Sábado, 28 de Abril de 2018 - 05:23

A ARCA DOS MEUS TESOUROS

por João Carlos Teixeira Gomes

 A ARCA DOS MEUS TESOUROS
Foto: arquivo pessoal
Mozart tocando no céu

A Augusto Sampaio

 
 
 
 
Ganha a noite a melodia
que nunca se ouviu na terra.
É o som de céus intangíveis
que nestas planuras erra.
 
O rude mundo dos homens
não concebe tais acentos.
(Há deuses soprando avenas
nas harmonias dos ventos).
 
Toca Mozart, pelas nuvens,
as suas divinas notas.
E rege (em silêncio) a orquestra
de anjos, em aladas frotas.
 
E para glória mais pura
dos belos acordes seus,
em solo, no meio da orquestra,
canta (alto) o próprio Deus
 
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Soneto marinho
 
 
Confluências do azul. As vergas altas
implantam um Mondrian na paisagem.
Ao deslocar-se a vela móbil crava
um ócio branco em luminosa aragem.
 
Emerge em arco, além, a fímbria alva
de dura fraga em salitrosa espuma.
O salso dique a preamar destrava,
nas vagas corre a solitária escuna.
 
Ao sol a pino o meio-dia é brusco.
Arando o ar ardente sobre as telhas
o dia é frágil como um vaso etrusco.
 
Voa a manhã nas casas das abelhas.
No mar intemporal dorme um molusco
que algas rondam em cândidas parelhas.
 






 
Soneto dos rosais

A Suza Machado
Pra tan breve ser, quién te  dió vida?
Gôngora

 
 
 
Fulgor de manhãs rubras nos rosais
que são eternos, por durar um dia.
As rosas vistas não se findam mais,
perenes em última magia.
 
Flor de encantos múltiplos e gerais,
sê como as rosas, ao nascer do dia,
que trazem nas fragrâncias imortais
o esplendor da beleza fugidia.
 
Hão-de em ti celebrar os anos breves
a glória do frescor adolescente,
as graças que te ornam os passos leves,
 
mas já virão as horas pressurosas
no giro da fortuna impenitente
crestar-te a face e machucar-te as rosas
 





 
 
Soneto da sala antiga

Para Ana Carolina e Humberto

 
 
 
O tempo jaz na sala emparedado.
Um relatório bate horas vagarosas.
No retrato da parede, esgarçado,
uma moça de tranças colhe rosas.
 
Pouco a pouco a poeira do passado
pousa leve nas formas vaporosas.
Camafeus, com seu brilho nacarado,
mostram damas em poses langorosas.
 
Cai do sótão um luar emoliente
que a memória confunde nos seus laços
e tudo o que se foi traz ao presente.
 
Roçando os velhos móveis, pela sala,
o silêncio, prudente, oculta os passos.
O tempo não tem voz, mas como fala!
 









 
Soneto ao uísque
 

Algum licor dourado que transpira
Rimbaud
 

 
 
Conjugaram-se os poentes redourados
e os velhos amarelos compungidos;
o fulgor dos trigais avermelhados,
o marrom dos arbustos ressequidos;
 
as estrelas, nos céus enternecidos,
quando são louros raios jubilados;
áureos tons de cabelos incendidos
por manhãs comburidas desatados.
 
No delírio em que o cobre cede ao flavo
destilam-se os licores portentosos
que acendem, no cristal, o rubro travo.
 
Pois na linfa, onde o próprio sol se apouca,
fervilham mil vapores ardorosos
que escorrem dentro d’alma, pela boca.

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