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Celebrando 40 anos de carreira, Lazzo Matumbi planeja dar continuidade a sua 'missão na terra'
Foto: Caio Lírio

Há quatro décadas a voz de Lazzo Matumbi ecoa para muito além de sua música, sempre poeticamente engajada entre a vida, a arte e o ativismo negro. Em suas letras o dedo na ferida, as dores e amores de um povo que resiste.

 

Os 40 anos de trajetória musical, artística, política e ativista do cantor e compositor serão celebrados com o lançamento do nono disco da sua carreira: intitulado “ÀJÒ”. O álbum estará disponível em todas as principais plataformas digitais de streaming no dia 30 de julho. Já no dia seguinte (31), será realizada uma live com a participação do guitarrista e multi-instrumentista Felipe Guedes, através do canal do cantor no YouTube. Ainda no mês de julho será lançado um videoclipe, com direção de Urânia Munzanzu, da música “14 de Maio”,  composta em parceria com o saudoso Jorge Portugal, que se tornou um dos hinos das comemorações do Dia Nacional da Consciência Negra.

 

Sendo fiel ao propósito que tem com a sua arte, Lazzo compartilha um pouco de suas memórias, e faz uma reflexão sobre sua missão na terra. 

 

Como a música entrou na sua vida?

Eu sempre digo que minha essência musical vem da minha mãe, porque eu lembro que com 12 anos eu acompanhava ela nas festas de São João no bairro da Baixa do Gantuá, eu acompanhando tocando atabaque, e ela tocando samba nos pratos. Eu acredito que minha essência, por estar ali presente, por ter essa memória afetiva, me fez perceber que a música me tocava, que eu gostava daquilo.

 

Você foi cantor do bloco Ilê Aiyê de 1978 até 1980. Como surgiu o interesse em fazer parte do bloco afro?

Eu morava no Politeama e o carnaval passava quase na minha porta. Eu sempre observava de forma bastante tranquila, porque sou de uma época que a gente colocava bancos amarrados nas árvores da Avenida Sete para acompanhar os blocos que passavam. Eu lembro que em 1974 eu vi um grupo de pessoas vestidas com indumentárias africanas e um jipe com um megafone, onde as pessoas diziam que era um bloco novo chamado Ilê Aiyê. Aquilo me chamou atenção porque era um grupo de irmãos negros cantando. O que também me chamou atenção é que sempre que esse bloco passava, tinha uma guarnição da polícia de choque que acompanhava, o que era estranho porque nos outros blocos não tinha a presença da polícia.

 

Passou-se o tempo e eu estava fazendo parte do Cacique do Garcia, depois vim ser diretor de um bloco que existia no Politeama chamado “Bafo do Jegue”. E aí um certo dia meu falecido amigo Nolacio falou comigo: ‘cara, tem um bloco na Liberdade chamado Ilê Aiyê que a onda dos caras é defender a negrada, e eu vejo que você tem uma preocupação muito grande com essa questão racial e social, seria interessante conhecer’. Logo depois dessa nossa conversa eu recebi o convite do pessoal que coordenava o bloco. No momento eu me senti agraciado por fazer parte de um grupo que naquela época tinha como objetivo o levante da auto-estima da comunidade negra, com o despertar da africanidade. Daí eu aceitei de braços abertos e o resultado foi muito positivo. O bloco é uma referência muito positiva no sentido da auto afirmação da negritude, em quesito de experiência vale muito a pena todo jovem negro tentar sair no Ilê, para ter essa vivência.

 

Foto: Reprodução/Letras

 

Durante esses 40 anos de carreira, o que você pôde aprender? E o que vê de amadurecimento no Lazzo de hoje?

Na realidade eu continuo aprendendo e, por mais que eu tenha aprendido muitas coisas, eu acho que ainda preciso aprender muito mais. O que eu tenho de qualidade é a vivência, experiência, a necessidade de recomeçar, de cantar para meu povo, contar a nossa história e nosso cotidiano. Ter hoje, depois de 40 anos, a consciência de que eu não estou aqui gratuitamente, eu estou aqui com uma missão, de um desejo ancestral de cantar para o povo no sentido de falar das nossas vidas, dos nossos sonhos e fazendo parte de um grupo de pessoas que sonham em construir um mundo melhor... Então durante esses anos de carreira eu pude adquirir essa experiência. E quando lembro do início da minha carreira eu tenho a certeza que estou trilhando o caminho certo e, se tivesse que recomeçar, eu não mudaria absolutamente nada, porque acho que esse é o caminho: contribuir na construção de um mundo melhor.

 

Ao longo desses anos você sempre foi fiel a seu estilo e a sua arte. Qual a importância disso e o que mudou no cenário artístico hoje, comparado a 40 anos atrás? 

O mercado de um certo modo vai se modificando, mas a essência do artista eu acredito que não muda. A gente vive num país onde a visão para a cultura ainda é muito pequena, os governantes da nossa sociedade ainda olham a cultura como se fosse só entretenimento, e a gente precisa entender e dar mais valor à cultura e ver isso como uma grande arte, a identidade de um povo que precisa ser respeitado de tal modo que gere renda. Isso infelizmente é uma grande parte da economia que é deixada de lado por conta do governo que olha isso tudo apenas como uma forma de entreter. A indústria vem sim mudando, mas acredito que o artista tem que ser comprometido com a arte, com o que ele diz e o que ele vai fazer, até porque o que nós fazemos não é uma coisa imediata. Pelo menos minha intenção como artista é fazer uma obra que possa ser lembrada eternamente, até porque não estamos aqui gratuitamente, estamos todos por uma missão, e se a gente faz o que faz com verdade e amor, uma hora com certeza tudo isso volta para nós, de diversas formas.

 

Feira de afro empreendedores no MAM (Foto: Ludmila Senna) 

 

Qual legado você quer deixar com sua arte, o que você quer que as pessoas pensem quando escutem a música ou o nome Lazzo Matumbi?

Eu quero que as pessoas entendam que passou por aqui uma artista negro, consciente da sua postura, do país que vive, lutando por um mundo melhor. Que os próximos que vierem também levem isso adiante, em busca de um sonho maior. Até porque se nós não tivermos esse compromisso social, racial e humanitário, qual o motivo de estarmos aqui? Então o legado que eu quero deixar é de mostrar às pessoas que não estamos de graça no mundo, precisamos deixar um legado, estamos com uma missão de contribuir para um mundo melhor do que o que a gente vive hoje.

 

O que podemos esperar de Lazzo Matumbi nos próximos anos?

Não modifica muito, até porque estamos passando por um momento de transição e transformação no mundo por conta da pandemia, que deixou todo mundo em distanciamento. O que eu quero presenciar é que esse sonho da construção de um mundo melhor possa se tornar o sonho de todos, e tenha resultados na prática, para que eu possa através disso mesclar a minha música com a visão desse novo mundo que estou vivendo e observando. Com uma dose muito grande de amor, porque acho que esse é o detalhe importante que eu faço questão de deixar em meus trabalhos, para que as pessoas sejam mais humanas e pensem no outro como pensam em si mesmas. O que eu quero é poder falar daqui a alguns anos ‘que massa, batalhei tanto, cantei tanto o amor, cantei tanto minhas dores e angústias e hoje posso dizer que estamos vivendo num mundo muito melhor’. É só o que eu espero, e acredito que meu trabalho tem esse compromisso com o meu povo.

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