Segunda, 23 de Junho de 2014 - 10:39

Confraria, a história de um grupo de jovens que diariamente derrubava a Ditadura Militar

por Carlos Navarro Filho

Confraria, a história de um grupo de jovens que diariamente derrubava a Ditadura Militar
Um dia resolvemos derrubar a ditadura.

Cada um se arvorava um tipo de militância, na escola, nas ruas, no bairro, nos bares, campinhos de futebol no interior do estado, na redação e a onda crescente era a de que se tinha de ir pro pau. As Forças Armadas apertaram os nós, começaram a seqüestrar, torturar, matar sem qualquer parcimônia, à luz do dia, mas o povo e o mundo não tomavam conhecimento porque não havia imprensa: parte apoiando, parte calada pela censura. Sobravam os meios alternativos, jornalecos e folhetos feitos no mimeógrafo, de curto alcance e para os mesmos estudantes, intelectuais, uns poucos artistas e os comunistas. Tempo em que comunista era xingamento, comia criancinha. Comunista era um povo incubado, ninguém assumia simplesmente por querer continuar vivo e são, era um grande risco. Lembro quando os japoneses de Mata de São João começaram a vender tomates na feira livre de Alagoinhas, aos sábados. Era cada tomatão vermelho, bonito – um deles dava uns três dos que estávamos acostumados a comprar. O preço era praticamente o mesmo. Um feirante tradicional, no prejuízo, irritado por ter a mercadoria encalhada há umas três semanas com a concorrência nipônica, perdeu as estribeiras um dia, encarou um japa e começou a ofendê-lo aos gritos: “Você tá enganando os fregueses filho de uma égua, não vê que este tomate é falso, tem droga dentro? Você é safado, ladrão, comunista”...

Bem, não podíamos pegar em armas, não queríamos pegar em armas. Amigos pessoais haviam sido assassinados pela repressão. Pegar em armas depois do AI-5 seria o mesmo de badogues de passarinhar contra tanques e metralhadoras. A guerra precisava ser travada em outro campo. Assim, montamos nosso quartel general em Demetrius.

Para chegar em Demetrius, ali na Padre Vieira, uma minúscula praça no centro de Salvador, tivemos de fazer alguns arranjos. O amplo bar, no térreo de um sobrado antigo, tinha vizinhança importante. Em frente, o edifício sede da Caixa Econômica Federal, em uma esquina a auditoria fiscal do município, na outra o lendário Sinuca do Abel, nas cercanias a Casa de Ruy Barbosa e a casa de Maria da Vovó. Este célebre bordel, que tinha ao seu redor as sedes dos três poderes e o mundo empresarial, era freqüentado por autoridades, empresários e demais homens de bem da cidade. Afora o prédio da Caixa, restavam no espaço os sobrados de dois a quatro pavimentos, a maioria deteriorada pelo tempo e uns poucos em melhor estado, adaptados à modernidade do ar condicionado e antenas de TV. No térreo de todos eles funcionavam casas comerciais e uma pequena gráfica, do primeiro andar para cima bordéis e pensões para malandros e profissionais do sexo.

O primeiro arranjo teve por objetivo transitar com segurança, à noite, em uma área ocupada por malandros, bandidos pé-de-chinelo, travestis, mulheres-damas, policiais. Os integrantes da confraria, quase todos, trabalhavam perto. E a primeira providência foram as conversas com os travestis que até a meia-noite dominavam o pedaço. Primeiro os cumprimentos cordiais, depois um papo, um cigarrinho “pode ficar com o maço, tenho outro”. Eles se encarregaram do nosso salvo-conduto junto aos camaradas, os ladrões, amantes, companheiros de copo e de cruz, como já dizia Chico Buarque. Não demorou muito tempo e “os jornalistas” já estavam integrados ao ambiente, gente boa com quem ninguém mexia.

Demetrius, do qual nunca soubemos o nome de batismo, era um espanhol bonachão, gente do povo, possivelmente galego, que apesar de duas décadas de Bahia ainda carregava um pesado sotaque na tentativa de se expressar português.

- Me erman, o rosbife hoje tá fresquinho, anunciava à nossa entrada e já se aproximava da mesa com o prato da carne fatiada bem fino ao molho de azeite de oliva, tomate e cebola picados.

- Primeiro uma cerveja e dois Old Eight, era a pedida quando, quase sempre os primeiros a aparecer, adentrávamos eu, Victor e Oliveira, este último recém-chegado do sertão com sua alpercata de verdureiro e sem poder andar por aí depois das dez da noite, por causa da condicional. Engolia a cerveja rápido e corria para pegar o ônibus. Ficávamos a esperar quem aparecesse. Os mais assíduos eram Pedro Bó, o fotógrafo Bel, Jorginho Ramos e o italiano Paolo, que só dava as caras depois das nove da noite quando já nos preparávamos para ir embora. A lei era Demetrius fechar por volta das dez porque a partir daí o consenso era o de que a clientela ficava perigosa. Quase sempre tínhamos visitantes à mesa, colegas, amigos da prefeitura, da Câmara de Vereadores. De vez em quando, visitava-nos também amigos que não bebiam. Um deles, Simão teletipista o famoso tripé do recôncavo só fazia comer tira-gosto. Outro era Escariz, também um estranho no ninho etílico. Beber não bebia, mas fazia um estrago em outro departamento: traçava pelo menos dois grandes sanduíches de pernil, com três cocas-colas.

Todo dia, aí por volta do quinto uísque e algumas cervejas, a ditadura, em desgraça, estava aniquilada. Após esse feito memorável, nossos alvos passavam a ser o prefeito, o governador, ministros, vereadores, deputados, empresários acusados de malfeitos, a vida alheia. Ou então, a pauta voltava a dois temas recorrentes: mulher e futebol.

Nosso expediente no espanhol era de segunda a sexta-feira. Além da faina cotidiana de esculhambar os militares, a relação da turma com o meio ambiente era cada vez melhor. Nenhum de nós tinha chegado aos 30 anos e as caras de garotos nos asseguravam prestígio com a malta. Bem verdade que havia pedágio a pagar, mas coisa boba. Uma cachaça no balcão do bar, dois cruzeiros para comprar pão, em realidade o pão era trocado por algumas doses de uma pinga de folhas denominada “poca olho” no botequim mais próximo. Transações de maior valor monetário não dá para detalhar, por medida de segurança. Especialmente se fosse com Carlinhos Beleza.

Mulato alto e magro, boa pinta, elegante. Cabelo tratado na brilhantina. Sempre de paletó e gravata. O terno um tanto surrado pelo tempo de uso não lhe tirava o porte sobranceiro. Beleza tinha duas camisas sociais. Uma branca já meio encardida com a qual começava a semana. Na terça, enquanto a branca era lavada ele vestia a rosa, exibindo um contraponto interessante com o costume grafite, a gravata preta e o sapato de duas cores, marrom e branca. Caminhava com leveza, o que encantava as muitas mulheres que namorava nas casas de tolerância da Ruy Barbosa e transversais que desciam à Baixa dos Sapateiros, nas proximidades da Barroquinha. Cafetão não assumido e amante inigualável, gente fina, umas passagens por furto, ganância, nada sério. Uma vez encostou em nossa mesa e com a elegância de sempre atacou: “Cavalheiros tenho aqui uma Olivetti portátil, em bom estado. Não a uso mais e estou em dificuldade porque a madame disse que hoje eu não entro em casa sem o dinheiro do leite das crianças”. A venda foi realizada. Vez por outra aparecia oferecendo uma garrafa de uísque nacional, certamente surrupiada de algum supermercado.

Uma terça-feira, Roído, o avião da área, apareceu com uma notícia bombástica.

- Mataram Beleza.

- O que é isso rapaz? Perguntou atônito Manoel Baleiro, um policial civil aposentado, reação que foi percebida em todo o bar já em operação de encerra expediente, pois passava de nove da noite.

- Não faz tempo não, ele tá lá estirado na Ladeira da Misericórdia e foi muito tiro porque a camisa branca tá toda vermelha de sangue.

- Quem foi?

- Ninguém sabe não, mas tão falando de um carioca que levou um zignau de Beleza. Ele tava encegueirado em uma das mulheres de Carlinhos, que pra ceder Solange tomou um dinheiro do cara. Não deu um mês foi atrás de mais dinheiro e o carioca disse que a mulher já era dele por direito e não ia dar mais porra nenhuma. Na tranqüilidade, Carlinhos disse tá soréte e foi embora. Chegou pra nega e mandou ela passar uns tempos em Maragogipe, na casa de uma tia dele.

- Espera aí, onde você ouviu essa história?

- Tinha uma mulher falando lá.

- Você viu o corpo?

- Vi. Não deixaram chegar perto, mas ele tava de barriga pra cima, deu pra ver bem os sapatos, a gravata e a camisa branca vermelha de sangue.

- Me erman, que dia é hoje?, reagiu Demetrius.

- É terça-feira.

- Tá se passando, me erman? Tá vendo que não pode ser ele? Hoje é dia da camisa rosa.

Pagamos a conta e saímos, enquanto uma comitiva se formava para ir tirar a limpo a identidade do defunto. No dia seguinte soubemos contristados. Amália, uma das viúvas contou chorosa que Carlinhos Beleza dormira com ela na noite anterior e repetira a camisa branca. A rosa ficava na casa de Sandra, a titular, aonde Carlinhos, atarefado com a faina diária de cafetão, não aparecera durante o dia. Na quarta-feira, as mulheres, os travestis e a malandragem da Rua da Ajuda amanheceram desfalcados e tristes.

 

 

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