Sábado, 11 de Agosto de 2018 - 04:10

Sete Versejos ao Tempo

por José de Jesus Barreto

Sete Versejos ao Tempo
Foto: Arquivo Pessoal

( I )

A vida é curta
Mas que seja bela
Feito um relâmpago
Um gol de Pelé
O tom de João
A cor de Dalí
A voz de Kelé
O sim de Ceci 
O pum de Adão.
A vida é breve
Um cisco, um tisco, um risco
Um traço, um passo, um ponto
Soluço, espirro, respiro, um cuspe.
A vida?
É só um gole, uma pinga
O quique da bola, uma ginga
Um susto.
Sim, a vida é curta
Um custo!
Mas é luz pura!
Então...
Que seja bela
Enquanto dura. 
 
(Ago/2017)
 
 

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(II)

Os idos dos idosos
Parecem sofridos
Mas são gozosos.
Idos e vindos vividos
Assombrosos
Fedidos, fodidos
Saudosos.

 
 Jul/2018
 
 
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(III)

Ando a procurar minha solidão... perdida
Foi-se aos poucos no fazer dos dias
e esqueceu-se do caminho de volta, à noite
Sinto falta de minha solidão
Sei que ela tem medo de escuridão
Sei que gosta de blues, do dengo dos gatos
e de espreguiçar na rede.

Foi minha solidão que me ensinou a voar
Quase cheguei a borboleta
Sonhava-me passarinho, solto, bicando flores.
Com minha solidão aprendi a ser formiga
Gostava,
porque vagueava formigando tudo, despercebido
como se não fosse desse mundo.

Na morada da solidão um dia encontrei a paz
Ela mora nas pedras... 
quieta, calada, quase nem se vê.
Um dia, namorando a paz, adormeci 
numa pedra lisa e úmida à beira do riacho
Quase virei musgo.

A lagartixa veio e lambeu meu sonho...
Aí abri os olhos, despertei sem prumo
Tenho saudade de minha solidão
Guardo seus segredos

Ninguém sabe onde nem aonde 
Nem eu.



(Luanda, Jul/2012, madrugada de cacimbo angolano)
 
 
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(IV)

O benquerer de Brasília
vem da aragem seca, contínua, dos ermos
Vem do horizonte que alonga a vista
Da amplitude dos espaços... eternos.

A benquerença de Brasília
aninha-se nas árvores, tantas...
Desgalhadas, soberanas, viçosas
Multiformes, multicores, generosas.

A esperança de Brasília
tem verde, amarelo, arco-íris
nas copas, folhas, grama, flores
que rebrotam com as chuvas
da primavera morna

A renascença de Brasília
é a semente de uma modernidade
que nem os cupins deram conta 
Está nos traços, nos trecos
Na face de seu povo mestiço

Em Brasília, os laços são traços
Poemas em concreto, sinuosos, retos
Soltos ao tempo como numa prece
ao sobre-humano... sem Deus.

O humano de Brasília mora fora do Eixo
É a mistura, candangos sobejos
Tem gosto de rapadura, cheiro de suor
Jeito de cangalha, poeira de forró.

Já o desumano de Brasília...
abriga-se no oco do Eixo 
serpenteia fora dos eixos

O sobrenatural de Brasília 
se exibe no azul de seu céu infindo,
nas cores todas de seu ocaso
Onde Deus se manifesta 
E eu me quedo
E O vejo.


(Brasília, Out/2010)
 
 
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(V)

Quanto de cachaça é preciso beber para perder de vez a consciência das coisas todas desse mundo?
Quanto de pó cheirado para que o coração dispare ofuscado até estatelar-se contra a luz?
Toneladas de maconha seriam fumadas até o desmemoriar perpétuo sonâmbulo da própria inexistência... 
E o tanto de ácido lisérgico... até pocar de rir perante miragens sonoras fronteiriças ao nada ser? 
Ah quantas delícias do ‘xêro’ e sabor mais íntimo daquela conchinha amada até o desfalecer de gozo ... para sempre?
Oh sem fim inalcançável e querido ... pra que bandas meu abrigo?
Quem é o meu nome? Quando o meu destino? 
Sonhos... de tão menino!

 
(Ago/2015)
 
 
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(VI)


Acalento saudades adormecidas no colo do entardecer
Passam sem pressa feito as águas cor de musgo do Paraguaçu
Salobro da mistura d’amar
Ou aquelas saudades outras, barrentas, douradas
Como as mansas águas do Velho Chico em Xique-Xique...
Psss! Deixa o tempo quieto
Afago as saudades assim, de olhos fechados
Na rede desse entardecer
Em águas mornas
Navego.
 
 

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(VII)

Quando fores
deixai teu perfume
impregnado em mim.
Ao voltares
trazei-me o frescor 
das veredas do sem fim. 
Que a ida nunca seja para sempre
e a volta tenha cheiro de manhã.

Carmesim.
 
(Jul/2012)

 

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