Sábado, 07 de Abril de 2018 - 10:36

ACASO

por Afonso Machado

ACASO
Foto: arquivo pessoal
Conferiu o horário da passagem: 16h45. Tinha quase duas horas até a partida do ônibus.
Achou melhor assim, pensou: ter escolhido a passagem para mais tarde, do que ter embarcado logo que chegou à rodoviária. E se surpreendeu e se alegrou consigo mesmo por se deixar levar pelo acaso.
“Nada mais importante do que o acaso”, disse para si.
A primeira vez, quando saiu do prédio às pressas, a arma na cintura, e entrou no primeiro táxi que viu, sem se importar aonde ir. E agora, ao perceber que passava ao lado da rodoviária, saltar, e comprar uma passagem para mais tarde, 16h45, pouco se importando com o destino escrito no bilhete.
“Nada mais importante do que o acaso”, repetiu, em voz alta.
Bem, poderia então... Se sentar em fila, num daqueles bancos de plástico, e se deixar ali, esperando, simplesmente. Se deixar ali, como tantos outros, esperando. Olhando para os ponteiros enormes do relógio, no teto, com traços marcando os minutos, tentando adivinhar o momento exato do ponteiro preto, com ponta de flecha, pular de um traço para outro.
Poderia andar pela rodoviária. Ou, na lanchonete, pedir uma cerveja, melhor: algo mais forte, um uísque? Guardando alguns minutos para ir ao banheiro antes de descer para a plataforma. Poderia comprar uma revista: jornal, não! Gostava quando flagrava a si mesmo como aqueles que se permitem ficar diante de uma banca de revista lendo as manchetes do dia e num relance perceber, pela milionésima vez, necessidade nenhuma de comprar os jornais. Gostava de flagrar a si mesmo ladeado de companheiros cúmplices, fingindo indiferença para aquela profusão de cus e bocetas estampadas nas capas das revistas, concorrendo com as manchetes políticas.
Quando caminhava pelo centro da cidade, era impossível não deixar de ver o camelô executar a sua arte. O chinês cego soprar a flauta de bambu. O pastor de almas, aos gritos, arrebanhar ovelhas. Ler a placa estampada nos corpos dos homens-sanduíches. E quantas vezes, andando em meio à multidão, parava, e, repentinamente, olhava para o alto. E se identificava com aqueles que se acercavam dele, também olhando, procurando no céu algo que pudesse surpreender a vida. Desses se sentia próximo: esses eram irmãos.
Bem, poderia então... Parar e, repentinamente, olhar para o alto da rodoviária?
Mas o que fez foi seguir a morena que passou sozinha, despercebida, à sua frente. Enquanto a seguia, sem que ela notasse, pelo jeito de dar os passos e o leve gingado do corpo, por um momento lembrou-se de Ana, e se lembrou de tudo, tudo. Mas o acaso, agora, colocara uma morena à sua frente, como se desfilasse para ele, só para ele. E continuou a segui-la, pregando os olhos em suas costas, em sua nuca, em seus cabelos, em todo seu corpo, de cima a baixo, em seu rebolado, enquanto apalpava a arma na cintura, a única coisa, pensou, que restara com ele e representava a última ligação com o desejo, a esperança de vida, que, num rompante, o acaso, outra vez o acaso, pensou, transformara, para sempre, em passado.
Continuou seguindo a morena, que, a cada passo, desfilava só para ele, só para ele, embora fingisse indiferença, mas desejosa, insinuante, desfilando cada vez mais rápida, mais rápida, quase a correr à sua frente, enquanto a seguia alucinado, desejoso, rápido, cada vez mais rápido, quase correndo, em meio a um mar de bandidos, de infelizes, de ingênuos, de desdentados. De roupas em sacos de farinha, de malas de papelão duro, de fumaça de churrasquinho, de barulho de alto-falante, de óculos escuros, de cores primárias. De aproveitadores, de resignados. De crianças desvalidas dormindo no chão. De sonhos, de despedidas. De rumor de vidas desencontradas. De fuga, de ilusão, de espinhos.
De fogo em brasa que não se extingue.

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