Sábado, 02 de Junho de 2018 - 05:03

Lembranças de uma calça Ternurinha

por Janio Ferreira Soares

Lembranças de uma calça Ternurinha
Foto: Arquivo pessoal

O sonho e a broa
 
 Hermínia acorda diariamente às 5 da manhã e, antes de tocar os pés no piso rachado por um erro no traço do cimento “daquele maldito pedreiro fanho”, se benze três vezes e repete: “ai, Jesus, ai Jesus, ai, Jesus!”, para, em seguida, olhar o lado vazio da cama e dizer: “Quinzinho, seu filho da puta, por que não me beijaste no cangote antes de partir?”.


Quinzinho era Joaquim Silveira dos Santos, um charmoso padeiro português nascido em Aveiro e que chegou por aqui no dia da final da Copa de 70, quase na hora em que Carlos Alberto acertou aquele petardo depois que a bola quicou num montinho do Azteca, coitado de Zoff.


Com um metro e oitenta num corpo que muitas afirmavam pão doce e outras juravam recheio de baunilha num sonho açucarado, Quinzinho sempre fazia um agrado a Hermínia depois que ela comprava pães da primeira fornada e se preparava para sair. “Tenha um bom dia, menina Hermínia e leves esses quindins contigo que é pra lambuzaire os beiços e adoçaire a vida”, dizia ele carregando no sotaque, nas intenções e no tentador olhar cor azeite alentejano de primeira prensa. 


Hermínia não recorda direito o que aconteceu na véspera do dia em que completaria 18 anos, embora se lembre bem que, ao se dar conta, já estava nos seus braços toda lambuzada de manteiga, fermento e farinha de trigo, “ai, Jesus, quase uma broa”.


Sim, foram muito felizes, sim, vivendo numa casinha branca com vasos de flores na entrada, cachorro na varanda e um vinho do Porto sempre à mão para adoçaire a vida e apressar libidinagens.


Mas o que Hermínia não se conforma até hoje é o fato de Quinzinho ter enfartado durante o sono e partido sem lhe dar aquele que seria o último beijo no cangote, hábito que há anos compensava o toque de seu pé no piso rachado pelo traço errado do maldito pedreiro fanho. “Ai, Jesus!”. 
 
 
 
                                                    
Quando ela me disser oi
 
  
Todo fim de semana a vizinha do sítio em frente põe-se a ouvir e a cantar uma música, cujo refrão é: “...e toda vez que você me disser oi, eu vou responder só oi, com meu peito gritando te amo!”.


Não a conheço pessoalmente, apesar de há tempos sabê-la desafinada e, mais recentemente, desatenta. É que por esses dias, enquanto ela replicava pela centésima vez o “oi” da canção, um homem berrou lá do fundo: “óia a carne, Mazé!”.


Pelo tom desesperado de sua voz, percebi que a carne também gritava, não de paixão, mas sim por estar grudada no fundo da panela. Em todo caso, pelo menos agora sei seu nome, o que me dará o enorme prazer de, quando encontrá-la e ela me disser “oi”, lhe responder igualmente “oi”, mas com meu peito gritando: “óia a carne, Mazé!”.
 
 
 
 
 
 
Lembranças de uma calça Ternurinha
  
A chuva vem de banda e molha apenas a parte de fora de um fino tronco de um coqueiro troncho, deixando-o parecido com os amarronzados que dividiam as pernas de uma calça que ganhara quando tinha 12 anos e achava que viveria de brisa e poesia.


A parte da frente da costura lateral era num tom de um copo americano com 80% de leite e 20% de café. Já na parte da trás a mistura era a mesma só que invertidas às proporções, o que a deixava com aspecto de um nego-bom abananado.


Aos domingos, quando passava em direção ao cinema com seus cambitos matizados – joelhos tal um cappuccino, panturrilhas quase um macchiato -, olhos arregalavam-se nas esquinas e bocas diziam gracinhas, que se ainda não eram motivos de processos, traumas e terapias, caracterizavam claro ensejo pra mãozada comer no centro, isso se ele fosse dado a arroubos kungfunianos.


Certo dia, sua irmã lhe mostrou uma Revista do Rádio com a foto do pessoal da Jovem Guarda vestindo a mesma calça que a chuva torta esboçara no tronco do coqueiro fino. Foi então que ele ficou sabendo-a última moda entre Roberto, Erasmo e, claro, Wanderléia, cujas coxas recheava-as bem melhor que as suas. Moderno como era, soubesse disso antes e certamente passaria por seus algozes rebolando e cantando: “por favor... pare, agora!; senhor juiz...pare, agora!”.
 
 
 
 
 
Forró da índia louca
 
 Baiano é um capeteiro cheio de ginga e autoestima que se acha um artista “igual a Bell, papá!”. Moderno, ele tem sobre suas costelas o rosto tatuado de uma índia, que no embalo do movimento da coqueteleira dá a impressão de que abre e fecha a boca como se querendo morder algo no seu corpo.


Diante disso, um conhecido compositor chegou em sua barraca, pediu uma de cupuaçu e lhe disse que estava fazendo um forró em sua homenagem. Empolgado e balançando a coqueteleira numa velocidade que quase deslocava o maxilar da coitada, o glorioso Bell Baiano quis saber qual o título da canção. Bem sério, o gaiato falou: “Cuidado Que a Índia Vai Morder Sua Vesícula”.


O morango passou raspando no pé do ouvido, mas a rodela de abacaxi foi bem no meio dos peito.

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