Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

'Poder da fofoca': Déia Freitas transforma dia a dia em sucesso no podcast 'Não Inviabilize'
Foto: Divulgação

Há cerca de um ano, o “conglomerado pônei” e frases como “não seja ONG de macho” e “ninguém tem dó de corno” têm se popularizado na internet. Tudo isso, fruto do trabalho de Déia Freitas, voz e mente por trás do podcast “Não Inviabilize”, que atualmente conta com cerca de 8 mil assinantes pagos e ultrapassou a marca de 20 milhões de ouvintes nas plataformas gratuitas.

 

Lançado há poucas semanas, o site oficial do projeto (clique aqui) - que chegou a travar por conta dos 668 mil acessos logo na estreia - classifica a iniciativa como “um espaço de contos e crônicas, um laboratório de histórias reais”. O nome, por sua vez, deriva do blog “Não Inviabilize A Minha Existência”, criado nos anos 2000 por Déia, que é curadora, redatora, roteirista e apresentadora do podcast.

 

Para situar melhor o público, o projeto é dividido em quadros como “Picolé de Limão”, sobre os dissabores, mutretas e ciladas da vida; “Amor nas Redes”, com histórias de amor inusitadas, mas com final feliz; “Luz Acesa”, que traz causos de arrepiar e tirar o sono de quem tem medo de assombração; e “Mico Meu”, criado para narrar situações vexatórias da própria criadora, mas que acabou aberto para outros personagens.

 

O podcast tem figurado entre os mais ouvidos nas plataformas digitais:

 

Em entrevista ao Bahia Notícias, Déia Freitas, que é psicóloga por formação, conta como nasceu a ideia de contar histórias cotidianas online e de que forma venceu - parcialmente - a timidez para soltar a voz. “Eu não tinha ideia do que era um podcast. E aí, eu tinha uma amiga de Twitter chamada Priscila Armani, que já é podcaster, e falava todo dia pra mim: ‘você tem que transformar isso em áudio, você tem contar as histórias em áudio’. E eu falava: ‘não, Pri, nada a ver, eu sou muito tímida, não quero fazer isso, nãnãnã…’”, lembra Déia, que em 2019 decidiu fazer um teste enviando os causos pelo Telegram e em 2020, no início da pandemia, criou coragem para lançar o podcast, e agora se prepara para lançar livros e série.

 

Durante o bate-papo, Déia falou também sobre suas posições políticas e ideológicas transparentes e de que forma reage às críticas. “Eu sou uma pessoa de esquerda, eu sou petista, eu sou Lulista, eu sou Dilmista (risos), então é meio complicado. Recentemente eu postei uma foto do Lula e, nossa, uma moça lá surtou, porque ela é Bolsonaro e ela me escuta. E aí ela disse que não ia me escutar mais, que isso, que aquilo, daí no final ela disse que ia continuar escutando sim”, conta a apresentadora do “Não Inviabilize”, que diz conseguir entender que as pessoas deixem de seguir seu trabalho ao saberem de seus posicionamentos. “Porque ninguém é obrigado. De repente odeia muito o Lula e vai ver que eu vou fazer campanha pra ele em 2022 e vai ficar puta. Vou perder o ouvinte e paciência. Mas eu não posso deixar também de me posicionar pensando em audiência, em números, isso nunca me passou pela cabeça”, garante.

 

A partir de suas convicções, ela também põe um filtro no material que recebe e alguns relatos estão vetados. “Tem uma categoria de pessoas com um pouco mais de dinheiro que me manda histórias, por exemplo, reclamando de suas empregadas domésticas e suas diaristas. Essas histórias eu me recuso a contar e eu sempre respondo meio mal. Tipo ‘ah, ela comeu a sobremesa da geladeira…’. Ah, vai se ferrar, sabe? Então, quando chegam essas histórias num tom ‘sinhá’ aí eu me recuso realmente”, diz Déia, revelando que em alguns desses casos responde aos e-mails com um puxão de orelha.

 

Apesar desses assuntos sensíveis, no geral, o reconhecimento é muito maior que as críticas, e o crescimento do “Não Inviabilize” já tem rendido situações novas na vida da podcaster. Muito tímida, Déia lembra com desconcerto o dia em que sua voz foi reconhecida durante chamada telefônica com a atendente de uma loja de departamento e se surpreende com ocasiões em que vê pessoas rindo na rua, enquanto ouvem seu podcast. “Isso é muito louco, a pessoa está ali no metrô, a pessoa não me conhece e eu não conheço a pessoa, mas ela está me ouvindo”, observa. 

 

Estas e outras curiosidades sobre o podcast podem ser conferidas abaixo, na entrevista completa:


Sua formação é na área de psicologia. Como e quando nasceu a Déia contadora de histórias? 
Eu sempre fui uma criança que gostava de contar histórias. Na minha família, na minha escola, sempre contei história. Quando cheguei na faculdade, acabei conhecendo uma vertente da psicologia chamada "psicodrama", me interessei muito e achei que era um jeito de alcançar os pacientes, ali, emocionalmente, de uma forma a inserir essa questão dramática, da história. Mas passou, era uma época que eu estava bem ruim de grana, eu me formei e não consegui trabalhar na área, não consegui sair do meu emprego para aplicar o que eu queria fazer, o que eu tinha aprendido. E também eu não tinha grana nenhuma pra fazer uma pós em psicodrama, por exemplo, que é uma coisa que me ajudaria muito. E aí eu deixei meio que de lado e continuei trabalhando.

 

Eu tinha um blog alí nos anos 2000 chamado ‘Não Inviabilize a Minha Existência’, só que tinha muita vergonha de publicar meus textos, então eles ficavam no rascunho. Mas eu tinha vários rascunhos, umas coisas que até agora estou retomando alguns. Comecei a frequentar o Twitter, criei uma arroba e contava algumas histórias de proteção animal, do que acontecia comigo no dia a dia. Era uma época que eu estava bem mais atuante na proteção animal.

 

E aí, quando foi acho que 2015, 2016, numa brincadeira que alguém viu na minha bio que eu era psicóloga e me mandou uma história me pedindo conselho, eu falei: ‘olha, esse não é o papel do psicólogo, ainda mais no Twitter. O que eu posso fazer é contar sua história online e as pessoas vão responder o que elas acham, os conselhos, e você pega’. Eu fiz isso, deixei aberta minha DM para quem quisesse mandar história e foi um dia que meu Twitter travou! E eu tive que pedir ajuda para o suporte do Twitter para resolver, porque eram muitas DMs, eu não conseguia mais fazer nada, não conseguia acessar. Começou assim, eu contando histórias ali no Twitter.


Quando foi que você transpôs essas histórias do Twitter para o áudio, quando você começou a gravar esse material e compartilhar com seus seguidores?
Então, eu não tinha essa pretensão. Eu não sabia o que era um podcast, eu não tinha ideia do que era um podcast. E aí, eu tinha uma amiga de Twitter chamada Priscila Armani, que já é podcaster, e falava todo dia pra mim: ‘você tem que transformar isso em áudio, você tem contar as histórias em áudio’. E eu falava: ‘não, Pri, nada a ver, eu sou muito tímida, não quero fazer isso, nãnãnã…’. E aí, passei muito tempo negando, até que a Priscila falou: ‘você não quer fazer um teste no Telegram? Em vez de fazer um podcast, você conta as histórias ali e as pessoas te ouvem. É o exercício, você vai ver se você gosta, e tal’. Eu topei e passei um ano fazendo isso no Telegram, então, o ano todo de 2019 e ali comecinho de 2020, eu passei contando histórias no Telegram. 

 

Aí, um pouco antes da pandemia eu falei: ‘eu acho que agora estou pronta pra fazer um teste’. Aí falei pra Pri, ela me ajudou, arrumou um editor, que é o marido dela, o Leo Mogli, e aí eu comecei. E assim que eu comecei veio a pandemia. 

 

E acabou sendo um alento para as pessoas presas em casa, na pandemia, não é?
É, eu não imaginava que ia ser assim do jeito que foi. Uma hora lá pelo meio do ano passado explodiu, e tal. Eu não imaginava que seria assim. Achei que ia ser a mesma frequência do Telegram, que eu tinha acho que uns 8 mil ouvintes. Mas aí depois a gente foi escalando muito rápido também. 

 


Podcast é dividido em quadros | Foto: Reprodução

 


A gente vê que o podcast tem figurado entre os mais tocados nas plataformas digitais, o grupo do Telegram já com cerca de 23 mil membros, no Twitter são mais de 94 mil seguidores, incluindo muitos jornalistas e personalidades. Há algumas semanas você lançou o site oficial, e o servidor caiu….
Eu não imaginava, o servidor caiu, teve 668 mil acessos no primeiro dia, em pouquíssimo tempo. A gente nem imaginava, porque site, quem que entra em site? Quase ninguém entra em site! Mas o nosso site tem um fluxo muito grande, porque as histórias todas estão lá com transcrição. Então, se você quiser ouvir e ler, você pode entrar lá no site e acompanhar.

 


Você fala sempre sobre acessibilidade, foi pensando nessa questão que você incluiu o material escrito no site?
Sim, nessa questão sim. Eu também tenho um plano muito futuro ainda, porque o investimento é alto, de fazer o Youtube com libras. É muito caro, então eu ainda não consigo, mas eu tenho esse objetivo aí pra alcançar.

 


Quando você começou, primeiro foi no Twitter, depois Telegram e depois plataformas digitais, quais eram as ferramentas que você usava? Como era que você fazia o trabalho e quais dificuldades enfrentava?
Bom, no Telegram era o celular e só, eu gravava em qualquer lugar. Depois, no podcast, os primeiros dois ou três episódios eu gravei num estúdio, aí veio a pandemia e eu não consegui mais gravar no estúdio. Então eu improvisei em casa uma caixa de papelão, o meu editor, que é o Leo Mogli, tinha me dado um microfone, que hoje em dia não me serve mais, porque eu acabei mudando de telefone e ele não capta mais do jeito que captava. E aí eu comecei a gravar numa caixa de papelão, colocando em volta ali do celular, e com um filtro pop pra tirar o chiado da voz, da respiração. E é assim que eu faço até hoje, nada mudou... (risos).

 

Quando acabar a pandemia você pretende retomar as gravações em estúdio?
Eu gostaria de voltar pra estúdio, porque é muito diferente, é muito bom. Só que só, realmente, depois que acabar, zerar a pandemia. Nem com  todo mundo vacinado eu ainda tenho coragem, porque o estúdio é totalmente fechado. E só ali você dependendo de filtro de ar condicionado eu tenho muito medo.

 

E quanto ao boom que seu trabalho está tendo, você esperava esse sucesso, é algo que você vinha planejando?
Não, não imaginava. E as pessoas viralizam muito. Então, é uma pessoa que ouve, conta pra outra. Porque eu nunca paguei, nunca fiz uma propaganda, nunca paguei um impulso de post, nada. É aí no boca a boca. 

 

O poder da fofoca…
É o poder da fofoca, justamente!  

 

Você já comentou, inclusive agora na entrevista, o fato de ser uma pessoa tímida e reservada. Em algum momento, depois daquele início, você hesitou em tocar o projeto diante da possibilidade do sucesso implicar em uma maior exposição? E, além disso, com o crescimento do seu trabalho, você já tem lidado com o reconhecimento da rua, para além do virtual?
Então, eu tinha medo sim, sempre tive muito medo da exposição, mas agora eu tenho um agente chamado Bruno Porto, que barra muita coisa pra mim. Então, isso me ajuda muito. Por exemplo, live é uma coisa que eu não consigo fazer. Eu sou muito tímida real, as pessoas podem achar que é frescura, mas não, eu travo, gaguejo, fico mal. Então, eu decidi que eu não vou me violentar em prol de, sei lá, alguma coisa. Então, ah, mais pra frente pode ser que eu faça terapia e consiga? Pode ser, mas hoje não. Eu, por exemplo, já rejeitei participar de alguns programas, mesmo online, que eu tenho que estar ali falando muito exposta, as pessoas me vendo. Esse tipo de coisa ainda não dá pra mim e eu não me forço. Também publicidade que eu tenha que aparecer falando também não dá, então eu não faço e vou negando, vou rejeitando (risos), até voltar pra terapia e ver se eu consigo melhorar um pouco isso, mas, por enquanto, é uma coisa que me incomoda muito ser reconhecida. 

 

Agora, uma situação engraçada, eu comprei uma coisa na Renner e aí precisava trocar, não estava conseguindo fazer pelo site, e eu liguei no SAC lá da Renner, que você liga pra trocar. E a mocinha que atendeu me reconheceu pela voz! É muito louco isso, né? Então, assim, fisicamente as pessoas não me reconhecem. Mas, por exemplo, teve esse caso da Renner, e uma vez eu estava no Correio, a moça estava de fone, mas com o celular olhando assim e era a capinha de um episódio meu. E também, no metrô, eu já vi isso assim, de alguém estar de fone dando risada e eu ficar interessada, porque quando você vê alguém rindo muito, você fala: ‘poxa, porque ela está rindo pra eu rir também’. E aí, na hora que eu levantei e olhei o celular, era um episódio meu. Isso é muito louco, a pessoa está ali no metrô, a pessoa não me conhece e eu não conheço a pessoa, mas ela está me ouvindo. 

 


É uma forma de retorno também para você, uma forma de medir seu alcance, não é?
É, e essa vez da Renner foi muito engraçado porque eu fiquei muito sem jeito, a moça percebeu, e depois ela me achou no Twitter pra pedir desculpa porque ela tinha me reconhecido no atendimento da loja (risos). 

 

 

A gente sabe que o sucesso tem disso, o reconhecimento, a parte boa, o lucro, fãs, mas também vêm as críticas. Volta e meia você compartilha no Twitter certos comentários que fazem, e-mails desaforados que você recebe, gente que quer mudar sua forma de expor as histórias ou algum posicionamento seu. Como você lida com esse tipo de crítica? Você tem hater?
Assim, eu acho que os meus haters são do Twitter. Na época que eu contava história no Twitter eu já tinha hater. Isso é bem coisa de Twitter mesmo, né? Mas, assim, às vezes eu recebo sim. Porque eu acho que rola muita identificação com as histórias, às vezes a pessoa fica brava ou acha que determinada parte eu não devia falar, porque ela se projeta naquilo. E aí não é um problema meu, então, às vezes eu respondo, porque eu percebo que tem uma angústia ali mesmo, mas as pessoas acabam me xingando, porque o que querem, no final, é que eu faça o que elas querem. E eu não vou fazer, aí dá uma complicada. Mas não é todo mundo que eu respondo, são só os que eu sinto que tem mais angústia. Mas têm também os malcriados que xingam e tal, e aí eu ignoro. 

 


Muito tímida, Déia Freitas é conhecida nas redes pelo icônico avatar do cachorrinho de peruca | Foto: Reprodução

 


Você falou do posicionamento com relação às histórias, mas também tem um posicionamento político muito transparente e, ao que a gente percebe, você tampouco tem receio de que isso possa influenciar no consumo do seu trabalho. Essa firmeza se mantém sempre, ou ao longo dessa trajetória você revisita algumas opiniões, muda algumas posições?
Então, eu sou uma pessoa de esquerda, eu sou petista, eu sou Lulista, eu sou Dilmista (risos), então é meio complicado. Recentemente eu postei uma foto do Lula e, nossa, uma moça lá surtou, porque ela é Bolsonaro e ela me escuta. E aí, ela disse que não ia me escutar mais, que isso, que aquilo, daí no final ela disse que ia continuar escutando sim. 

 

Algumas vezes as pessoas me falam assim: ‘ah, minha vizinha é Bolsonara, mas eu ouço, porque ela está te ouvindo’. Porque geralmente quem ouve lavando a louça, limpando a casa, não ouve no fone, ouve no viva voz, na Alexa, na caixinha de som. E aí, eu não sei como essas pessoas que votam em Bolsonaro lidam com isso, acho que elas passam por cima dessa questão pra poder curtir a história, porque eu não escondo real. Se você for procurar nas redes vai ver. Coisa que talvez eu não conseguisse fazer com uma pessoa, se fosse ao contrário, eu consumindo algo de alguém que simpatiza com Bolsonaro. Isso não vai acontecer, entendeu? Então, eu consigo entender sim as pessoas deixarem de me ouvir por saberem meu posicionamento, porque ninguém é obrigado. De repente odeia muito o Lula e vai ver que eu vou fazer campanha pra ele em 2022 e vai ficar puta. Vou perder o ouvinte e paciência. Mas eu não posso deixar também de me posicionar pensando aí em audiência, em números, isso nunca me passou pela cabeça.

 


Para além do político, até mesmo um assunto pequeno vira uma polêmica enorme, depois vira discussão nas redes. Foi o caso de furtos das mudas de plantinhas… 
Sim, até hoje me marcam em matérias de pote, de plantas, e são assuntos comuns. E aí eu começo a receber mais história de pote, mais história de planta. E aí, assim, no dia que eu falei que não achava certo você roubar uma muda - porque eu não acho mesmo (risos) -, nossa, foi um auê (mais risos), porque quem é adepto de roubar mudinha não acha que é errado, e, de repente, nem é. Mas é minha opinião ali na história, e às vezes gera realmente uma polêmica do que é certo entre aspas e não. 

 

São assuntos cotidianos…
É, pois é, a gente fala muito do dia-a-dia, e se você for reparar as histórias todas são histórias comuns. Tanto que quando eu posto as histórias, nos comentários você vai ver varias pessoas: ‘ah, eu conheço alguém que passou por isso’. Hoje mesmo eu postei uma história para assinantes, que depois vai para as plataformas gratuitas, que a moça é intolerante a sêmen. Tipo, se ela engole ela passa mal, tem dor de barriga, o caramba, e eu não sabia que isso existia. Pessoa intolerante a sêmen (risos). E aí lá no grupo já tem umas três, quatro que são também. Então, quer dizer, é um assunto muito peculiar, muito diferente, mas que sempre vai aparecer alguém que, sei lá, passou por isso ou passa por isso. 

 


Sobre as histórias cotidianas, quem ouve você contar tem a impressão de que está sentado do seu lado, no sofá da sala, enquanto você narra uma boa fofoca. Apesar de parecer tão natural, uma conversa despretensiosa, a gente sabe que o resultado é fruto de um trabalho muito mais elaborado, que envolve produção, roteiro e edição... 
Sim, eu faço entrevista, redijo texto, faço roteiro, tudo...

 

Mas como é que você consegue, mesmo se atendo a toda essa parte técnica, parecer tão natural, como uma conversa descontraída? É possível ver a diferença para outros podcasts que se propõem a contar histórias.
Eu acho que primeiro tem a questão que quando você me ouve, você me ouve contar uma história na terceira pessoa. Eu sou a narradora onipresente ali em tudo e você está ouvindo a história da minha visão, do meu ponto de vista. Quando você vai procurar um outro podcast, geralmente a história é contada na primeira pessoa, e é um tipo de narração que a pessoa está ali lendo a história da outra pessoa. Então, eu acho que, assim, são técnicas diferentes de narrativas, e que às vezes você não acostuma. Você tem que treinar o seu ouvido naquela narrativa de primeira pessoa. Porque é mais difícil, por exemplo, achar que você está do lado de alguém que está lendo uma história pra você. É outra pegada. Não é que um é melhor ou pior, mas é que são maneiras diferentes de contar histórias. 

 

E eu gosto de contar na terceira pessoa. Eu leio tudo, entrevisto, e aí eu conto a história ali da maneira que eu acho que vai ficar interessante para alguém ouvir se eu tivesse contando um causo. Então, eu faço toda essa parte de entrevista, de redigir o texto, de fazer o roteiro, e eu ensaio duas, três vezes, leio, tento memorizar, e aí conto a história. Eu acho que isso é mais questão de técnica mesmo, sei lá, eu acho que não é uma coisa assim ‘ah, que eu tenho um talento a mais’. Eu acho que é técnica mesmo, não sei… Não sei te dizer… (risos). 

 


Até na área do jornalismo a gente vê os profissionais tentando formas de se aproximar mais do público, mas alguns vícios na linguagem e a voz empostada acabam comprometendo essa sensação de proximidade. Mas no seu caso, parece mesmo uma conversa.
É, e você sabe que eu fico muito assim, se parar pra pensar o tanto de jornalista que me segue, me ouve e que me manda feedback, eu não consigo mais narrar. Porque, assim, eu fico morrendo de vergonha. É muito jornalista! Aí eu fico pensando: “gente, como é que eles ficam ouvindo essas groselhas que eu estou falando?”. Porque vocês têm a técnica, vocês têm a narrativa, sei lá, então eu fico meio tensa. Esses dias eu estava lá e quem começou a me seguir? Andreia Sadi! Aí eu estou lá falando umas groselhas e está Andreia Sadi rindo e respondendo. Como eu vou ficar normal? É difícil, né? (risos). 

 

Falando da parte técnica de seu projeto, sua equipe hoje inclui uma série de profissionais, desde a área de edição, design, produção, passando pela parte comercial, até assessoria jurídica. Essa parte do aconselhamento jurídico veio depois de algum problema específico? Você já chegou a ser processada por conta de alguma história, mesmo você tendo cuidado de mudar os nomes, profissões, cidades e outras informações que possam identificar os personagens?
Não, eu nunca fui processada, e, assim, o auxílio jurídico veio porque agora o podcast vai virar série e vai virar livro. Porque eu tenho ali todas as conversas que eu tenho com as pessoas, elas me autorizando a contar a história delas, isso juridicamente já me serve. Mas agora eu tenho que pegar uma nova autorização com as pessoas. Eu ainda estou terminando esse documento, vou começar a pegar uma autorização mesmo, quando você entrevista alguém ali que você pega autorização de imagem, essas coisas. Então, é uma espécie de autorização pra que eu possa utilizar a história, de repente, numa série ou no livro. Isso eu estou terminando de fazer e a gente já vai começar a aplicar. 

 

Tem alguma previsão de quando esses projetos serão concluídos?
Os dois livros saem ano que vem, mas a série ainda não tenho data. Agora que eu já separei as histórias, a gente está meio que tentando formatar o que a gente vai fazer, porque eu fechei com a produtora Fábrica pra fazer a primeira temporada da série e eles gostam muito da minha narrativa. Então, a gente ainda está formatando, eu não sei ainda como que vai ser isso, mas eu acho que também não é uma coisa que vai demorar não.

 

Só mais uma coisa que eu quero fazer também, eu comecei a postar as histórias no Twitter de uma outra forma. Tipo, pegando as histórias das pessoas que me escrevem e colocando em etapas. Tipo, eu publico um pedaço e falo: “E aí, se fosse você, o que você faria?”. E aí as pessoas respondem. Então, agora eu quero fazer um jogo de RPG ou um baralho, um jogo com as situações do “Picolé de Limão” para as pessoas resolverem. Então tem essa também do jogo que vem aí.

 


Falando sobre histórias, tem algum tipo que você se recusa a contar ou que você se arrepende de ter contado? 
Que eu me arrependa não, mas que eu me recuso tem sim. Tem uma categoria de pessoas com um pouco mais de dinheiro que me manda histórias, por exemplo, reclamando de suas empregadas domésticas e suas diaristas. Essas histórias eu me recuso a contar e eu sempre respondo meio mal. Tipo “ah, ela comeu a sobremesa da geladeira…”. Ah, vai se ferrar, sabe? Então, quando chegam essas histórias num tom “sinhá” aí eu me recuso realmente.

 

Assim, eu não preciso responder, todo mundo sabe que eu só respondo os e-mails das histórias que eu vou contar, mas, às vezes, me irritam muito e mesmo que eu não vá contar, eu já respondo. Porque não é possível que a pessoa está me escrevendo aquilo. Então, histórias de diaristas eu só conto se for a diarista me escrevendo. Agora, gente reclamando de diarista, de empregada, ah, pelo amor de Deus! Francamente, sabe?

 

E quando você responde a essas pessoas, como elas reagem?
Alguns reagem até bem, tipo “nossa, eu não tinha pensado nisso!”. Mas eu não sei se é real também. Acho que é mais porque tomou um sabão ali e ficou meio sem jeito. Mas também eu não dou prosseguimento, eu só respondo porque eu preciso desabafar. Mas esse tipo de história, quando a pessoa me escreve pra reclamar da empregada, da diarista, da funcionária, não é o tipo de história que eu vou contar. 

 

Tem alguma história que te marcou de forma especial?
Eu tenho uma relação meio que igual com as histórias, assim. Porque do meu ponto de vista, eu gosto da história boa, então, quando ela é boa eu fico empolgada. Depois que eu faço o roteiro, conto essa história e ouço… Porque eu gravo, ouço, depois mando pro Leo, que é meu editor, ele bota os efeitos, tal, e eu ouço. Então, assim, eu ouço a minha história duas vezes na vida: quando eu gravo e depois que o Leo edita, pra ver se tem alguma correção, alguma coisa que eu quero que coloque ou tire, só. Depois, nunca mais eu ouço, porque eu fico constrangida (risos). 

 

Então todas estão no mesmo patamar…
É, têm umas que eu choro mais, mas é alí na hora, que eu estou com aquele sentimento e tal. Depois eu não ouço mais, então não me afeta mais.

 


Depois de cair no gosto do povo, expressões usadas nas histórias acabam virando ímãs na lojinha do "Não Inviabilize" | Fotos: Reprodução / Twitter

 


Bom, além dos nomes dos quadros como “Picolé de Limão”, “Amor nas Redes”, "Mico Meu" e "Luz Acesa", o seu jeito próprio de narrar os causos inclui uma série de expressões inconfundíveis, que já remetem ao podcast. Algumas delas acabaram estampando imãs e canecas de sua lojinha, como "ninguém tem dó de corno" e "não seja ONG de macho", de onde você tira essas expressões? 
É, “ninguém tem dó de corno” é uma adaptação da frase da dona Clementina, que eu não podia botar exatamente como era porque senão, sei lá, [podia ser identificada] se alguém conhece e tal. Mas eu vou fazendo aí as minhas adaptações. Agora, “ong de macho” é minha, eu sempre falei para as minhas amigas… Às vezes eu pego ali a essência da história, alguma coisa, e vem alguma expressão, alguma frase, mas não é nada calculado também. Tem muito caco alí no meio, muita coisa que eu coloco na hora que não estava no roteiro e vai indo.

 


Uma das expressões mais marcantes é a do “conglomerado pônei”, em referência a empresas, produtos e todo tipo de marca citada nas histórias que você conta. E aí vem uma curiosidade, de onde é que vem o tal pônei? Você tem alguma identificação com os pôneis? 
(Risos) Eu sempre amei muito pôneis, eu acho muito bonitinho aquele cavalinho pequeno. E eu precisava substituir as marcas, até judicialmente, eu não posso ficar usando as marcas. E aí, como eu já fazia essa brincadeira de coisa de pônei, e tal, eu levei para o podcast. Então, tudo agora é marca pônei (risos). E às vezes, mesmo assim, alguma marca a gente reconhece qual é, mas ninguém pode acusar, porque é a marca pônei. 

 

Mas para as marcas também pode ser bom, porque, mesmo sem o nome, tem até uma publicidade positiva nas histórias, não é?
Sim, você acredita que as pessoas compraram Tupperware? As pessoas me marcam comprando Tupperware e falando: “Tô adquirindo minha Pôneyware”? E até agora a Tupperware não me contratou pra nada! (risos). 

 

Esse "publi" da Tupperware ainda não saiu, mas você tem feito trabalhos patrocinados. Como tem sido isso?
As empresas que me procuram. E aí, algumas que eu acho que cabe eu faço, e outras, que eu acho que não têm a ver comigo, eu não faço. 

 

Mas tem gente que consome a parte gratuita e reclama quando você faz algum “publi”. Como você lida com essas críticas?
Você sabe que antigamente, quando eu fazia - porque, sei lá, se eu fiz cinco “publis” no Twitter foi muito - as pessoas do Twitter reclamavam. Agora, no podcast é mais raro, porque todo mundo entende ali que é um espaço que as pessoas não vão pra isso também e é uma forma de eu conseguir capitalizar um pouco o que estou oferecendo gratuitamente para a maioria das pessoas. Porque eu tenho uma quantidade de assinantes, que hoje em dia são 8 mil, mas a gente bateu os 20 milhões de ouvintes. É muita coisa! Então, quer dizer, a maioria do meu público é gratuito, e pra fazer essa roda girar, as pessoas têm que entender que tem que ter a publicidade ali também, não tem outro jeito.

 

E você não maquia a publicidade também…
Não, eu gosto de deixar escancarada. Tanto que tem algumas agências que falam “ah, não quero desse jeito”, ou umas que querem que eu leia um texto. E eu falo: “olha, eu não vou dar texto e também não vou ser discreta”. Eu tenho que escancarar o negócio e fazer do jeito que eu falo, do jeito que eu faço. Então, aí, se a empresa topar, é assim. Se não, a gente não faz. 

Histórico de Conteúdo