Sábado, 07 de Maio de 2016 - 05:19

Sexo, drágeas e uma águia na vesícula

por Janio Ferreira Soares

Sexo, drágeas e uma águia na vesícula
Depois do último dia de trabalho numa fábrica de lixeiras ecológicas, Claudino chega em casa, pega as correspondências e se dirige a um aparador onde estão quatro minirrecipientes plásticos que a empresa lhe presenteara “pelos excelentes serviços prestados como gerente de produção”. O primeiro, na cor verde-samambaia, vive cheio de envelopes de operadoras de cartão de crédito oferecendo desde zero de anuidade no master não sei das quantas, até juros de apenas 35% ao mês no black plus express.
No segundo, num cálido vermelho-jalapeño, repousam folhetos que os insistentes Ricardo, Marisa e Luiza vivem a lhes mandar com ofertas de “magníficas cozinhas compactas equipadas com um balcão de 13 portas e 4 gavetas em até 10x de 99,90”; “kits com três cuecas sortidas por 13,99”; ou uma incrementada “panela elétrica de fazer arroz por 3x de 33,30”.
No terceiro, numa coloração emplastro sabiá usado, pilhas Duracell dividem espaço com controles remotos, muitos sem nenhuma serventia, como um NV-SJ415 que comandava um Vídeo Cassete Panasonic Super Drive, o único que do alto de seus cinco cabeçotes conseguia uma câmera lenta perfeita na célebre performance de Linda Lovelace em Garganta Profunda.
Por fim, no de cor amarelo-canário, amontoam-se variados remédios que seus 62 carecem para manter-se como se 54 fossem, a maioria sem custo nem receita graças ao seu relacionamento com Rose, uma simpática farmacêutica com quem Clau (é assim que ela o chama) faz um gostoso amor ao perceber cartelas findando e frascos meando.
Dia seguinte, início oficial do ócio, ele se dá conta de que finalmente poderá aproveitar a enorme tela de led para assistir às séries que seus colegas viviam comentando no cafezinho ou, melhor ainda, convidar Rose para um filminho, que fatalmente começará com uma comédia romântica estrelada por Tom Hanks e pipocas quentinhas e terminará com um pornô movido a Budweiser, pistaches e laivos de KY Gel, que é pra validar com maior conforto o doce intercâmbio entre buscopans compostos e orgasmos múltiplos.
E entre um Breaking Bad e 50 Tons de Cinza (acrescidos de um azulzinho para possíveis arroubos decorrentes da história), Clau resolve fazer uma tatuagem. Pelado, diante do espelho, ele não demora para decidir por algo que cubra a cicatriz deixada por aquela velha cirurgia de vesícula, que ainda hoje o constrange na hora de se desnudar. Local definido, agora é procurar a imagem que melhor se amolde entre a bacia e seu bico do peito direito.
O Google sugere variados desenhos, até que uma águia em movimento de pouso surge na tela no mesmo momento em que a banda Eagles começa a cantar Hotel Califórnia num som distante. Empolgado pela coincidência da nomenclatura de criadores e criatura, ele percebe que suas garras cairão como uma luva sobre o pontilhado provocado por aquele bisturi mal conduzido e marca o procedimento para o dia seguinte com o mesmo tatuador que traçou um delicado colibri no osso do mucumbu de sua amada.
Para comemorar, Claudino comprou uma sunga, pegou Rose e foram passar uns dias numa praia em Camboriú, à base de muito sexo, drágeas e rocks do quarteto americano, em homenagem à águia que alforriou sua região torácica e que, de quebra, ainda serve de travesseiro quando Rose implora um cafuné pós-love. “Helcome to the Hotel Califórnia, such a lovely place, such a lovely face....”.
 

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