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Sábado, 20 de Setembro de 2014 - 06:07

Quando o mangueiral florece

por Paulo Muniz

Quando o mangueiral florece
 

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Na exuberância do arvoredo bravio, em plena expansão de clorofila ondulante, multiplicando-se pelas planícies e outeiros, sente-se um halo de esperança brotando da terra. Numa ânsia incontida de expansão vegetal, o matagal agreste mistura-se com a plantação útil que fornece frutos de gosto variados.

Quando a primavera enche a terra de calor confortante, a luz do Sol se espraia em tons magníficos de cintilação para animar a paisagem e despertar o estio promissor. O mangueiral adquire um colorido novo, matizado de cores rubras. Flores e folhas esboçam uma coloração bonita, cheia de tons originais. O mangueiral domina o ambiente com a copa colorida, anunciando a safra que se aproxima. É o anúncio luminoso dos sítios, cintilando, palpitando, alternando-se em cores vivas, como se fossem magazines fabulosos, preparando a promoção de vendas para as festas de fim de ano. Atraídos pela propaganda das frondes em floração, muito e breve chegarão da cidade os homens cansados em busca de um refugio espiritual. Virão também os jovens para o recreio das férias de verão.

Quando o mangueiral floresce a vida se renova nessas paragens onde o inverno transformou tudo em recanto monótono, povoado de sombras e aguaceiros. Agora o homem do campo se agita, prepara a terra, anima o solo com o calor das coivaras e fecunda as leiras com as sementes escolhidas.

Quando o mangueiral floresce, é o prenúncio de que os frutos sazonados da região vêm encher os lares de fartura. As festas vão chegar. Preparam-se tudo com alegria. Cada equipe tem a sua tarefa: a missa do Padroeiro, o leilão, a quermesse, a procissão, a romaria e o baile da sociedade.

Os pescadores remam apressados para recolherem os cardumes. Os barqueiros saúdam a

viração alegre que os conduz  de ida e volta no labor de cada jornada. Iemanjá recolhe as preces e as promessas. O padroeiro protege os seus filhos nas horas difíceis.

A paisagem inspiradora, com todo o esplendor do seu primitivismo selvagem, da sua poesia bucólica, é o cenário de quatro séculos de história onde vive um povo que ama e sofre; que espera sem desesperar; que tem anseios de progresso, mas torna-se indiferente a tudo que o cerca; que ri para esconder um longo sofrimento e chora de alegria para enganar o coração; que tem sede se instrução, porém conforma-se com a máxima de que o homem pode viver de qualquer maneira; que procura convencer a si mesmo de que passar bem e passar mal, tudo é passar.

É nesse teatro que o homem vive a encenar o seu drama e comédia cotidianos. Casa-se com a mulher amada, ou acomoda-se de qualquer maneira com a sua eleita. Aquela noiva de olhos compridos, como se quisesse medir a extensão do rio, espera até que ele regresse de uma longa viagem, ou se amarra com o primeiro que apareça quando cansa de esperar. É aí o cenário da comédia espontânea, improvisada, que ridiculariza os seus personagens com a chacota, os motes, os apelidos e os mexericos.

Aquele rapaz muito parecido com o corcunda de Notre Dame,  é apenas “Siri catado”. O outro baixinho que se esqueceu de crescer, é “Vicente Nanico”. O filho de Francelina, que nada faz, nunca teve uma mulher ou uma namorada é “Pedro Pó”. O gigante crioulo, com a boca torta, é “Fernando Aramaçã”. O pescador banquinho, de cabelo liso, que bebe até chorar é o “Martinho Garrafão Teimoso”. O novo morador, que saltou no porto com a mulher e oito filhos, já foi batizado de “Porca Parida”. O goleiro do time, empregado na padaria, pretinho como escopeiro de pixe, é o “Pedra  Hume”. O preto velho, bom e prestativo, humilde e prestimoso, sempre disposto a servir seja a quem for, já tem um nome novo “Três Corações”.  O mestre de barco, contador de histórias que começam sempre no lusco-fusco, conseguiu o apelido de “Macário Boca da Noite”.

E tem ainda o pescador que durante três dias comeu sozinho uma enorme frigideira de moqueca, só para não desperdiçar o peixe é o “José Barriguinha”. João do Bombo” e “Neco  da Caixa” tocam na banda. Antônio Muniz teve um dedo do pé amputado,. Imediatamente mudaram o seu nome para “Antonio Dezenove”. D. Escolástica é muito difícil de pronunciar. Tem que ser mesmo D. Chicolaça. Na intimidade, D. Chicolacinha. Não tem jeito. Até o navio da Bahiana tem um epíteto, é o “Boi de Fogo”. E as embarcações? Também ganham apelido: “Chapéu de Pêlo”, “Como queira” e “Vira em seco”.

Quando o mangueiral floresce os habitantes tornam-se mais comunicativos e se reencontram numa alvorada, numa aleluia espiritual. O inverno foi como uma cortina de tristeza que isolou as criaturas. Agora, quando o mangueiral está florido, Cristina pode ir ao porto, discretamente, esperar o barco na hora da preamar. No saveiro que chega também existe um marinheiro ansioso para não perder a maré.

Mesmo sem ir ao porto, no silencio da noite, a velhinha que reza pode adivinhar a chegada de uma lancha pelo simples ranger dos moitões. Então dá graças ao Padroeiro porque sabe que o filho está chegando. Um rapazinho anseia freqüentar uma tenda de alfaiate para aprender o ofício. Sem roupa suficiente para freqüentar a oficina, ele vai ser cuca de barco até ganhar o bastante para comprar um traje novo. Enquanto floresce o mangueiral, ele armazena e economiza. Ano após ano, o trabalho é repetido até que o menino consegue aprender o oficio, trabalhando a bordo durante o verão e freqüentando a tenda durante o inverno. E assim, torna-se um cidadão útil e respeitável dentro da Terra Grande.

É também no estio que Titão pode transpor com mais segurança os quatorze quilômetros de estradas ermas, dentro da noite, em busca de um professor de música. Agora que o mangueiral está florido, ele pode vir de Aratuba e voltar mais comodamente porque a lama secou e os riachos baixaram. Durante o dia Titão lavra a terra, em Aratuba, corta lenha ou pesca na baixa-mar. À noite, ele pisa na estrada em busca de um professor de música. Depois da aula ou do ensaio, regressa feliz, vencendo no retorno, novamente, os quatorze quilômetros. Noite alta, olhar fito nas estrelas como a dividir semifusas, passo cadenciado na estrada par não perder o compasso, ouvido atento ao metrônomo de andamento acelerado na conquista do seu ideal.

Candinha pode se animar para ir ao mangue tirar a ostra fresca e o marisco. Depois pode voltar ao mato, apanhar a lenha do fogão e fazer mil cousas mais, para criar oito filhos sem pai. A meninada pode picular, empinar arraia, jogar pião e apostas castanhas. A alegria vira brinquedo em todas as mãos, canção em todas as vozes, bondade nos corações, sonho em todos os pensamentos. As serenatas espalham acordes dentro da noite. Uma legião de semibreves e semifusas marcha pelo ar, destruindo as muralhas do silêncio, tentando conquistar a lua e as estrelas.

Assim é a vida na Terra Grande, enquanto o mangueiral floresce.

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Jiribatuba, 31 de Outubro de 1961

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