Quinta, 13 de Setembro de 2012 - 12:02

Luiz Caldas: 'Enquanto a juventude quiser continuar ouvindo 'eu quero tchu, eu quero tcha', é f...'

por Marília Moreira / Simone Melo | Fotos: Tiago Melo

Luiz Caldas: 'Enquanto a juventude quiser continuar ouvindo 'eu quero tchu, eu quero tcha', é f...'
Fotos: Tiago Melo / Bahia Notícias
Prestes a lançar 12 discos de canções inéditas, um a cada mês de 2013, o músico Luiz Caldas, “pai” da axé music, conversou com o Bahia Notícias, na entrevista mais longa da Coluna Entretenimento. Sem evitar tocar em assuntos polêmicos, o artista falou da produção dos seus novos trabalhos, comentou a ascensão do arrocha como ritmo mais ouvido entre os baianos (“Simples. A educação, a cultura do estado, do país, está em colapso e qualquer coisa que você não precise pensar muito vai lhe agradar mais”), a Lei Antibaixaria (“Não adianta pegar um cara já velho e burro e querer transformar ele em um Chico Buarque, vai ser muito difícil”) e como se tornou um “operário da música” (“Digamos que eu pulei de Dorival Caymmi a Djavan”). Também discutiu sobre o que chama de “mercantilização” da música. “Enquanto a juventude quiser continuar ouvindo ‘eu quero tchu, eu quero tcha’, é foda. Não dá, não dá mesmo! Será que essa garotada quando tiver 30, 35 anos vai ter coragem de dizer que escutava tudo isso que está escutando hoje em dia?”, questionou. 

 


 
Bahia Notícias: Em 2011, você lançou uma série de músicas inéditas, de diferentes gêneros, intitulada “130 canções inéditas”. Em agosto deste ano, você divulgou que irá lançar 12 discos em 2013, um a cada mês do ano. Quais as especificidades desses dois ambiciosos projetos e como eles se complementam?

 
Luiz Caldas: Para mim é uma continuação. E também é como se eu estivesse catalogando os ritmos que eu conheço. Porque eu comecei muito cedo tocando em bailes, eu comecei com sete anos de idade e dos sete aos 16 eu toquei todo tipo de música que você possa imaginar, porque o repertório de baile tinha que agradar a todo mundo que queria dançar. Então eu terminava de tocar Beatles e começava a tocar Agepê, era uma mistura muito louca. E você tinha que tocar igual, porque as pessoas não estavam ali para ouvir a sua interpretação, mas como eles escutavam a música em casa. Então isso tirou todo o preconceito musical de mim, logo de cara. Foi maravilhoso por isso. E, de quebra, eu me tornei multi-instrumentista. Aí quando eu cheguei no trio-elétrico, com 16 anos, eu tomei um choque, porque era interessante a quantidade de público, mas não era interessante a quantidade de estilos musicais que o trio elétrico tocava. Para mim que só tocava para 400, 500 pessoas em um baile, me deparar com uma platéia de 50.000 pessoas no trio-elétrico era uma maravilha, mas o grande problema é que no carnaval só se tocava frevo. Daí que eu inventei a axé music, que não é um estilo musical, e sim uma democracia musical. Eu quebrei aquilo que existia no trio-elétrico de só tocar frevo. Para mim foi muito legal essa coisa de brincar com vários ritmos. E hoje, depois que eu montei um estúdio em casa, eu comecei a fazer pesquisas musicais, juntando com as que eu já detinha no cérebro com outras coisas novas, como fazer um disco todo na língua tupi, coisas diferentes. 

 
BN: E a produção das músicas desses dois projetos ainda está acontecendo ou todo o trabalho já foi finalizado?

 
LC: A produção não para. Além de compor as canções – porque não existe nada feito, a gente partiu realmente do zero –, eu tenho de fazer os arranjos e tenho de gravar, ainda. É um trabalho grande, mas é prazeroso, superlegal e se torna pequeno e leve, pelo fato de a gente gostar de fazer. O novo projeto emendou com o outro processo, de 2011, porque quando começou esse lance nós iríamos fazer quatro ou cinco CDs. A ideia surgiu das conversas que tive com César Rasec, que é um grande amigo meu, parceiro e jornalista também. Ele me disse “Rapaz, porque você não faz algo diferente? Você tem estúdio, toca vários tipos de música, do popular ao erudito, porque você não faz algo diferente?”. Aí a gente começou a pensar no que poderia ser diferente. Um álbum duplo? Todo mundo já fez isso. Fazer três discos? Aí a gente pesquisando descobriu que o George Harrison quando saiu dos Beatles fez um disco triplo. Aí decidimos fazer cinco discos com os cinco ritmos que eu mais gostava. Aí comecei a pesquisar e começou a faltar espaço para colocar ritmos. Aí esse projeto virou o de doze discos com as 130 canções inéditas. 

 
BN: Pode nos adiantar qual a ordem dos álbuns?

 
LC: No projeto de doze discos, cada mês está sendo homenageado pelo que mais ele nos lembra, vamos dizer assim. O mês de junho, como eu gravei um disco de forró no disco das 130 canções inéditas, será em homenagem ao folclore, que é uma coisa que está bem próxima às festas populares e ao São João. O primeiro, em janeiro, será de rock, o “Antídoto”. Em maio, eu estou cantando música tipo balada, em um estilo parecido Roberto Carlos, Lulu Santos e músicas para mãe. Para que o trabalho aconteça, principalmente a parte de criação, a gente tem que ter um tema, tem que ter um motivo, não é só sentar e fazer canções. Quando eu fui fazer um disco de samba eu tive de visitar alguns colegas que são ídolos, mas que se tornaram colegas com algum tempo como Martinho da Vila, Agepê, Seu Jorge e tantos outros.

 


 
BN: Quais as parcerias e participações do álbum? Há alguma mais especial?

 
LC: Todos os parceiros cantam e compõem. Todo mundo colocou a mão na massa mesmo e se melou de barro, como se diz. Eu tenho amizade muito grande com muitos colegas de música. E como eu estava compondo muita coisa eu pensei que seria bacana dar uma cutucada nos amigos e chamar para esse processo e todos deram uma resposta muito legal: Zeca Baleiro, Chico César, Seu Jorge, Curumin. E a minha ideia também é essa, a de quebrar muros, música é uma só, em qualquer parte do planeta. O que diferencia as coisas, como o próprio Hermeto Pascoal já disse, são os ritmos, os responsáveis por dar a característica local a cada coisa. 

 
BN: É possível falar de qualquer coisa com qualquer ritmo?
 
LC: Eu não me preocupo muito com o casamento entre a poesia e canção, pois como eu disse, a música é uma só. Não vejo nenhum problema em a gente falar sobre os problemas que afligem a Bahia em um samba ou em uma canção. Ontem mesmo eu estava compondo com o Saulo [da Banda Eva] aqui e agente mudou várias vezes uma palavra sem mudar o sentido, porque o som que a gente precisava não estava chegando. Mas eu não vejo muito problema nisso não. Eu fico mais preocupado com o arranjo, de carregar, dar certa tensão, alguma coisa.
 
BN: Uma vez vi você falar que, neste momento da carreira, é preciso mais transpirar que inspirar, se referindo ao fato de compor por necessidade. Como você se tornou um “operário da música”? 

 
LC: Digamos que eu pulei de Dorival Caymmi a Djavan. Quando eu comecei a compor eu compunha ao modo de Dorival e vários outros, que era sentar na rede e deixar a inspiração chegar. Eu acho essa forma de compor maravilhosa e ainda componho assim. Eu posso estar conversando com vocês agora e pintar a inspiração de uma canção, alguma coisa. Mas eu conheço música clássica, eu conheço chorinho, eu conheço música popular e sou multi-instrumentista, o que eu quero dizer com isso é que eu conheço bem harmonia, conheço bem melodia e gosto de ler bastante, ou seja, eu tenho a faca e o queijo na mão para compor. O que eu preciso é acordar essas coisas e isso aconteceu quando li uma entrevista com o Djavan. Ele diz que trabalha como um operário qualquer, acorda de manhã, vai para a biblioteca dele, pega os rascunhos, fragmentos de melodia e começa a transpirar em cima daquele trabalho. Aí eu pensei, “Poxa, eu toco tão bem quanto o Djavan. Conheço música tanto quanto ele, porque é que eu não posso fazer isso?”. E essa é uma forma de compor legal. 

 


 
BN: Na 40ª edição do Festival de Gramado, realizada no último mês de agosto, você estreou como ator no filme “Tropicalismo Now”. Como foi a experiência de interpretar a si mesmo neste longa?

 
LC: No filme, o que tem é uma mistura de Luiz Caldas com Oxóssi e um pouco de Gilberto Gil, do visual dele na época. Eu canto “Marginália” no filme. O “Tropicalismo Now” é um filme que lida com a ficção, mas também com a realidade e é uma loucura muito grande. Foi muito bacana de fazer esse personagem, pois você não precisa ser ator para fazer esse filme. Eu não sou ator e nem a ideia era essa. A ideia era retratar um momento muito importante não só da música, mas também da política e da cultura do Brasil. E a gente deu uma sorte muito grande também, que como o “Tropicalismo Now” é um filme musical, o André Abujamra, que é o diretor musical, ganhou o Kikito, o que não deixa de ser um presente para todos que participaram do filme.

 
BN: A produtora Lili Bandeira, também durante o Festival de Gramado, afirmou que a biografia artística inspirada em sua vida será transformada em um filme documentário. Que projeto é esse? Tem lançamento previsto? 

 
LC: O cinema esse ano foi muito bom pra mim. Há pouco menos de um mês meu filho mais novo se formou em cinema, é cineasta. Então ele já está no projeto junto com Ninho de Morais, pai da atriz Alice Braga, que é o diretor do documentário. O filme vai contar a minha história, então não será de ficção. Eu não quero aparecer loiro de olhos azuis, já basta a minha fama de Brad Pitt em Gramado [risos]. Não, nem tenho nenhuma pretensão em fazer cinema, a não ser elaborar a parte musical, trilhas sonoras, esse tipo de coisa.

 
BN: Pesquisa recente revelou que o axé music, que reinou durante bom tempo absoluto entre os baianos, está perdendo preferência. O resultado aponta o arrocha como o segundo ritmo mais escutado (depois de MPB) e o axé ocupa apenas a oitava posição no ranking. Como você, que foi um dos precursores do axé, enxerga a ascensão do arrocha entre os baianos?

 
LC: Simples, a educação, a cultura do estado, do país, está em colapso e qualquer coisa que você não precise pensar muito vai lhe agradar mais. Isso é mais que natural. Quanto ao lance da axé music, nada mais natural também, afinal nada nem ninguém consegue ficar o tempo todo no topo. A vida é um ciclo e a gente tem que estar nele, sempre. Pode ser que em algum momento o axé volte ao topo novamente, mas isso também é em questão de mídia, porque em questão de venda o axé music ainda continua a vender muito. O axé music já é consolidado e, queira ou não queira, o axé music não pode ser comparado ao arrocha e a esses outro tipos de música. O axé music tem mais de 25 anos e está aí até hoje.

 


 
BN: E quanto ao fato de a MPB estar em primeiro lugar?

 
LC: A MPB tem tudo englobado ali. O que é a MPB? Se você perguntar a 90% das pessoas que responderam a essa pesquisa o que é a MPB elas não vão saber responder. Vão dizer é Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso. Isso é muito vago! Mas eu acho isso e bato na tecla mesmo, a gente está com uma educação muito deteriorada, entendeu? A cultura do povo brasileiro vai de mal a pior, principalmente na Bahia. Então a gente fica à mercê e refém de certo tipo de poesia que não vai levar ninguém a lugar nenhum. 

 
BN: Você costuma afirmar que a indústria fonográfica foi forçada a assimilar o axé. Como foi isso?

 
LC: Para o axé music existir eu tive de ralar bastante, mas muito, muito mesmo. As pessoas hoje em dia que fazem a axé music, meus colegas, pegaram um barco super confortável, já navegando em várias ondas, super legal. Mas eu fui para o mar numa jangada, entendeu? Sozinho, sem nada disso. E foi uma coisa terrível para acontecer porque as gravadoras quando eu cheguei lá com o disco “Beijo”, que eu lancei o bloco Beijo, eles disseram na minha cara: “Mais um baiano aqui? Não...”. E eu voltei para Salvador determinado a fazer sucesso aqui e eles virem para cá me procurar. E foi o que aconteceu e eu ralei para que isso acontecesse. Aí eu comecei a construir uma carreira que não existia aqui em Salvador. Os artistas de Salvador eram Caetano, Gal, Gil, Bethânia que moravam fora, como moram até hoje. Então eu que comecei toda essa coisa. Consegui vender 100 mil discos só na Bahia, com o disco “Magia”, em 1984. Quando eles me contrataram para as grandes gravadoras, eu já era sucesso, eu já tinha disco de ouro. Você vender 100 mil discos de LP, imagine? Porque antigamente era esse número, hoje você vende 25 mil e já ganha disco de ouro... Depois disso, todos eles vieram para cá, me oferecendo mundos e fundos para que eu aceitasse uma gravadora. E eu escolhi a que eu quis, que foi a Polygram, hoje Universal Music, porque eles me deixaram continuar cuidando da obra, sendo meu produtor, fazendo tudo o que eu queria fazer, como eu sempre quis na minha música. E aí eu passei quase dez anos sozinho, fazendo esse tipo de trabalho até surgirem outros grupos que saíssem daqui da Bahia, porque até o próprio Chiclete com Banana era muito conhecido somente localmente.

 
BN: Você acha engraçado quando pessoas de estados aqui do Nordeste não conseguem distinguir pagode do axé?

 
LC: Qualquer coisa feita na Bahia depois do tropicalismo é axé music! E não deixa de ser axé music, o próprio arrocha também é. O axé não é um estilo de música, mas é uma forma de você fazer misturas. Porque quando eu cheguei no trio só existia o frevo. Então, a primeira música da axé music, a “Nega do cabelo duro, que não gosta de pentear”, essa música tem reggae, tem funk, tem tudo misturado ali no meio. Como é que se faz isso? Você tem na banda vários instrumentos e é como se você colocasse um liquidificador com várias frutas. Aí você coloca um pouquinho de cada fruta e faz o seu suco. Por isso que o Ara Ketu é diferente do Chiclete, que é diferente do Asa e todos fazem axé music. Então porque os outros ritmos que também são misturas não podem ser [axé]? Só que têm uma nomenclatura diferente, mudaram o nome. Mas eu englobaria tudo! Porque a axé music não precisa ser uma música altamente intelectualizada, nem altamente babaca. Ela pode ficar no meio termo, oscilando.

 


 
BN: Como você lida com as reapropriações que são feitas do seu trabalho? 

 
LC: Os jovens ouvintes não estão dando o devido valor que deveriam dar aos seus. Entendeu? Tem muita gente nova, boa, fazendo um puta som. A Baiana System, por exemplo, é maravilhosa. Enquanto a juventude quer continuar ouvindo “eu quero tchu, eu quero tcha”, é foda. Não dá, não dá mesmo! Será que essa garotada quando tiver 30, 35 anos vai ter coragem de dizer que escutava tudo isso que está escutando hoje em dia? É complicado... A minha geração escutou Caetano, Gil, Chico e a gente tem o maior orgulho em dizer isso. Eu não estou aqui falando mal, mas existe a música de verdade e a música mercantilizada. E 99% da música brasileira está sendo mercantilizada, ou seja, deu dinheiro, pode ser qualquer merda que vale. Eu não concordo com isso e não acho legal mesmo.

 
BN: Falando nisso, você disse que cortou o cabelo como um “golpe de marketing”. Como foi isso?

 
LC: Foi uma brincadeira, mas foi interessante. A ideia não foi nem pra dar um golpe na música, mas na mídia mesmo, porque grande parte da mídia a gente sabe que é comprada, principalmente as rádios. E isso é terrível para a cultura do lugar, para a nossa música. Porque vira um ciclo vicioso terrível. O dono de uma banda de axé, pagode ou arrocha grava uma música e compra os direitos na mão do compositor, gasta RS 100 mil de jabá para fazer a música tocar. Mas a rádio tem que pagar ao Ecad [Escritório Central de Arrecadação e Distribuição], que vai receber pelas músicas que foram tocadas para devolver ao compositor. Ou seja, o mesmo cara que pagou o jabá vai receber de volta o dinheiro porque a música está no nome dele. E onde vai parar a cultura da gente? Porque o cara não vai investir em uma música que preste. O que ele quer é que as pessoas escutem rápido. A maior parte das músicas de hoje duram seis meses. Para mim, música não tem validade. O que seria de Tchaikovsky, Mozart, Beethoven, se tivesse?! Nem precisa ir tão longe, Lupicínio Rodrigues, Cartola, Pixiguinha. Isso é meio estranho. Só para terminar, eu brinquei dizendo isso. Lancei um projeto com 130 canções, em dois anos, produzi 22 discos. Tem artista que tem carreira de 40 anos e não tem tantos discos gravados. Eu não estou fazendo por questão de números, se não eu chamaria o Livro dos Recordes, a ideia não é essa. Mas por que eu vou ficar de braços cruzados se meu videogame é música?! Então, poxa, fiz tanta coisa e a imprensa não se preocupou em perguntar. Ai eu falei, 'quer ver como é que funciona?', cortei um dedo o cabelo… "É, eu cortei o cabelo e fiz um disco".

 
BN: Você não gosta de definir essa sua nova fase como mudança. Mas depois do disco de heavy metal, você mudou, passou até a usar tênis AllStar.

 
LC: A ideia é usar a imprensa para mostrar às pessoas que eu sou música, não sou só axé music. Axé music é uma coisa que eu fiz, que criei, mas que já está vivendo sozinho. Eu não posso ficar com isso debaixo do braço o tempo todo e nem quero. Eu continuo fazendo micaretas e shows dançantes, mas também toquei há pouco tempo com a Orquestra Sinfônica. Eu quero meu nome ligado à música em geral.

 


 
BN: Em relação a esses comentários que o rotulam como "o cara do axé que anda descalço". Em algum momento foi difícil lidar com isso?

 
LC: Não, porque sou eu mesmo "o cara do axé que anda descalço" para mim é a mesma coisa. O problema é que tem pessoas que só sabem me chamar assim. Mas eu nunca tive grilo com isso.

 
BN: Gostaria que você comentasse agora sobre a lei Antibaixaria da deputada Luiza Maia. Quando você cantou “Fricote” no show, criou uma polêmica. Não sei se houve implicação financeira no seu cachê…

 
LC: Não, porque quem me contrata são produtoras. Geralmente, existem várias produtoras até chegar ao artista. Então, eu nunca saio de casa sem receber toda minha grana. Se alguém teve algum prejuízo financeiro não fui eu.

 
BN: Neste sentido, você acha que a Lei Antibaixaria parte de um pressuposto equivocado e acaba por estigmatizar o pagode?

 
LC: Eu vejo o seguinte, uma epidemia você controla para que ela não venha, mas não adianta matar só um pernilongo. O que eu quero dizer com isso é que político não pode perder tempo com esse tipo de lei, tem que se preocupar com coisas muito mais sérias. Se você cuida da educação de um estado, as pessoas vão querer assistir um filme melhor, ouvir uma música melhor, vão exigir mais dos políticos. Acho que a sociedade deveria, sim, se preocupar com quem escreve essas coisas, mas oferecendo educação de berço. Não adianta pegar um cara já velho e burro e querer transformar ele em um Chico Buarque, vai ser muito difícil. Acho que seria bem mais fácil se a preocupação fosse oferecer uma boa educação de base para todos. Ai sim, o mais fraquinho que iria escrever seria como, por exemplo, Caetano Veloso. Mas eu não acho que a lei estigmatiza o ritmo, porque o povo ouve o que quer. Essa lavagem cerebral não vai funcionar.

 
BN: Há pouco tempo foi apresentado um projeto de um quarto circuito de carnaval para o prefeito João Henrique, denominado Afródomo. O circuito vai do Mercado Modelo à Feira de São Joaquim [Avenida França]. Você, que fez uma crítica ao modelo de Carnaval na música "Apartheid da Alegria", considera que este projeto vem a reforçar o “apartheid”?

 
LC: Não vejo dessa forma. A gente tem que parar e pensar o seguinte, Brown é um carnavalesco. Não é porque ele começou comigo tocando na Acordes Verdes, que eu estou falando isso. Então, se ele tem uma ideia, a gente deve parar, pensar, escutar, ver o que presta o que não presta, mas dar atenção porque ele nunca pensou em fazer algo para o carnaval de Salvador que fosse ruim. Agora tudo tem que ser observado, a questão é que não é só Brown e a Timbalada, não é só Ilê, não é só o Malê, tem várias entidades que devem ser englobadas a isso. A música do negro é totalmente diferente da nossa. Eu não vejo nenhum problema, não vejo como segregação de forma nenhuma.

 


 
BN: Mas o axé music não tem forte influência da música negra em sua mistura?

 
LC: A minha música é forte justamente porque eu lancei mão de muita música negra nela. Swing como o de James Brown não existe. Eu não vejo isso como frescura. Para mim todo mundo é a mesma coisa, mas é claro que o negro é diferente do branco e o branco é diferente do negro. São cores diferentes. Não estou falando de conteúdo, estou falando de cor. Eu não sou daltônico.

 
BN: Durante o processo de produção dos discos, a internet ajuda a firmar parcerias? 

 
LC: Seu Jorge veio aqui em casa, ficamos o dia todo juntos, almoçamos, demos muitas risadas e depois gravamos. Já Sandra [de Sá] gravou na casa dela mesmo, mas a gente se fala o tem todo e troca muito ideia. E nisso a internet nos ajudou muito.  André Abujamra, por exemplo, vinha para Salvador me ver tocar com a Acordes Verdes, e eu não sabia disso. Um dia, escutando o trabalho do Karnak, eu disse: 'pô, eu sou fã desse cara'. Encontrei o MySpace dele e comentei, 'Eu sou seu fã'. Ele me respondeu, 'só pode ser onda. É Luiz Caldas, mesmo? Eu que sou seu fã'. E hoje Abujamra é um dos grandes amigos que eu tenho, fazemos vários trabalhos juntos. Agora estamos organizando o DVD do Projeto Tamar, eu faço a direção musical e ele vai participar como convidado. Então a internet vem ajudar de todas as formas, inclusive, eu montei um supermercado de música on line, é bem mais prático. Para vender CD, os dias já estão contados. Hoje em dia, as pessoas produzem um disco no formato físico muito mais como um cartão de visitas, para dar. O grande lance mesmo é o sinal, o mp3, que todo mundo baixa em qualquer lugar.

 
BN: E os artistas vão se estabelecer através de shows?

 
LC: Eu sempre ganhei dinheiro com shows. Por mais discos que eu tenha vendido, e eu ganhei uma grana boa assim, nem se compara a suar mesmo no palco. Esse é o trabalho do músico.

 
BN: Pretende fazer um show do porte de “Maldição”, apresentado em setembro de 2010 no TCA, com algum ou alguns dos álbuns desse novo projeto em 2013?

 
LC: Penso em produzir o Antídoto, um show de rock na Concha Acústica. A ideia, na verdade, não é o show, é o DVD. Durante o Maldição eu gravei um DVD também. Para mim, pouco importa se tenha uma pessoa na plateia, não tenha ninguém ou esteja lotado. O lance é o palco, o cenário, o visual mesmo. O cenário de Maldição de Zuart, a luz de Beleu. Ou seja, se você quer fazer algo, faça bem feito, principalmente ligado à música. Eu fui para o 'Programa do Jô', ele mesmo me convidou, pelo o que ele viu na internet do show.

 
BN: De onde surgiu a ideia de produzir o show "Maldição"?
 
LC: Eu tirei uma boa parte da ideia do filme 'Dança dos Vampiros' de Roman Polanski. Na época, eu cheguei para alguns amigos e disse: 'Eu tô com uma grana para comprar um carro, mas não tô afim, porque eu já tenho um. Eu vou fazer um show diferente'. Eles me diziam, 'Com esse grana você faz dois shows de axé na Concha e ganha um dinheiro da p…'. Eu fiquei olhando assim, 'tá falando com a pessoa errada'.

 
 
BN: Você disse que para o show Maldição pouco importava a plateia. Como foi a relação com o público diante de um trabalho tão diferente do que você costuma apresentar?
 
LC: O artista brasileiro, principalmente o baiano, se preocupa muito com o público. Essa coisa de 'tira o pé do chão', de fazer com que o público interaja o tempo todo… Não tinha nada disso. Todas as músicas eram inéditas. Para mim tanto faz como tanto fez a reação das pessoas, o que importava era a reação da gente no palco. Eu vejo o show da mesma forma. Há um tempo eu não tenho essa onda. Vou tocando minhas músicas e não importa se as pessoas estão dançando ou não.
 
BN: E os 12 discos do projeto para 2013 já estão prontos?
 
LC: Não, eu tenho nove discos prontos. Mas para fazer três é um tapa. É interessante a forma de compor que eu desenvolvi. Se eu tenho que compor para amanhã uma valsa, eu vou dormir no dia anterior pensando em grandes compositores, como Vivaldi, Altamiro Carrilho. De manhã, eu acordo, pego o violão, sento e tem obrigação de sair alguma coisa. Pela tarde, Claudinho, que é meu técnico de som e meu tecladista, chega e eu já desço e gravo. É coisa de um dia, a música já está toda pronta. Às vezes, eu chego a gravar duas a três músicas em um dia só.
 
BN: Você produz tudo sozinho?
 
LC: Às vezes, convido algum músico para tocar comigo. Mas se eu fosse pagar cada músico para fazer um trabalho desses. Imagine, produzir 22 discos, seria muita grana. Isso só é possível porque eu toco todos os instrumentos. Tem música que eu toco tudo sozinho, bateria, baixo, guitarra, percussão.
 
BN: E as capas do CD já estão prontas?
 
LC: Vão ser feitas por César Rasec.


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