Sábado, 14 de Julho de 2018 - 09:18

CONVERSA LAXANTE

por Cristiano Teixeira

CONVERSA LAXANTE
Foto: arquivo pessoal
O senhor trabalha aqui?, perguntou a moça aproximando-se da mesa onde eu me encontrava. Ela estava acanhada, percebi pelo seu esforço para parecer natural. Algumas pessoas simplesmente têm dificuldade em conversar com estranhos. Felizmente, não é este o meu caso. 

Não era muito jovem. Talvez já tivesse passado dos trinta. Tinha o olhar cansado. Algumas rugas precoces já começavam a se formar no canto da boca e dos olhos. Eu já a vira outras vezes nas vizinhanças, passeando com um cachorro grande e amedrontador. O animal a arrastava pela coleira, e não se sabia quem levava quem para passear. Agora ela parecia diferente, ou melhor, eu a via mais de perto, ao conversar com ela primeira vez. Ela era mais alta e magra do que eu imaginava. Habituei-me a vê-la em trajes como se fosse para a academia. Mas desta vez, ela estava mais arrumada. Usava calça creme que delineava os quadris largos e blusa de mangas compridas branca que realçava o seu cabelo preto cheio e longo. A pele era branca como de alguém que não costuma tomar banho de sol. Havia uma excitação contida em sua voz que eu não conseguia explicar.

Não sou funcionário da casa, se é o que você está sugerindo, mas venho trabalhar aqui todo final de tarde, respondi interrompendo o que eu fazia. Tive a impressão de que aquela conversa ia se prolongar mais um pouco. Percebi na moça uma vontade de conversar. Seu olhar era agitado.

Ela estava de pé, de frente para a mesa que eu ocupava com o meu notebook. Ao lado dela, presa à parede, havia uma estante cheia de livros usados, porém em bom estado. Estávamos num café. Bem, na verdade, é uma gelateria que também serve café e possui estantes carregadas de livros.

— O senhor já leu algum desses livros? – ela apontou com um olhar para a estante ao seu lado.

— Já li um ou dois. – eu poderia dizer-lhe que sempre trago meus próprios livros para ler, mas achei aquilo presunçoso.

Ela ficou pensativa, talvez elaborando a pergunta seguinte, para manter a conversa fluindo.

— O senhor já pegou algum livro daquela casinha ao lado da igreja?

Ela se referia a uma pequena casinha de madeira suspensa sobre um pedestal de madeira, posta ali por uma ONG. A estrutura parecia uma casa para passarinhos, só diferente desta pelo fato de ter uma porta de vidro. A ideia é para que as pessoas possam compartilhar livros, pegando ou deixando ali dentro.

— Sim, já peguei uns e deixei outros. – respondi. Me senti um cidadão consciente que colabora com a cultura.

— Nossa, o senhor não acha esta ideia maravilhosa? Eu já peguei muitos livros dali. – ela disse com um entusiasmo exagerado.

Imaginei que talvez em sua casa, ela tivesse um dos meus livros que doei para o projeto. Tenho o hábito de pôr minha assinatura em meus livros, a data e o local em que o li pela primeira vez. Pensei em quão particular é este pequeno hábito.  De repente, achei estranho uma pessoa que nunca vi na vida, possuir em sua casa algo que me pertenceu, com a minha assinatura e data, como se fosse um documento histórico. Algumas pessoas gostam de registrar a sua posse escrevendo algo como “este livro pertence a...” Talvez se eu tivesse simplesmente escrito “este livro pertenceu a...” eu não teria aquela sensação de ter abandonado algo que foi meu, pelo menos durante algum tempo.

— Mas alguém levou aquela casinha dali. – ela disse com uma expressão de desapontamento.

— Eu não sabia. – respondi chateado. – Não tenho andado muito por ali ultimamente.

— Talvez alguém levou ela para fazer uma casa de cachorro.

— Sim, talvez. – só se fosse para um cachorro pequeno, eu pensei. O mais provável foi que a casinha foi vítima de puro vandalismo.
— Mas logo em frente existe uma biblioteca onde você pode pegar qualquer livro emprestado.

— Nossa, eu não sabia disso! – ela disse excitada. – Que coisa maravilhosa que o senhor está me dizendo.

Fiquei surpreso de ver que uma moradora do bairro desconhecia a existência da biblioteca. Já está ali a tantas gerações. O prédio fica em frente ao calçadão da orla onde ela passeia com frequência com seu cachorro.

Olhei para a estante de livros ao seu lado e me lembrei.

— E se você quiser pegar um dos livros daqui para levar emprestado, também é possível, e não custa nada.

— Nossa! É verdade isso? Eu não sabia. Que coisa maravilhosa! – disse em tom afetado.

 — Basta escolher o livro e preencher uma ficha ali no caixa.

 — Nossa, o senhor me disse tantas coisas maravilhosas que me deu vontade de ir ao banheiro. – ela exclamou, se dirigindo, logo em seguida, ao sanitário.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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