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Sábado, 16 de Agosto de 2014 - 06:14

Confraria II, a história de Roído o empreendedor

por Carlos Navarro Filho

Confraria II, a história de Roído o  empreendedor
Foto: Divulgação
ROÍDO

por Carlos Navarro Filho

 

 

Roído era um personagem singular e muito próximo da nossa mesa no bar de Demetrius. Pivete, aí na casa dos 16 anos, baixinho, cara de safado com aquele sorriso apenas esboçado, vivia pelas ruas do centro de Salvador. A família para ele era uma vaga lembrança. Aos oito anos, Lindaura, a mãe, conseguiu as passagens de ônibus com um vereador e voltou para Alagoinhas (pórtico de ouro dos sertões baianos, como se ouvia nos alto-falantes locais na voz rouca de F. R. Dias, um locutor muito alto e muito magro), de onde saíra aos 15 para trabalhar de empregada doméstica na capital.

Ficou menos de um ano no emprego na Rua da Graça, em uma casa de abastados. Começara a namorar um frentista do posto de combustível próximo, recém inaugurado. Engravidou e os patrões tentaram devolvê-la à casa dos pais com uma ajuda em dinheiro para o nascimento da criança. Lindaura preferiu seguir o coração e fugiu com José para ir morar em Alagados, próximo ao local onde tempos depois construiriam uma igreja para o papa João de Deus. Nasceu Roído, que nunca soube o nome de batismo. E quando, no ano seguinte, Lindaura engravidou mais uma vez José sumiu de casa. Ficou sozinha no barraco, mãe de um bebê de 11 meses e grávida antes dos 18 anos. Lavou roupa, foi diarista na Rua Direta do Uruguai e no Caminho de Areia.

Nasceu Dão, parou de trabalhar e logo depois conheceu e namorou Manoel, um biscateiro que morava de favor com um primo e vendia acaçá na Cidade Baixa. Todo dia de manhã Manoel ia para o Largo da Ribeira esperar o saveiro que chegava da Ilha de Maré com a mercadoria. Fazia o tabuleiro e só voltava para casa no meio da tarde, cansado e feliz com o dinheiro apurado. Eram bons tempos, o barraco de seis metros quadrados foi ampliado, reforçado com quatro mourões, compensado novo e até telha de amianto a coisa mais chique da construção na época, o que melhorou bem o dormir da família.

Ocorre que Manoel queria ter os próprios filhos e Lindaura não queria outros. Veio a síndrome de José, ela não queria passar por aquilo novamente.

Passou. O marido impôs como condição de continuar em casa ter pelo menos um filho. Lindaura bateu pé. Manoel foi embora. Novamente sozinha, aos 20 anos, dois filhos, não demorou muito e se viu obrigada a vender o barraco para pagar as dívidas do armazém cujo crédito, herdado dos tempos de José, estourou o limite.

Na véspera da entrega do barraco, foi orientada pelo comprador a pedir a ajuda na Câmara de Vereadores no centro da cidade. Na manhã seguinte pegou as duas trouxas com roupas e começou a caminhada. Chegou depois do almoço e logo percebeu a complicação que seria identificar e falar com um vereador. Muita gente de paletó e gravata, todo mundo com porte de autoridade, isso a deixou confusa.

Incomodado com a presença daquela jovem, com duas crianças, sentada na escadaria atrás da sua banca de revistas situada na calçada da Câmara, na esquina da Rua Chile com a do Tira Chapéu, o comerciante, conhecido por Careca, deu-lhe um conselho.

- É melhor você procurar um lugar para se abrigar com os meninos porque aqui as coisas demoram. Tem de fazer requerimento, esperar ser aprovado, aqui a lei é da burocracia senão esse povo todo que está aí vai perder o emprego e ficar que nem você.

- Não tenho para onde ir, não posso sair daqui.

- Mas aqui no fundo da banca não pode. Os guardas não vão deixar. Está vendo esse palácio aqui defronte? Aí é a casa do governador. Quando começar a escurecer, pega os meninos e vai para a calçada da parte dos fundos, na Ladeira do Pau da Bandeira, e dorme lá que ninguém vai incomodar. Os policiais não se importam, acho até que é ordem do homem. Vai pegar mal expulsar uma mulher com duas crianças.

O alto do Pau da Bandeira foi o primeiro lar que Roído lembra como seu. E ali também ganhou o nome, depois que um rato comeu uma ponta do dedo médio do pé esquerdo em uma noite de verão.

Quando a mãe voltou para Alagoinhas, brigou para não ir, levou uns tabefes maternos e desceu o Pau da Bandeira correndo na direção da Ladeira da Montanha, na qual estavam estabelecidos os mais movimentados puteiros da cidade, inclusive o lendário “63”. Quando a kombi chegou para levá-la à rodoviária, LIndaura foi pressionada pelo motorista para entrar sem demora pois estava atrasando o serviço e não podia perder o ônibus.

Sozinho no mundo, porém feliz com o mundo todo seu, Roído finalmente teria a sua primeira atividade profissional, a de ajudante de lavador de carros. Ia buscar água na torneira do fundo palácio, ali instalada justo para lavar a calçada. Diligente, fazia bem e rápido as tarefas que o chefe Zecão a ele determinava. Uma delas a Roído parecia a mais fácil e, no entanto, era a que Zecão melhor remunerava. Vez por outra era-lhe ordenado que entregasse a alguém uma espécie de cigarro, ou mesmo uma trouxinha de papel. Fácil, fácil.

- Tá vendo o doutor ali? Zecão apontou um cidadão do outro lado do Paço Municipal. Vai lá entrega isso e pega um envelope. Vai correndo e volta correndo.

Em um minuto Roído estava de volta sem entender direito o sorriso de aprovação e a moeda de recompensa. Passou até a achar Zecão um cara legal. Até que um dia, sem que nem pra que, Zecão sumiu. Em um primeiro momento Roído ficou atordoado com a cobrança da clientela, mas percebeu que a chance de fazer o pé de meia e assumiu a titularidade do serviço passando a lavar os carros. Ficou rico. O dinheiro dava para comprar camisa nova, calção novo, sandália japonesa, tudo. Em pouco tempo era dele toda a calçada do quarteirão que ia da Farmácia Chile até o novo chinês que se instalou para vender pastel. Os motoristas deixavam os carros, e as chaves, para serem lavados e, se preciso, manobrados. Era a profissionalização plena, o pagamento podia ser semanal, quinzenal e até mensal. Só uns poucos, no ramo de Roído, alcançavam tal nível. À esta altura da vida, aos 14 anos de idade, cansado de ser acordado nas madrugadas pelos boêmios e putas que freqüentavam o Varandá, conhecida casa noturna de Sandoval cantor do lendário Tabaris, situada no alto do Pau da Bandeira, ao lado do palácio, o jovem empreendedor conseguiu uma vaga em uma casa de cômodos lá pros lados da Ladeira da Preguiça. Mais pela benemerência de dona Mocinha, a dona do local, do que pela grana de Roído. Era um rapaz rico, mas ainda não dava para pegar a pensão. Contribuía com o que podia. Com endereço fixo, Roído tratou de tirar documentos empreitada que lhe rendeu muito aperto, só conseguida com a ajuda dos clientes porque não tinha certidão de nascimento, nem sabia o nome da mãe completo. Ao final um advogado convenceu o escrivão Raimundo da Vara de Família, amigo de cachaça, a registrar Roído Stanislaw dos Santos, filho de Lindaura dos Santos e pai desconhecido. O primeiro sobrenome era uma homenagem do causídico a um cronista carioca que falava muito de mulher.

Dizem que dinheiro atrai dinheiro. Aos 15 anos, figura bastante conhecida na área, carreira promissora no setor de lavagem de autos, em vez de pagar a pensão por inteiro como pretendia foi agraciado com moradia zero oitocentos. Caíra nas graças de Dalila, que fazia a vida na 28 de Setembro, e o convidara a viver com ela no mesmo quarto. Não apenas isso, em um dia qualquer apareceu um garoto na Rua Chile com um recado: “Aragão quer conversar com você, lá no Terreiro de Jesus”.

Na conversa, Aragão, um pernambucano alto e corpulento de Serra Talhada com cara de gringo e cabelo sarará, foi direto ao assunto.

- Faz um tempo que Zecão foi em cana e estou descoberto na Rua Chile. Hotéis, bares e as repartições públicas reclamam pela falta do produto e me informaram que você é o novo dono do pedaço.

- Produto, que produto?

- Não se faça de besta porra, você fazia as entregas para o loca do Zecão. É pegar ou largar. E se largar vou correr com você de lá porque vou botar alguém brabo no seu lugar.

- Amansa, cara, amansa. Topo, mas quero participação.

- Participação uma ova, vou dar uma pequena comissão.

- Topo.

Na caminhada de volta para casa, Roído finalmente entendeu a simpatia de Zecão por ele, e o filho da puta só lhe dava uma moedinha de nada.

Estava orgulhoso de si mesmo, além de lavador de carros de sucesso agora seria também um grande avião.

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