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Sábado, 06 de Setembro de 2014 - 10:05

Anedonia

por Cássio Freitas

Anedonia
O autor em sua mesa de trabalho
 

ANEDONIA

 

Para Altamirando Camacam

“Sofro, desde a epigênese da infância,

A influência má dos signos do zodíaco”.

 

Augusto dos Anjos

 

 

Desde sua sofrida infância, Hermes padecia de uma estranheza que o dividia entre o ser vulnerável, amedrontado, tímido, e o outro Hermes, censor, pragmático, inteligente, dotado de conclusões precisas, concretas e axiomáticas. Durante os surtos que ele denominava “estranheza”, ficava apavorado, entrava em pânico e procurava por sua mãe – única pessoa a quem ele confiava suas fraquezas –, e desabafava: “Mãe, estou com aquela estranheza, de novo”, e sua mãe sempre o acalmava: “Deite um pouco, meu filho, isso vai passar”.

Quase adulto, depois de sofrer da “síndrome do sósia” por toda sua adolescência, passou a ler sobre as angústias que abatiam a sociedade moderna. Compulsava vários livros sobre Freud, Jung, Lacan, Pavlov, psiquiatras modernos e filósofos gregos. Nada lhe dissuadia da ideia de que ele sofria de um distúrbio neuroquímico. Seu psiquiatra era-lhe um amigo. Evitava tratar de assuntos técnicos ou científicos. Prescrevia medicações, mas preferia falar sobre música, vinhos e outras curiosidades. Aliás, ele e o psiquiatra, antes de este morrer, já estavam de viagem marcada com destino ao Velho Mundo, onde o médico faria parte de um seminário. O médico, todavia, passara para o outro lado da vida antes mesmo da confirmação dos hotéis em que ficariam, no Porto, Madri, Barcelona e Bruxelas. O tratamento medicamentoso, contudo, não lhe evitava certas crises de anedonia, de desencanto com o mundo, de crises de identidade, de despersonalização, de desrealização e de outras perturbações que lhe rendiam prejuízos sociais, profissionais e financeiros.

À vezes chegava a incorporar aquele tipo censor, que lhe impunha decisões sábias na infância. Pensava sobre si e não tinha uma definição exata sobre quem ele realmente era ou quem deveria ser. Isso o incomodava tanto, que ele só se sentia aliviado mediante inúmeros tragos de bebidas fortes. O consumo dahomeopatia tornou-se assíduo, ele passou a beber diariamente, adquirindo disfunções orgânicas e outros malefícios. Mas isso não era suficiente para fazê-lo parar de beber, visto que seus transtornos existenciais traziam-lhe muito mais desconfortos que as enfermidades causadas pela bebida.

Numa sazão, não saía de casa, pouco saía do quarto. Não tinha ânimo para nada. Pensava negativamente a respeito de tudo. Tornava-se niilista, ateu, iconoclasta; lia Nietzsche, Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa (n’alma de Álvaro de Campos). Noutra sazão, despertava otimista, animado; lia Castro Alves, Machado de Assis, tinha vontade de sair, assistir a filmes bons - era fã de Wim Wenders e de centenas de diretores e atores de cinema -, de encontrar amigos, para beber e conversar sobre arte, cultura e futilidades.

Ao conhecer Sofia, passou a ter mais esperança sobre si mesmo. Traçou algumas metas para seu desenvolvimento profissional e intelectual, assunto do qual ele fugia, pois seus amigos e consortes sempre lhe cobravam um grande destaque no mundo das letras, das artes ou até mesmo uma formação acadêmica que lhe rendesse um doutoramento. Tais cobranças davam-se por causa de sua retórica, seus laivos de genialidade, além de um pouco de conhecimento de filosofia, música, cinema, matemática e outras formas de ver o mundo.

Sofia era mulher sóbria, detentora de conhecimentos técnicos; era especialista em ciências exatas, uma professora renomada em seu meio social e acadêmico. Era detentora de um pós-doutorado em Física Quântica. Mulher madura e decidida, não caía no prosaico de discutir sua vida afetiva, suas carências. Crises existenciais, em seu conceber, não passavam de falta de educação intelectual ou falta de habilidade para lidar com o mundo. Com relação a Hermes, porém, era mais condescendente. Achava-o desperdiçado, prejudicado por contingências humanas.

Certa feita, o casal fez uma viagem - eles viajavam muito -, desta vez a um centro turístico, para desfrutar idílios longe da capital. Era uma cidade muito visitada, turistas domésticos e estrangeiros estavam naquela semana junina, era um paraíso em pleno inverno daquela região. Hospedaram-se na pousada de D. Ernestina e pagaram três diárias de adiantamento. Na segunda noite de fruição da viagem, da gastronomia, do clima e dos costumes daquele lugar, Sofia e seu parceiro passeavam por entre as ruelas, bebericavam licores, comiam brevidades e pulavam fogueiras. Perto de meia-noite, Sofia queria dormir e partiram em direção à pousada. Quando passavam pelo miolo da praça, eis que aparece Diógenes, ex-professor de piano de Hermes. Sofia decidiu ir em frente e Hermes ficou a conversar com o amigo. O professor passou a falar sobre as “irregularidades geográficas” daquele lugar. Falou ainda da mística das montanhas que se faziam presentes, “Que o Sol nascia no norte, tangenciava o Equador, e morria no sul”. Passaram a noite, os dois, num bar da Praça, Hermes, bebendo curtas; Diógenes, vinhos tintos chilenos, maduros, varietais e assemblages encorpados, que acompanhavam carnes de tempero forte e denso, afinal era inverno e fazia uns dez graus. Conversavam sobre o sortilégio das aldeias que circundavam aquele centro de turismo. Sofia esperava por seu amado na pousada, que ficava do outro lado da Cachoeirinha, no nascente, mas adormecera antes da meia-noite.

 Diógenes sempre exercera influência no mundo e na vida de Hermes. Além de ter sido seu professor de piano por cinco anos, quando o aluno ainda era adolescente, o professor lhe passava noções de música, geografia, filosofia e o alertava sempre sobre “as inverdades ditas por pessoas tidas como importantes, ainda que tais inverdades fossem verdadeiras!”. Dizia frases de efeito, as quais nunca mais saíram da cabeça de seu aluno. “Os ignorantes são um problema; os intelectuais são um problema muito pior!”, dizia Diógenes, e havia um sem-número de frases marcantes das quais “Beber muito é muito ruim! não beber nada é muito pior!” era a preferida de seu aluno.

Depois da bebedeira na Praça, Hermes convidou o professor para dormir na pousada de D. Ernestina, onde Sofia o esperava. Diógenes tinha pressa de voltar à Bahia, pois tinha trabalhos a cumprir, mas concordou em descansar um restinho de noite por lá. Ao despertar, pela manhã, Hermes já sentia falta de vontade de viver, de andar, de falar... Acordou intrigado com as ideias de Diógenes e com os sonhos confusos que lhe incomodaram à noite. “Será que estou sofrendo alguma influência mística deste lugar?...” “Logo eu, que sou agnóstico…”, pensava, enquanto D. Ernestina, que era a dona e a própria servidora da casa, oferecia a todos os hóspedes um mijo-de-padre com rabanadas, ovos mexidos passados na manteiga, suco de umbu e bolo podre. Quebrando o ar silente do desjejum dos citadinos, D. Ernestina anunciou:

 - Seu Diógenes já deixou a pousada mais cedo, rumo à Bahia. Aquele cabra é invocado! Mas que cabra invocado!... Todos continuaram calados. Revigorado com o desjejum, Hermes recolheu-se a seu quarto, meditou, refletiu, respirou fundo, enquanto Sofia o aguardava para um passeio a pé, com destino à Cabana do Preto Velho, com um grupo de amigos dela. Todos estavam ansiosos para conhecer o profeta, um aldeão antigo, curandeiro de valor! Sem querer desagradar Sofia, Hermes decidiu por ir ao passeio, porém embotado e sem a mínima vontade de viver aquele momento. Silvinha conhecia bem os caminhos e servia de guia para a trilha de uns dez quilômetros mata adentro. Ela conversava com todo o grupo, sempre apontando e descrevendo aves, árvores, contando histórias de pessoas que se perderam naquele morro, e de outras que foram visitar a região e lá ficaram para sempre, umas porque nunca foram encontradas e outras por terem encontrado ali o paraíso para se morar e se morrer.

A conversa se mantinha num bom concerto, os assuntos eram curiosos e Hermes começou a se animar e interagir com o grupo. Flávia, a mais madura da turma, era uma mulher bonita, com uma evidência translúcida de quem se encontrava no cio. Contava histórias da fazenda de gado do pai dela, a qual ela administrava com total zelo e perfeição; falava sobre seus “roteiros para os filmes que produzia em Hollywood”, e dos grandes autores e diretores que precisavam dela; comentava, também como administrava uma grande indústria de alimentos naturais e orgânicos... Até que o deprimido não aguentou mais e passou a questionar Flávia sobre como uma pessoa pode fazer tantas coisas, sem sair dali, daquele morro; sim, ela morava exatamente naquela chapada! Durante um bate-boca de réplicas e tréplicas respeitosas, Hermes teve seu humor caído como água de chuva de verão. Entrou em crise diante da pseudologia fantasiosa da companheira de passeio. Entrou em estado de melancolia e nesse ínterim, quando o grupo se deu por conta, percebeu que estavam todos perdidos naquela mata que não era atlântica. E cada um tomou um rumo diferente, julgando estar no caminho certo da trilha. Sofia notou que Hermes desaparecera. Eram dez horas da manhã. Passou-se um dia e meio para Sílvia chegar à pousada de D. Ernestina. Sofia já havia chegado, e desesperada, perguntou por seu companheiro, Hermes, a quem ela amava. Sílvia disse que Hermes fora em direção a um caminho que ninguém do grupo concordava em ir. Ela insistira para que ele seguisse em “direção ao sol”, mas ele não queria falar, nem ouvir, só fazia olhar para o céu, malgrado as polpas das árvores não o deixassem enxergar o céu, muito menos o horizonte.

Aos poucos chegaram Tamara, David (o americano), Júlia e Heleno, o historiador. Todos esperavam ainda os perdidos, que somariam sete. Convocaram um grupo de guias de turismo da região e lhe ofereceram uma recompensa por cada desaparecido naquele ermo. Não durou uma hora para que o telefone da pousada tocasse e Diógenes procurasse por Sofia:

- Sofia, Hermes voltou à Chapada? Preciso tirar uma dúvida sobre um trabalho que ele me recomendou, ontem.

- Como assim? Ele está perdido na mata!

- Claro que não! Ontem ele esteve aqui em minha casa, bebeu um pouco, até arriscou a jantar, mas estava bêbado. Assim que chegou aqui, ele disse: “Professor, não fossem todos aqueles ensinamentos sobre noções de coordenadas geográficas, que você me ensinou há três décadas, eu estaria por lá até o infinito”. E completou: “As pessoas são frias, não sei nem se são más”. “Elas falam as coisas sem sentimento algum”.

- Meu Deus, será que aconteceu alguma desgraça?!

Sofia então partiu em um ônibus rumo à capital, foi até à casa de Hermes, bateu à sua porta e lá ninguém atendia. Assustada, chamou os vizinhos, chamou a polícia, até que um oficial procedeu ao arrombamento da porta da casa. A imagem era de tragédia quase shakespeariana: no chão, Hermes encontrava-se envolto a uma poça enorme de sangue vermelho-Almodóvar... Os dois pulsos estavam cortados. A seu lado, um bilhete manchado de sangue com as seguintes palavras: “Suportei o que podia, deixem-me sem humor, sem nada, pois assim eu não sofro mais”. Todos os presentes perceberam que na casa tocava uma música que se repetia. Era, exatamente, o Adágio de Albinoni, num aparelho de som que Hermes decerto teria programado para repetir aquela sonoridade bonita e enfadonha, como se dela fizesse seu próprio réquiem.

      

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