Sábado, 28 de Junho de 2014 - 07:10

Pode pecar à vontade porque depois há um jeito fácil de salvar sua alma

por Biaggio Talento

Pode pecar à vontade porque depois há um jeito fácil de salvar sua alma
O jornalista e escritor Biaggio Talento
 PAGUE NA HORA DE MORRER E DESCANSE EM PAZ

 

-Quero aproveitar as delícias da vida, sem me preocupar com as consequências que excessos possam atrapalhar minha situação no além. Nada de penas pesadas e dolorosas antes de minha alma entrar no paraíso. É possível quebrar meu galho?

 

-Sim. Basta você se arrepender antes de morrer e pagar uma espécie de pedágio à nossa instituição, que tem a prerrogativa de negociar com a turma lá de cima, bens materiais por favores espirituais. Fechado o contrato, vamos arrumar um local sagrado para seu descanso eterno, onde seu corpo estará protegido contra os enxames de maus espíritos, e celebrar certa quantidade de missas para limpar seus pecados de forma que você passe o menor tempo possível no purgatório. Isso pode ser apressado ainda mais se quiseres pagar para que alguém cumpra uma penitência pesada em seu nome ou se conseguires comprar pelo menos uma indulgência temporária.

 

 Com pequenas variações de termos, esse poderia ser o tipo de diálogo entre o católico luso-brasileiro rico e um representante da Igreja, no início da colonização. A arte de bem morrer - incluído ai não só a pompa fúnebre mas os ritos preparatórios para o além - é um dos dogmas mais interessantes e curiosos do católico do passado visto pelos olhos de hoje.

 

Acreditando no receituário para escapar do inferno, Gabriel Soares de Souza, um rico senhor de engenho que morou na Bahia na segunda metade do século XVI assinou, em forma de testamento, um dos contratos mais notórios para salvar a alma com os padres do Mosteiro de São Bento de Salvador. Reservou várias fazendas para doar ao mosteiro. Em troca, pediu sepultamento na capela-mor da igreja dos beneditinos (próximo à valorosa proteção das relíquias santas do templo) com lápide de arrependido: “Aqui jaz um pecador”. Em seguida, para passar o menor tempo possível no purgatório, impôs aos monges atuais e os seus sucessores que rezassem pela sua alma - fora as 150 logo após o sepultamento - uma missa por dia “enquanto o mundo durar” sobre a cova. O testamento reserva uma parte das providências para a corte celestial. O pecador tem a crença medieval de nomear santos para representá-los junto ao Criador no julgamento dos seus atos terrenos. “Tomo como meu advogado o anjo Gabriel (…), o anjo da minha guarda (…), nosso glorioso São Bento de cuja ordem sou irmão (…) o santíssimo padre São Francisco e ao Senhor São Domingos”. Seguem-se todas as divindades que lembrou e ao final, para evitar omissões pede “a todos os santos e santas da corte do céu” juntos “roguem por mim ao Nosso Senhor e lhe peçam perdão de meus pecados por mim e me leve a sua santa Glória para que fui criado”.

 

Enquanto isso, na Europa, usava-se também todo o arsenal de truques para escapar da danação. O historiador francês Philippe Ariès anotou o caso de uma “peregrinação póstuma” encomendada por um procurador e sua mulher em 1411. Eles pagariam a quem se dispusesse a percorrer pelos dois, três igrejas francesas, e entregasse ao testamenteiro certificados assinados pelos respectivos padres comprovando a penitência. Na Inglaterra, o historiador americano Paul Johnson achou documento em que um homem poderoso atravessou um jejum penitencial de sete anos para limpar os pecados em três dias. Como? Com a ajuda de 840 seguidores que jejuaram por ele mediante pagamento.

 

 CONTRATO DE UM AFLITO

 

A Igreja dos Aflitos, construída no século XVIII, no centro de Salvador, guarda um documento raro dos negócios entre viventes e entidades espirituais. O português Antonio Soares, que mandou construir o templo como pagamento de promessa por ter escapado de um naufrágio, contratou o grande José Joaquim da Rocha, fundador da Escola Bahiana de Pintura, para eternizar no forro do teto, o ato de doação da igreja a Nosso Senhor dos Aflitos. É um dos poucos quadros da época na Bahia que mesclam moradores da cidade com santos. Na parte de baixo da pintura, um grupo de pessoas faz reverência ao crucificado, agradecendo o milagre. Uma delas, provavelmente Soares, entrega um pergaminho que representa o documento de posse do tempo para Jesus.

 

“ENTE SOCIAL”

 

As estratégias de salvação foram mudando com o passar dos anos. No século XIX o medo do inferno e do juízo final diminuíra. Satã e seus agentes perderam força e as preocupações voltaram-se mais para as obras beneméritas e ajuda caridosa como forma se sensibilizar a corte celeste a ter boa vontade no balanço dos atos bons e maus. O pecador torna-se, então, um “ente social”, disposto a deixar parte de sua fortuna para a construção de hospitais e obras filantrópicas. Os ricos continuavam, em excelente posição para salvar suas almas pelas regras da Igreja. Muitos historiadores salientam a ideia propagada no passado de que somente quem tinha recursos volumosos estaria em condições de pagar, com o “dinheiro da iniquidade”, a limpeza dos grandes pecados que propiciariam a salvação.

 

O comerciante Domingos José Martins, baiano de nascimento, que se radicou em Daomé, na África, fez fortuna no período do comércio clandestino de escravos entre 1845 e 1850, com o preço dos cativos em pico. Foi um pecador de alta patente. No balanço da vida, feita no testamento, revela ser católico, nunca ter se casado, mas admite por “fragilidade” ter tido “cópula carnal com algumas mulheres” das quais lista os filhos que nasceram desses relacionamentos. Relata os pecados e tenta se redimir libertando e indenizando vários escravos. Deixa dinheiro e mesadas também para os filhos e parentes. Reserva uma parte ainda para reformas na Igreja do Boqueirão de Salvador e dois contos de réis para o reverendo guardião do Convento de São Francisco distribuir para os pobres na portaria, “dando preferência aos cegos e aleijados”.

 

Omitiu no testamento um pecado pavoroso, que talvez seu pacote de bondades não tenha sido suficiente para livrá-lo da danação. Em 1859, nas exéquias de Ghézo, Rei do Daomé, com quem o comerciante mantinha estreitas relações para o tráfico negreiro, o comerciante mandou para ser enterrado com o monarca rum, pólvora, fuzis, tabaco, um prato de prata, entre outros mimos. Nada de mais, por ser tradicional em várias culturas, o defunto levar para o além pertences de sua vida. O problema foi a segunda parte do ritual: 800 escravos para serem sacrificados. Seriam dois mil, mas segundo relatos, não puderam encontrar na época aquela quantidade disponível.

 

Um dos homens que mais ganharam dinheiro com o tráfico de escravos na Bahia e a usura (empréstimos a juros escorchantes) foi o negociante português Joaquim Pereira Marinho. Chegou ao Brasil em 1828 com 13 anos. Ascendeu socialmente muito rápido. Foi o que os historiadores chamam de “comerciante de grosso trato”, aquele que diversifica suas atividades, do tráfico de escravos, ao comércio convencional, passando pela exploração de contratos públicos e participações societárias em inúmeras empresas. No seu caso, foi acionista da Companhia Bahiana de Navegação e da Estrada de Ferro de Juazeiro. O etnólogo Pierre Verger avaliou a fortuna de Marinho, pouco antes de morrer, em 1884, em US$ 2,5 milhões.

 

A principal peça na sua estratégia de salvação foi a doação de uma parte da fortuna para a construção do Hospital Santa Isabel, da Santa Casa de Misericórdia de Salvador. Ganhou fama de grande benemérito. Foi homenageado com uma estátua em mármore, feita por “A.Rota F.V.S” da cidade de Gênova, Itália em 1889, implantada no jardim do hospital que ainda se encontra lá. No seu testamento, registra a convicção do dever cumprido em vida, declarando “não dever um real a quem quer que seja” e que segue “com a consciência tranquila de para a vida eterna sem nunca ter concorrido para o mal do meu semelhante”.

 

Durante quatro anos pesquisei essa necessidade humana de escapar do finito. Centrei meu estudo nos traficantes de escravos e usurários que atuaram na Bahia nos séculos da colonização com a intenção de mostrar a estratégia desses personagens par tentar domesticar a morte. O trabalho está no meu quarto livro, “A Economia da Salvação – uma história da domesticação da morte em Salvador por mercadores de escravos e usurários – séculos XVI/XIX”, lançado no final de janeiro. Nele, estão compiladas as informações, curiosidades e impressões sobre o assunto, coletados ao longo desse tempo, que procurei transformar numa grande reportagem histórica.

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