio fatigado.

Instrumentos ressonam; são miragens.

Moirões, mudas cancelas, arreatas

(arrochos, peitorais, bridões, cabrestos,

fivelas, argolões de Potosi),

soberanos, debaixo da ferrugem,

palpitam, olham, latejam, pulsam

(coração a arrulhar sonhos remotos).

Restam no chão madeiras desgastadas,

Sombras em trânsito e fugazes gestos.

Nelas, no que lhe doa a consistência,

Rosna uma geometria de clausura.

 

SEGREDOS DE CHÃO

 

A noitevem do mar cheirando a cravo.

(Sosígenes Costa)

 

Se o ventovem do mar cheirando a cravo,

trazSosígenes firme no timão.

Oh, cores vespertinas em que lavo

ador que me perturba o coração.

 

Nestecais desembarco como escravo

deterras que naBíblialáestão.

Padeço de crepúsculos, de um bravo

gemer que me confere a solidão.

 

Soufilhodestaterra, desteorvalho.

Preparei para mimum breve atalho,

naesperança de ter a salvação.

 

Rudefoi o caminho, duro o assunto;

detão brusco me chega que pergunto

se erro de cálculo, se maldição.

 

 

 

 

 

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