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Segunda, 17 de Janeiro de 2011 - 00:00

Moraes Moreira: cantando e contando

por Lais Vita

Moraes Moreira: cantando e contando

       Foto: Crisna Pires/ComunikaPress

Quando o assunto é música baiana, quase tudo passa por Moraes Moreira. Sempre produtivo, Moraes lançou, no fim de 2010, seu segundo livro, “Sonhos Elétricos”, prepara um CD de samba e faz planos para o próximo de carnaval. Apesar de viver no Rio desde o início da carreira, o cantor, compositor e instrumentista faz questão de declarar o seu amor pela terra natal e repetir sempre que “mancha de dendê não sai”. Em entrevista exclusiva, por telefone, ao Bahia Notícias, Moraes Moreira fala sobre sua relação com os ex-integrantes dos Novos Baianos e com a família Macêdo, dos planos para o futuro e dos novos talentos baianos, mas não poupa críticas às músicas e à atual estrutura da maior festa de rua do planeta: “Vamos desmanchar tudo e fazer tudo de novo!”, diz. Confira!


Lais Vita : Você é fala sempre muito bem da Bahia e mora no Rio. Porquê?


Moraes Moreira: Eu moro no Rio desde que comecei a carreira, desde os Novos Baianos. Na época a gente veio pra cá porque não dava pra fazer a carreira na Bahia. Fiz tudo aqui (no Rio), porque na Bahia não tinha nada, mas é claro que tenho a Bahia no coração, como eu sempre digo, “mancha de dendê não sai’. Voltei sempre, participei pra caramba dos carnavais e depois fiquei fora por várias motivos, mas, a Bahia está sempre presente na minha música, na minha vida, no meu pensamento, e é a minha terra né, minha referência...
 

LV: O livro “Sonhos Elétricos”, que você acaba de lançar, fala sobre o seu período com a família Macêdo. Essa história já é antiga...

MM: (Interrompe) Pra você ver como eu estou na Bahia, né? Mesmo não “tando” eu “tô”. Sempre houve essas ligações. Quando eu saí dos Novos Baianos, em 1975, comecei essa história de tocar junto com o Armandinho e a descobrir todo o universo do trio, daquela música, a coisa da invenção, as histórias...Convivi com Dodô e Osmar, fui super acolhido pela família, virei parceiro deles, fizemos a música Pombo Correio, que inclusive estourou nacionalmente. Com Armandinho também saíram altas parcerias para o meu disco e o disco dele...


LV: E isso continua, né?


MM: Continua! A gente fez uma história muito grande nos carnavais, muitas músicas de sucesso, que ficaram aqui, tão vivas na alma e no coração do povo baiano. No ano passado, que eu voltei (ao carnaval), pude conferir que continua tudo muito vivo. E aí eu resolvi contar essa história no livro, por que é muito rica, muito cheia de coisas que ninguém sabia, de dentro mesmo, histórias deles, da vida deles, do jeito deles de ser, de cada um, dos discos todos que nós gravamos. Além das histórias com o carnaval da Bahia, minhas reflexões, as polêmicas que tiveram, a minha saída dos Novos Baianos. Tudo isso tá no livro.
 

LV: Então. A história já é antiga, vem desde 1975, com a sua saída dos Novos Baianos, mas, por que só agora você resolveu lançar esse livro e contar tudo isso?

MM: Ué, quando a gente tem história pra contar chega a hora que você reúne e é a aquela hora que você resolve botar num livro. È só isso. De repente, eu comecei a achar importante passar isso através de um livro, porque ele lhe dá uma sensação de eternizar as coisas. Você publica e ela (a história) passa por gerações, ela fica, ela vai para as bibliotecas, pra escola, pra alguém estudar. É a memória! Essa é a maneira de eternizar uma memória e eu tinha essa experiência e quis passar. É uma história que o povo baiano gosta, toda a Bahia participou comigo, e eu pude ver isso, no dia do lançamento do livro com todo mundo feliz com as histórias. Então, é coisa de memória mesmo, de querer passar pras gerações novas. 
 

Foto: Lais Vita

LV: Como você já disse, o livro fala do seu período com a família Macêdo, e, uma coisa que eu percebo, é que você fala deles de uma forma muito mais “carinhosa” do que dos Novos Baianos. Foram duas fases imporantes da sua carreira, mas é o que passa... É só mesmo uma impressão ou algo realmente aconteceu?

MM: Sim, eu acho que fica só na impressão. Há dois anos eu lancei um livro chamado “A História Dos Novos Baianos e Outros Versos”. O “Sonhos Elétricos" é o segundo e o primeiro foi falando dos Novos Baianos, então, essa impressão não é verdadeira. Esse é um livro que fiz todo em Cordel, contando todas a minhas vida com os eles e dediquei um tempo grande pra escrever isso, pra contar essa historia, que também é outro capítulo da minha vida, importantíssimo. Não tem um mais importante que o outro. Tanto que eu quis registrar as duas fases em livros, além de estarem nos discos, porquê as músicas estão neles. Escrevi as duas histórias, e uma completa a outra. Todas as duas têm uma importância imensa em mim. Todas contam a história da minha vida.
 

LV: Como é a sua relação hoje, com os integrantes dos Novos Baianos?

MM: È uma relação às vezes conturbada. A gente tem um sentido de irmandade muito grande dentro de nós, e por isso até os nossos filhos se sentem meio que irmãos, mas, por vezes temos umas discordâncias, umas coisas pelo caminho, o que é normal, mas nunca tivemos grandes brigas. Tem algumas coisas que eu discordo e até já falei publicamente sobre isso. Quando eu saí do novos baianos foi porque achei que já tava na hora de partir pra outra. Já tinha feito muita coisa com eles. Eu sou autor, ou um dos autores, de todas essa músicas que você conhece dos Novos Baianos. Desde “Preta Pretinha”, “Mistério do Planeta”, “A Menina Dança”. Eu fiz um trabalho muito grande como cantor, compositor, instrumentista, arranjador, junto com Pepeu (Gomes). E aí chegou a hora em que eu achei que tinha de partir pra minha carreira solo, pro meu lado individual, de pessoa, de existir. Os Novos Baianos me deram uma experiência de vida tão grande, que depois eu pude seguir, tendo eles sempre como referência. È uma coisa que eu carrego com o maior carinho, na minha vida. Às vezes posso falar mais de um do que de outro, mas é a ocasião, porque eu também falo mais de outro do que de um.  Passei dois anos fazendo show dos novos baianos, declamando cordel, contando história e agora to trazendo mais essa. E a gente ta aí. Hoje em dia cada um segue o seu caminho, sua carreira... Eu tenho mais contato com Pepeu e os outros eu até vejo pouco, mas o que a gente fez junto, o que a gente construiu, que foi muito importante para a cultura popular brasileira, a gente preserva com um carinho danado. O momento que vivemos juntos foi de uma intensidade impressionante. A gente não só cantava junto, ou compunha junto, a gente morava junto, vivia junto, então valeu muito! Depois eu parti pra minha carreira solo, o que foi super natural.  Essas coisas que vou contando, vão me dando possibilidade de partir pra outra! Pra novidades, pra novas coisas, novos projetos, porque a vida continua. E eu continuo cheio de história pra contar, e infeliz de quem não tem história!. O verbo desse tempo agora é compartilhar. Não dá mais pra guardar, porque a meninada quer saber. Quer saber como foi que Dodô botou aquilo lá, e foi um dos caras que inventou a guitarra, como Osmar inventou o trio elétrico, como foi aquele momento de fagulha da criação. A nova geração quer saber como é que foi feita a guitarra baiana. Então, eu tô aqui pra isso: cantar e contar!
 

LV: E o carnaval? Você voltou em 2010, depois de um tempo afastado...

MM: Pois é, a parte atual do livro é essa, do carnaval de 2010. Eu conto tudo sobre como foi a minha volta, inclusive no dia em que encontrei João Ubaldo Ribeiro e disse que iria voltar. Ele me falou “Você vai voltar nos braços do povo”, e realmente aconteceu. Foram seis dias de uma coisa deliciosa, muita gente acompanhado o trio, todo mundo cantando as músicas. Foi uma sensação muito boa de permanência do meu trabalho, da minha música. Continua tudo aí, apesar das trezentas coisas que aconteceram na Bahia, o povo ainda quer ouvir “Chame Gente”, “Pombo Correio” e “Preta Pretinha”.

 

Foto: Lais Vita

Morais autografa livro para Luiz Caldas

 


LV: Nos seus dias atuais de carnaval, o que acha do que tem sido produzido e tocado na festa?

 MM: Eu acho que o carnaval da Bahia tá acontecendo. A geração do axé chegou, muita gente talentosa aconteceu. Eu discordo muito do rumo que o carnaval tomou. Ficou muito elitizado, só com os blocos de corda, a pipoca ficou de fora, a festa perdeu o sentido popular, e isso já tá demais! Poderia até acontecer, mas é que aconteceu num nível sufocante. Chegou uma hora que já não tinha lugar pra nada! Até os próprios blocos afro, as grandes entidades da Bahia, ficaram meio esquecidas. Com todo esse sucesso fácil, esse sucesso do consumo, da quantidade muito mais do que qualidade, sem nenhuma preocupação... Dessas coisas eu sempre falei, porque desde os Novos baianos a gente quis fazer uma coisa pra ficar, pra somar, pra ser importante, pra dar uma contribuição, pra toda a vida. E acho que às vezes a coisa se perde no turbilhão das futilidades, da coisa descartável. Toca uma música num ano e no outro ninguém lembra mais. E vai indo, vai indo nesse turbilhão. Vai chegar o momento em que a gente vai ter que repensar o carnaval da Bahia. 
 

LV: Você acha que o momento chegou, então?

MM: Eu acho que tá chegando. Você pode ver que o folião pipoca já tá querendo ver o trio independente dele, tá querendo sair com a roupa que ele quiser, dançar a dança que ele quiser. Ele não quer mais ficar naquela de faz-isso-faz-aquilo, agora levanta a mão, agora não-sei-o-que. Estão tendo vontade de voltar aquele carnaval da espontaneidade, em que o cara dançava do jeito que queria, vestia a roupa que queria. Eu tô sentindo que está havendo uma reação para a “apadronização” do carnaval da Bahia. Agora é tudo muito padronizado: a roupa, a música, a dança, a coreografia, ficou tudo marcado demais. Agora vamos desmanchar tudo e fazer tudo de novo!
 

LV: Quem sabe a volta do que realmente importa não marca isso?

MM: É, e não é uma coisa de nostalgia não, mas é a volta de um estado de liberdade, de, porra, chega de corda! Tá demais! Eu acho que é o modelo que está cansado. A própria cultura baiana merece mais. A diversidade da Bahia e da cultura não é mostrada, por que só vai essa coisa do sucesso fácil. Na televisão, quem assiste o carnaval da Bahia de fora, vê o carnaval do “sucesso”. Não vê a saída do Ilê da Liberdade, não vê o Malê de Balê, não vê as coisas que tem lá pra dentro, sabe. Eu sempre digo que o carnaval da Bahia é lua cheia, mas pra quem vê de fora, parece minguante.


LV: No meio desse turbilhão que está o carnaval agora, você consegue destacar alguém que você considere muito bom, que ainda produza algo de qualidade?

MM: Um cara como Luís Caldas mesmo, vai ficando. Ele continua fazendo coisas boas e cada dia melhor. Ivete Sangalo é um talento consagrado, uma grande artista brasileira. Outro dia também vi Carla Visi cantando e gostei muito. Aquele menino, o Léo (Santana), eu acho legal pra caramba. Ele tem suingue.
 

LV: Então, no meio dessas celebridades instantâneas e dessa coisa “rápida”, como você chamou, ainda se destaca algo bom...

MM: Na Bahia sempre tem uma coisa boa entendeu. Fica difícil a Bahia produzir só coisa ruim, porque é um estado tão criativo! E uma outra coisa é que também fico olhando as coisas como elas são e não como eu gostaria que fossem. No terceiro dia do meu trio, em 2010, estava indo atrás do trio do Léo, do Rebolation, e eu fui olhando aquilo e como o povo gosta, como aquela música serviu pra aquele verão, como todo mundo dançou e tudo. Você vê que ele tem esse mérito. Agora, depois, na história da musica, se isso vai ficar, se não vai, o que foi bom e o que não foi... Tem muita coisa, mas preciso ainda ver alguém novo que encha minhas vistas, porque isso eu não to vendo. Mas deve ter viu.
                                                                                                                                          Foto: Crisna Pires / Comunika Press

LV: Tem muita gente boa também que acaba não entrando nesse circuito do carnaval...

MM: Exatamente o que eu falo! Outro dia mesmo fui lá no galpão do Peu Meurray e gostei pra caramba das musicas dele. Ele é um cara que tem pouca chance de aparecer. E tem outros compositores ótimos também. A Bahia tem essa história de que todo mundo estreia né? Sempre tem alguém. A Rumpilezz mesmo, chegou com um trabalho maravilhoso, uma coisa totalmente baiana, africana, universal e jazzística, tudo misturado. Um negócio maravilhoso, que mereceu todo o destaque que teve esse ano. A grande novidade pra mim foi essa.
 

LV: E você, no próximo carnaval, continua desfilando?

MM: Eu pretendo. Todo ano na Bahia você tem que batalhar pelo carnaval. Nada é garantido de um ano para o outro, então fica sempre nesse vai-não-vai, mas eu acredito que vai. Minha vontade é ir, participar, levar minha banda, meu filho, Davi Moraes, que participa e representa uma outra geração. Eu estou buscando músicas novas. No ano passado mesmo lancei duas inéditas, que podem até não tocar na rádio, porque o rádio tá sitiado, só toca com jabá. Mas botei na internet e em todos os meios que pude botar, toquei em cima do trio, e cada ano vou levar novidade, apesar de que o esquema dos veículos, da rádio na Bahia, não tão permitindo muita coisa nova e ficam sempre nas mesmas pessoas. Mas nem por isso a gente deixa de fazer.
 

LV: Já tem algum projeto em andamento pra esse ano?

MM: Sim, estou fazendo um disco de samba chamado “Cuidado Moreira”, revisitando todos os estilos de samba. E como eu digo, eu vim da Bahia eu sou da Bahia e consequentemente eu sou do samba, então, pretendo mostrar esse lado agora.
 

LV: Quando vai ser lançado?

MM: Isso vai ficar lá pro meio do ano. Vou fazer devagarzinho. Tem muita coisa agora, tem o carnaval, tô lançando o livro, vou fazer o show do “Sonhos Elétricos”, porque o livro vira show, e aí depois eu lanço o disco.
 

LV: Você fala bastante dos Novos Baianos, da família Macêdo, lança livros de histórias, mas também tem coisas novas. Quando você sobe num trio, faz um show, ainda te dá muita saudade, uma certa nostalgia por tudo o que já aconteceu? O que você ainda quer fazer a partir de agora?

MM: Ah não. Eu quero continuar fazendo trio, até quando eu puder, e agora tô fazendo músicas com Armandinho. Fizemos duas músicas novas agora. E quero contato com novas pessoas e novas parcerias. Os artistas baianos estão sempre na minha mira, e é isso aí, vou tocar o trabalho. Cada coisa que você faz, você acrescenta, e não fica parado nela, vai embora! O livro representa uma saudade boa, não tem nostalgia não. Depois que você conta uma história, você esvazia pra botar outras. Agora eu tô no vazio, e tá vindo tudo. Depois que eu fiz o livro, apareceu música nova e agora já tão aparecendo outras coisas. 

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