Sábado, 04 de Outubro de 2014 - 05:27

Tonho da Luz e o braseiro

por Edson Felloni Borges

Tonho da Luz e o braseiro
Tonho da Luz e o braseio
O pescador “Caboquinho” não precisava de motivos para tomar uma boa cachaça quando chegava do mar, lá na costa de Baixio, povoado de Esplanada no litoral Norte da Bahia. Mas para beber várias doses sem gastar um tostão, aí sim aquele sujeito, com o biotipo típico de um caboclo, despertava a curiosidade de todos nos botecos prometendo incorporar o espírito de “Tonho da Luz”, uma entidade que andava sobre brasas.
Grande jogador de dominó, brincalhão e orgulhoso da profissão, “Caboquinho” também tinha a qualidade de responder “na tampa” qualquer ofensa à sua pessoa. Mário Matarazzo, um veranista metido a rico que ganhou esse apelido inspirado na milionária família paulistana, certa vez disse que cação era peixe para cachorro comer.
A costa de Baixo dá muito cação e sempre “Caboquinho” voltava do mar com a jangada cheia. Espalhava os peixes na varanda do armazém de dona Hidália, para que a freguesia escolhesse o que bem desejasse. Lá um dia, só veio cação. Mário Matarazzo, num canto da varanda, fitava os peixes. Do outro lado, “Caboquinho” fitava o “ricaço”.
- Vou levar aqueles três maiores ali, viu Caboquinho? -  Disse Mário, apontando para três belos caçonetes.
- O senhor não vai levar nada aqui, porque tudo que sobrar da venda vou levar pra meu cachorro comer – respondeu “Caboquinho”, imediatamente. 
Terminada a venda dos peixes, “Caboquinho” entrava num boteco para tomar umas pingas e aí é que vinha o desafio para “Tonho da Luz” baixar e andar sobre o braseiro, em troca de várias doses de graça.
“Caboquinho” fazia aquele suspense, tomava logo uns seis copos bem cheios, enquanto a turma de cachaceiros preparava o fogo.  O tempo da cachaça começar a fazer efeito no pescador era mais ou menos o mesmo para o braseiro ficar no ponto, no chão do boteco.
De repente, os trejeitos no corpo, a tremedeira, a voz bem grossa, as falas que ninguém entendia nada e “Tonho da Luz” finalmente se apoderava do corpo franzino de “Caboquinho”. A turma começava a gritar “pisa, pisa, pisa” , num coro que deixava a entidade frenética: o pescador dava uns passos rápidos sobre o braseiro e, no mesmo pique, virava mais um copo de cachaça, sob os aplausos da entusiasmada platéia.
Mas o que não falta em beira de praia é molequeira. Lá um dia, se repetiu o ritual. Só que dessa vez capricharam no braseiro, usaram uns galhos que dão brasas bem mais abrasadoras, mais resistentes.  No mesmo pique que passou sobre o braseiro, “Caboquinho” saiu correndo boteco a fora e, pelos palavrões que ele gritava, deduziu-se que “Tonho da Luz” caiu fora logo nas primeiras pisadas, abandonando para sempre seu velho parceiro pescador com os pés queimados.

Histórico de Conteúdo