Sábado, 26 de Maio de 2018 - 05:02

ATLANTA

por Flávio VM Costa

ATLANTA
Foto: Rodrigo Sombra

“Você não pode ter feito isso. Está muito bem-feito.”


“Como não posso? Pergunte ao professor Roberto, o de português, ele vai dizer para a senhora que sou inteligente...”


“Não vou perguntar nada. Claro que você copiou isso de algum lugar e está querendo me enganar.”


“Eu? Estava sentado na primeira carteira da fila do meio. Se eu tivesse feito alguma coisa a senhora seria a primeira a perceber. Eu estava praticamente encostado na mesa da senhora. A senhora me viu...”


“Ôxe, menino! Não vou aceitar sua redação e pronto. Agora dê licença.”


Ela arrastava os pés e passava repetidamente as mãos sobre a barriga. Retorcia o rosto a cada passo vagaroso para mostrar que mesmo que estivesse errada, e tinha certeza que estava com razão, era grosseiro continuar reclamando por aquela coisa de pouca monta, que nem valeria nota. Nada na aula de educação física valia nota. Muito menos aquela redação sobre a participação brasileira na Olímpiada de 1996, realizada na cidade de Atlanta, nos Estados Unidos.


Ele permaneceu um tempo escornado na carteira, ainda sem acreditar, enquanto os dedos das duas mãos destroçavam a folha em que tinha escrito a redação. Tinha escrito bem devagar para que as letras permanecessem legíveis do início ao fim, pois normalmente qualquer coisa que escrevesse começava com uma letra estranha, de traços magros e inclinados para direita, e terminava numa sucessão de garranchos indecifráveis até para ele mesmo, depois de certo tempo. Sabia que era impaciente, sentia já saber de tudo, antes mesmo que os professores terminassem a explicação e, portanto, os exercícios precisavam ser feitos da maneira mais rápida possível, para que ele pudesse se dedicar a afazeres mais desafiadores, ou simplesmente ficar pensando em besteiras; qual menina da sala teria chance de beijar, por exemplo. Daquela vez, não.

Escreveu devagar: três medalhas de ouro, três de prata e nove de bronze; Jaqueline e Sandra, as primeiras mulheres brasileiras a conquistarem o ouro olímpico; a decepção do futebol masculino com a derrota para a Nigéria.


Reconhecia que estava longe de ser um trabalho de gênio. Era apenas o trabalho de um menino bem informado. Conhecia tudo de futebol, e se dedicava a apreender o maior número de informações possíveis sobre outros esportes, principalmente em momentos especiais como aquele, o dos Jogos Olímpicos. Por influência dos pais era leitor das ásperas páginas de jornal. E com que satisfação percorria a rua de casa, aos domingos, para ir à banca comprar um exemplar de A Tarde. Quando voltava ele tinha que esperar o pai encerrar sua leitura. O pai o impedia até mesmo de ler o caderno da TV.


“Mas o senhor não lê esse.”


O pai estapeava de leve o braço dele e sorria. O tapa era forte o suficiente para deixar a pequena área atingida pinicando por longos minutos. Foi sua primeira lição sobre a arbitrariedade dos mais fortes. Tinha acabado de receber a segunda.


“Está muito bem escrito. Não pode ser.”


Ele se deu conta do erro cometido, quando aprovou a chegada daquela professora no lugar da Loirona, no começo do ano letivo. A Loirona era severa, hostil, ríspida e mandona. Havia sido diretora da escola e expulsou quatro alunos flagrados fumando maconha. Havia outra versão para o caso: na verdade, os quatro alunos formavam dois casais que praticavam “saliências” no matagal que circundava o colégio. Antes mesmo do início do ano letivo, a Loirona sentiu-se mal e descobriu que era cardiopata. Deveria se afastar das aulas de educação física, pelo menos por um tempo; acabou exilada na biblioteca da escola. Era espigada, magrela, prendia os ralos cabelos num coque invariável e, mesmo aos cinquenta anos, mantinha braços e pernas rijos.
A novata possuía um empalidecido rosto oval e cabelos pretos como nanquim. Era baixinha, gordota, e aplicava o mesmo método de ensino da Loirona. Na primeira aula, pesagem e medição de altura; na segunda, rudimentos de basquete; na terceira, de vôlei. Daí em diante os meninos tomavam conta da quadra e as meninas se dispersavam pelo colégio ou ficavam na arquibancada conversando e, distraídas, assistiam ao jogo de futebol. Nesse momento, tal qual a antecessora, a novata enfurnava-se na salinha abafada que dava acesso à quadra. A única diferença é que sempre fazia questão de se mostrar simpática e nunca alteava a voz. Cinco meses depois, os alunos notaram que ela estava grávida.


E naquele dia de forte calor a novata resolveu aproveitar a sala de aula arejada da sexta série – com ventilador, e resolveu aplicar aquele exercício de redação.


Depois de rasgar a folha ele se dirigiu à biblioteca, local que passou a frequentar havia poucos meses. Encontrou a Loirona, que acenou amigavelmente. Ele respondeu com um sorriso frio e pegou um livro qualquer. Os dois estabeleceram uma relação amistosa, pois a Loirona passou a considerá-lo um pouco melhor do que os outros alunos, somente porque ele frequentava a biblioteca. Por indicação dela, ele começava a ler Jorge Amado, Malba Tahan, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade; durante muito tempo foi incapaz de recitar um verso de Drummond, mas sempre se lembrava da crônica sobre o rapaz “recalcitrante” no ônibus...


Ainda estava envergonhado, como se fosse culpado, como se a professora o tivesse pego em flagrante. Ele reproduziu algumas frases que tinha lido no jornal de domingo, mas reproduziu de memória... todos os outros professores o achavam inteligente, mesmo que, às vezes, fosse malcriado, até suspenso ele foi uma vez...
“Está tudo bem com você?”


“Está sim, professora.”


“Você está meio pálido. Aconteceu alguma coisa?”


“Nada não. É que está muito quente.”


“É, se não fosse o ventilador eu estaria toda ensopada. Chegue mais perto.”


“Não... já vou, vai ter aula de matemática agora.”


“Tudo bem. Deixa só eu te mostrar uma coisa. Você conhece esse aqui?”


Mostrou a ele um livro de capa de cinza esverdeada, com as bordas carcomidas.


“Você vai gostar dele. Paulo Mendes Campos. Eu lia muito os livros dele quando era mais jovem, tinha uma sensibilidade... me comovia.”


A Loirona pigarreou e evitou o olhar dele. Concentrou-se na janela, por onde se infiltravam os raios solares que revelavam toda a desarrumação da biblioteca, a feiura dos livros, resultante do envelhecimento e da negligência. A Loirona parecia triste, e ele ficou ainda mais desanimado.


“Leve, depois me diga o que achou.”


“Estou sem a carteirinha.”


“Não importa, quando você o devolver dou baixa.”


Não interessavam as equações. Apenas sua reputação e seu orgulho importavam a ele naquela tarde. Sob o pretexto de ir ao banheiro, ele escapuliu e foi ao estacionamento para ficar de tocaia, à espera da professora de educação física. Ela teria que escutá-lo mais uma vez, não tinha o direito de acusá-lo sem provas, não tinha o direito de humilhá-lo simplesmente por não acreditar na capacidade dele. Desde quando uma professora de educação física tinha o conhecimento necessário para julgar uma redação? Desde quando ela entendia de cópias? Desde quando ela se julgava no direito de acusá-lo, mesmo com a evidência de que ele esteve ao lado dela durante todo o tempo que durou o exercício? Por acaso ela era cega? Por acaso não gostava dele, por algum motivo que ele mal adivinhava, e se vingava, sem que ele soubesse o porquê, de maneira tão descarada? A respiração entrecortada dele aumentava seu rancor. Suava demasiadamente, o suor nada tinha de relação com o calor, era um suor frio e pegajoso, um suor de lesma, um suor que sugeria decomposição, ele mesmo se sentia já meio morto, não achava que teria forças de reivindicar mais nada, as frases repetiam-se em sua boca e nenhuma delas era incontestável, pois como responder ao absurdo? Ele sabia tudo a respeito de Robert Scheidt, ele tinha acompanhado as lutas de judô, e visto como as mulheres do vôlei de quadra resvalaram na medalha de bronze. Ele decorava até os tempos de Gustavo Borges no bronze e na prata. Sabia até que Gustavo Borges já tinha obtido uma prata em Barcelona... Conheceu a história daquele velhinho se tremendo ao acender a tocha, sabia que aquele velhinho tinha dois nomes, e só usava um, o mais engraçado e estranho... Ali... Muha... Sabia até um pouco sobre Atlanta, capital do Estado da Geórgia, que possuía um Centro de Controle de Doenças e ele nem precisou escrever sobre isso. Que Dida e Aldair trombaram no primeiro jogo, e por isso o Brasil tinha perdido para o Japão... Mesmo o antipático professor de português afirmou uma vez que ele até sabia um pouco de ortografia, um pouco, não! Muito, pois quase nunca errava uma palavra do ditado. É mesmo surpreendente, dizia o antipático, olhando-o com aquele biquinho de nojo, e agora essa pata choca, que ele nunca tinha achado que era mesmo bonita... apenas simpática... e ele se escondia entre os carros, para que ninguém o visse, mas deixe só quando chegar que ela vai ver...


“Eu sei que Geórgia é a capital de Atlanta!”


“O quê, menino?”


“Não, não, quer dizer...”


“Que susto você me deu! O que você está faz... Ai!”


A professora encostou-se em seu próprio carro, um Uno Mille, bem velho, um preto já bastante fosco... Parecia que havia se mijado...


“Ai! Estourou! Estourou! Como... não pode ser!”


De repente brotaram alunos, professores, funcionários no estacionamento antes vazio. O porteiro, homem parrudo, carregou-a em um instante, abriu a porta do motorista, jogou o banco para frente e a depositou, meio sem jeito, no de trás. O professor de português pegou as chaves, com um ar aborrecido e se prontificou a dirigir. O porteiro tentava acalmá-la exortando-a para que respirasse fundo, vou ligar para seu marido, não se preocupe, ele disse para acalmá-la... O carro demorou um pouco para engatar, alguém já tinha aberto o portão, o carro deu uma brecada como se tossisse e saiu em disparada. Muitos aplaudiram. Ele aproveitou a brecha e correu para o ponto de ônibus.


À noite, na cama, por mais que tentasse não conseguia deixar de desejar que algo de muito ruim acontecesse a ela, pelo menos que o bebê... se arrependia um pouco, depois vibrava com todo ódio de que era capaz...
Semana seguinte na aula de educação física quem comandava era a Loirona. Ele sorriu. De camiseta e tênis brancos e calça preta colada ao corpo esguio, ela gritava.


“Ela está muito bem! De licença! O bebê está ótimo! Chama-se Jaqueline! Nada de bola hoje, acabou a mordomia... Vamos fazer exercício aeróbico... Silêncio! Não quero um pio, ai de quem... Vamos, vamos, formem um círculo, agora!”


Ele se aproximou para cumprimentá-la e explicar que ainda não tinha lido o livro, mas a Loirona o cortou antes que pudesse dizer alguma coisa:


“Vamos deixar de conversa fiada, seu plagiário! Para o círculo, ande!”

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