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Após ano caótico, Guerreiro quer cultura aliada à economia: 'Tirar essa história das belas artes'
Foto: Paulo Telles / Divulgação

Após oito anos à frente da Fundação Gregório de Mattos (FGM) durante a gestão de ACM Neto, Fernando Guerreiro segue como integrante do time de Bruno Reis na prefeitura de Salvador. Em conversa com o Bahia Notícias, o gestor, que também é artista, detalhou o “pesadelo” vivido no ano de 2020 com a pandemia e fez um balanço das atividades realizadas pela fundação no período, com destaque para a implementação da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc.

 

“Veio esse furacão em março e a gente se deparou com uma situação totalmente inusitada. Primeiro, porque os projetos foram suspensos - a grande maioria porque eram presenciais -, os teatros foram fechados, os artistas desempregados, que é um ponto muito delicado da curva, e eu me vi numa situação complicadíssima. Eu tinha que dar um apoio a esses artistas, e ao mesmo tempo, legalmente, isso não era uma coisa simples”, lembrou o presidente da FGM, explicando que a continuidade da programação dependia do grau de reabertura autorizada pela prefeitura, de acordo com os números dos casos de Covid-19 em Salvador.

 

Passados vários meses, a situação dos trabalhadores da cultura foi ficando cada vez mais dramática, mas com a pressão da classe, da sociedade civil e de parlamentares, em junho de 2020 o governo federal sancionou a Lei Aldir Blanc, que segundo Guerreiro “veio salvar a pátria” e ao mesmo tempo chegou “repleta de problemas” por sua complexidade e ineditismo. Apesar da importância do auxílio emergencial, o presidente da FGM faz um alerta sobre o que está por vir. “Eu acho que é um remédio temporário [a Lei Aldir Blanc], eu não tenho ilusões. A gente vai ter que partir para uma outra política o mais rápido possível, porque a gente não sabe quando é que vai poder voltar a trabalhar com normalidade”, declarou, lembrando que a pandemia “quebrou a cadeia produtiva na raiz” e que as atividades online não conseguiram monetizar. “Esse é um problema e uma grande discussão que eu estou querendo puxar na fundação neste ano de 2021”, contou.

 

Com os pés no chão, Guerreiro fala ainda sobre as perspectivas gerais para o futuro próximo, que segundo ele ainda não são favoráveis. “Eu não sou pessimista, mas não estou trabalhando com nenhuma data de libertação. Porque as pessoas pensam ‘quando tomar a vacina eu saio pela rua sem máscara, agarrando todo mundo’, tem esse frenesi da vacina, é óbvio que ela é importante, que ela vai chegar e hoje é o que a gente tem na mão, mas eu vejo 2021 muito parecido com 2020. Eu não visualizo uma normalização. Esse negócio de carnaval em julho eu acho praticamente impossível, eu nem sei se vai ter São João, estou sendo sincero. Podem dizer ‘ah, Fernando boca de caçapa’, mas não, eu estou dizendo o que penso. Se acontecer vai ser ótimo, mas eu prefiro trabalhar com a perspectiva de não acontecer, que eu me previno”, ponderou. 

 

Para atravessar mais um ano turbulento, o presidente da FGM apresenta um norte: “Cada vez mais queremos casar o artístico-cultural com o desenvolvimento, a cultura como instrumento de desenvolvimento”. Neste sentido, ele pretende ampliar os espaços Boca de Brasa convertendo-os em “polos de criação de mão de obra”, implementando atividades formativas, nas quais os alunos capacitados possam se inserir no mercado de trabalho. Outro projeto importante no horizonte é um voltado para o audiovisual. “É um dos meus sonhos, que eu tenho que botar pra rodar esse ano, chama-se Salvador Filmes. É um polo de audiovisual criado em Salvador para fomentar a produção aqui, atrair produções da Netflix, da Fox, apoiar os realizadores locais, trazer pessoas de fora, apoiar toda a cadeia produtiva do audiovisual. Isso pra mim, Salvador não é a cidade da música? Pode ser a cidade do cinema de novo”, projeta Fernando Guerreiro, que também pretende “recalibrar” a Fundação Gregório de Mattos para priorizar aspectos técnicos das obras apoiadas. 

 

“Então tem o Salvador Filmes, esse projeto do Boca de Brasa, e eu quero também, de alguma maneira, contemplar os profissionais, especificamente. Existe uma discussão muito grande hoje, que é uma corda-bamba, cultura e reparação. Essa é uma coisa que a gente vai entrar em um grande debate na fundação. Eu acho que mérito artístico tem que ser o primeiro ítem a ser considerado em um edital, depois a gente pode ir pra cota, para LGBTI+, pra uma série de questões, mas a gente não pode perder de vista que eu estou administrando uma fundação cultural e não uma secretaria da reparação. Isso é um ponto que os artistas têm discutido muito, e com razão”, explica o presidente da FGM, que diz ser favorável às cotas, mas salienta a necessidade de um “equilíbrio”. 

 


Fernando Guerreiro segue como presidente da Fundação Gregório de Mattos na gestão do prefeito Bruno Reis | Foto: Paulo Telles / Divulgação

 

Qual é o balanço que você faz do trabalho da Fundação Gregório de Mattos neste último ano, tão atípico? 
Olha, 2020, na verdade, foi um ano em que meu planejamento era encerrar a gestão, ou seja, era conseguir finalizar todos os projetos. Todos estavam cronometrados para terminar entre novembro e dezembro, os editais, as entregas. Como eu sou virginiano e sou muito organizado, eu gosto muito dessa história de entregar, encerrar e tal tal tal. E aí veio esse furacão em março e a gente se deparou com uma situação totalmente inusitada.

 

Primeiro, porque os projetos foram suspensos - a grande maioria porque eram presenciais -, os teatros foram fechados, os artistas desempregados, que é um ponto muito delicado da curva, e eu me vi numa situação complicadíssima. Eu tinha que dar um apoio a esses artistas, e ao mesmo tempo, legalmente, isso não era uma coisa simples. Porque muitas vezes quem está fora do serviço público não entende ou não quer entender uma coisa chamada burocracia, que não é, necessariamente, uma coisa negativa. Ela é negativa quando é emperrada, quando é mal utilizada, mas ela é necessária pra normatizar a função pública. Na verdade, eu sou um empregado do povo e da prefeitura, não é Fernando pessoa física que está alí. Então eu preciso ter tudo documentado, tudo estruturado, senão vira uma bagunça total e acaba prejudicando os próprios artistas.

 

Então eu tive uma dificuldade enorme em achar caminhos burocráticos para essa ajuda. Aí começamos com a distribuição de cestas básicas e começamos a trabalhar nessa época já na correria para a Lei Aldir Blanc. Porque, em paralelo, teve uma queda brutal de arrecadação na prefeitura e, justamente na época do pagamento dos impostos, e o prefeito deu prioridade total à Secretaria de Saúde e Assistência Social, com toda razão. Eu fiquei: “rapaz, como é?”, os artistas todos cobrando e com toda razão.

 

E aí veio a Lei Aldir Blanc e a gente teve que correr atrás para ela ser aprovada. Conseguimos, num esforço enorme dos fóruns, dos artistas, deputados, e ela veio salvar a pátria, digamos assim. E, ao mesmo tempo, ela veio repleta de problemas. Pra você ter uma ideia, eu acho que na história da Fundação Gregório de Mattos foi a primeira vez que nós recebemos um repasse federal direto para a fundação. Imagine o que é isso burocraticamente? Demorou para a lei ser sancionada pelo presidente, os prazos vieram apertadíssimos, foi criado um inciso II, que é justamente o que passa recursos para empresas e para os grupos culturais, que talvez seja o que tem a maior complexidade, porque é um tipo de instrumento que a gente nunca trabalhou... Então pra gente elaborar forma de pagar isso, o mecanismo, foi uma loucura. Reuniões e mais reuniões. Fizemos um trabalho junto com o Estado, inclusive em paralelo junto com outros gestores, nisso veio a solução, mas eu digo que parecia que eu estava naquele programa "No Limite", a última prova é a pior, eu só lembrava disso. Eu dizia, “olha gente, pra eu passar e chegar ao final do programa eu vou enfrentar uma prova horrorosa que eu posso morrer ou terminar, me pendurar numa coisa ou despencar” (risos). Sei lá, eu estou sendo bem exagerado.

 

Mas aí eu contei com um apoio de uma equipe fantástica, que aliás é uma das coisas que eu mais me orgulho aqui na FGM. Primeiro, é uma equipe muito tecnicamente preparada, que foi formada ao longo desses oito anos. Eu lembro que quando eu cheguei na prefeitura disseram para eu tirar todo mundo, mas eu disse “de jeito nenhum”. Eu quis ver quem é que ia casar comigo nesse sentido de ser um bom profissional e depois, quem não quiser ficar e for saindo, eu vou completando os quadros e ampliando. Foi isso que aconteceu, então eu trouxe muita gente que já vinha da gestão passada super competente e fui agregando muita gente jovem ligada à produção cultural, trouxe minha chefe de gabinete, que é excelente. Essa equipe suou a camisa absurdamente, foi um trabalho de parar tudo e se dedicar, e nós conseguimos fazer os editais, aprovar, fazer os pagamentos, então esse foi um ano de contradições. Ao mesmo tempo em que a gente vivia uma pandemia, talvez nunca se tenha trabalhado tanto na fundação. A grande descoberta dessa história toda é que o presencial nem sempre é o mais indicado. 

 

Foi um ano completamente atípico. Para mim, 2020 é um ano que não terminou. Tanto que eu estou começando 2021, já liguei hoje de manhã, já estava na correria, segunda-feira é um dia sempre muito complicado, que é quando vou engrenar a semana, principalmente depois de um feriadão, e hoje é continuidade. E aí tiveram dois novos decretos com relação à Lei Aldir Blanc, estendeu a questão da calamidade pública, isso muda a lei. Que mecanismo a gente vai usar? Tem um recurso ainda sobrando… Ou seja, não para. Eu não tive nem tempo de dizer “metas para 2021”, tenho na cabeça, mas a primeira coisa é encerrar o que está pendente de 2020, que ainda não é pouca coisa, principalmente a Lei Aldir Blanc, que eu diria que é representada por todos os símbolos de complexidade. Quando você pensa que resolve, aparece uma novidade. É advogado trabalhando, é procuradoria... Para você ter uma ideia, eu tive que mandar uma lei para a Câmara de Vereadores, que inclusive quero agradecer muito o apoio, pra conseguir fazer esse pagamento dentro de um prazo que não era o prazo legal da prefeitura. E isso foi fundamental, porque senão a gente não conseguiria pagar.

 

Também falando da Aldir Blanc, os trabalhadores da cultura não foram contemplados inicialmente com o auxílio emergencial, mas, de forma tardia, foi aprovada a Lei de Emergência Cultural. Na sua avaliação, qual o impacto dessa política pública para o setor em Salvador? Ela vai garantir que artistas, produtores, empresas e demais profissionais ligados à cultura sobrevivam à turbulência causada pela pandemia? 
Eu acho que é um remédio temporário, eu não tenho ilusões. A gente vai ter que partir para uma outra política o mais rápido possível, porque a gente não sabe quando é que vai poder voltar a trabalhar com normalidade, no dia a dia, e eu percebo que a classe cultural foi uma das mais sacrificadas. Primeiro, porque é muito difícil artista ter fundo de reserva. Isso é um delírio, só os grandes artistas têm, porque é receber e gastar, receber e gastar. Essa é a realidade e pronto.

 

A gente realmente quebrou a cadeia produtiva na raiz toda, e isso é muito grave, porque o principal produto não pode ser oferecido. E o online, que a gente trabalhou muito, a gente ainda não conseguiu monetizar. Esse é um problema e uma grande discussão que eu estou querendo puxar na fundação neste ano de 2021. 

 

Então o que é que eu sinto? A lei vai tirar do sufoco, sem dúvida nenhuma. A gente vai ter uma enorme quantidade de projetos aí sendo apresentados de janeiro a maio, isso vai movimentar a cadeia cultural. A maioria online, alguns presenciais seguindo todas as normas de segurança, mas chegou junho a gente já vai ter que ter outra coisa na agulha, porque pelo que eu estou vendo, eu não sou pessimista, mas não estou trabalhando com nenhuma data de libertação. Porque as pessoas pensam “quando tomar a vacina eu saio pela rua sem máscara, agarrando todo mundo”, tem esse frenesi da vacina. É óbvio que ela é importante, que ela vai chegar e hoje é o que a gente tem na mão, mas eu vejo 2021 muito parecido com 2020. Eu não visualizo uma normalização. Esse negócio de carnaval em julho eu acho praticamente impossível, eu nem sei se vai ter São João, estou sendo sincero. Podem dizer “ah, Fernando boca de caçapa”, mas não, eu estou dizendo o que penso. Se acontecer vai ser ótimo, mas eu prefiro trabalhar com a perspectiva de não acontecer, que eu me previno. Então eu acho que a gente vai ter que realmente trabalhar imediatamente com outras políticas a partir de março, abril… Editais pra dar esse suporte continuado, porque a coisa eu acho que ainda se estende e o governo federal não precisa nem falar, porque é chover no molhado, é uma tragédia absoluta na condução do combate à pandemia. É uma das piores condições do mundo. Esse delírio de “vacina chinesa vai matar, vai transformar em jacaré” é uma coisa que nem teatro do absurdo imaginaria, então eu não sei o que vem por aí. 

 

Eu acho que a gente ainda passa um 2021 se redescobrindo, ainda voltando devagar, então pra isso eu, como presidente da fundação, entendo que é uma situação atípica e o meu planejamento de 2021 vai ter que considerar a palavra pandemia e esse quadro que é diferente da normalidade.

 


Guerreiro não prevê "retorno à normalidade"  e tampouco Carnaval e São João em 2021 | Foto: Paulo Telles / Divulgação


A pandemia tem sido um período crítico sobretudo para o setor cultural. Paralelo a isso, a classe também tem denunciado a paralisação das políticas públicas por parte do governo federal. O fato de além de gestor você ser também artista te ajuda a ter uma sensibilidade maior para lidar com essa conjuntura?
Eu sou sou um cara que a vida inteira trabalha em cima de uma palavra: esperança. Quando Regina Duarte entrou as pessoas diziam “que horror, que horror!” e eu dizia “calma, vamos ver”, mas a gente sabe que a postura do governo federal com relação à cultura é problemática. Digamos assim, a cultura não foi escolhida como uma prioridade do governo federal, prova disso é que as políticas públicas estão paralisadas ou prejudicadas. Eu li uma notícia onde que parece que grande parcela dos recursos da Lei Rouanet estão bloqueados, foram recusados, então existe uma tentativa de um dirigismo cultural. Além disso, essa coisa que agora chamam de ala ideológica, que os produtos não podem mais falar disso ou daquilo. Ou seja, cultura implica em pensar, discutir, debater, que é tudo que não interessa. Mas é o que temos no momento, a Lei Aldir Blanc foi uma luta que se conseguiu, então a gente vai continuar lutando, mas entendo que cada processo é uma luta, não existe uma corrente a favor, existe uma política que não é favorável, mas que se a gente batalhar bastante, aqui e acolá a gente consegue arrancar algumas coisas.

 

Eu queria destacar o que pra mim foi um setor estupidamente prejudicado, que foi o audiovisual. A gente vai chegar a um ponto a qualquer momento em que vai paralisar, não vai ter mais nada pra exibir, praticamente. Porque a Ancine foi desmantelada, a política de audiovisual que era vitoriosa - apesar de ter uma acusação aqui ou ali -, a gente estava se transformando em um grande polo, empregando milhares de pessoas, com filmes exibidos nos festivais do mundo inteiro, numa cadeia produtiva riquíssima, e foi totalmente destruída.

 

Eu só me lembro da época de Collor, que acabaram com a Embrafilme e ficou um ano sem produzir nada, só Carlota Joaquina. Eu nunca esqueço, porque era o único filme que tinha sido produzido no país no ano. Mas foi voltando devagar e eu acho que o audiovisual hoje é um dos setores mais prejudicados, principalmente porque existe uma dificuldade de entendimento do governo federal de que a área cultura gera empregos e renda, não é um deleite. É a mesma dificuldade que eles têm de entender que a vacina é o melhor caminho para retomar a economia. A área cultural emprega pessoas, faz girar a economia, então tem que ser incentivada por isso. E essa dificuldade afeta hoje, principalmente, duas indústrias crescentes no Brasil: a de musicais, que tomou uma porrada brutal, que é mundial, mas no Brasil especialmente; e a do audiovisual, lembrando que isso já vinha acontecendo antes da pandemia. Já vinha esse processo de satanização. Uma das coisas que o governo federal usou para eleger o presidente foi justamente dizer que artista é ladrão, que a Lei Rouanet só beneficiava ladrões, que todo mundo roubava, então isso foi um desserviço à classe cultura. É óbvio que tem produtos que eu acho que não devem ser financiados pelo governo federal, porque não devem ser financiados por políticas públicas, mas essa discussão não é generalizada. Eles pegaram alguns exemplos, exposição X, evento Y, e vieram com essa corrente conservadora em cima, generalizando para os produtos culturais como um todo e acabou derrubando a classe artística. 

 

Ela já vinha de uma porrada muito forte, veio a pandemia, paralisou, então é uma das piores fases que a gente já viveu. Eu, como artista, vivo essa dualidade. Estando do lado do poder público, eu me sinto na obrigação de fazer o que eu posso para ajudar a classe. Porque eu sou artista, então eu imagino o que estaria vivendo se estivesse hoje sobrevivendo da minha arte, do que eu produzo. Talvez se eu fosse um gestor não artista, um cara mais ligado à área técnica, administrativa, eu não estivesse tão chocado. Eu passei momentos no ano passado terríveis, de insônia, síndrome do pânico, o que você puder imaginar, nessa agonia de dizer "meu Deus, eu tenho que fazer alguma coisa". 

 

E isso [a crise no setor] não acabou, isso continua, e a gente está com alguns projetos no audiovisual. É um dos meus sonhos, que eu tenho que botar pra rodar esse ano: chama-se "Salvador Filmes". É um polo de audiovisual criado em Salvador para fomentar a produção aqui, atrair produções da Netflix, da Fox, apoiar os realizadores locais, trazer pessoas de fora, apoiar toda a cadeia produtiva do audiovisual. Salvador não é a cidade da música? Pode ser a cidade do cinema de novo. Então isso é uma das coisas que mais me interessa fazer, puxando de volta, claro que de uma forma tímida, porque não tenho recurso federal, o meu recurso é bem limitado, mas pelo menos tentando dar um start nessa possibilidade de tornar Salvador um grande polo de audiovisual. 


Sobre a passagem de 2020, “o ano que não acabou”, como você pontuou, acaba o mandato de ACM Neto e você segue à frente da FGM com o novo prefeito. Apesar do projeto político ser de certa forma de continuidade, como tem sido o diálogo com Bruno Reis? Vocês já alinharam os próximos passos? O projeto do audiovisual já foi conversado com ele?

Eu queria destacar muito o meu diálogo com Bruno e com Ana Paula. A gente tem conversado muito. Nós não botamos no papel ainda, eu já dei pistas e a partir dessa semana eu vou começar a organizar tudo isso. Porque a gente vai montar também um plano estratégico, como na gestão de Neto, e nesse planejamento tem que estar todos os projetos, as metas, objetivos, prazos. Então a gente começa a organizar isso a partir dessa semana, lembrando que eu tenho que, digamos assim, concatenar isso com o 2020 pedindo pra ser terminado. Então é um início atípico, como se eu dissesse assim, eu vou começar, mas o que ficou está ali: “Guerreiro, oh eu, termine, acabe!”. Então é essa loucura aí.

 

Eu já tenho três, de cara, muito importantes. Primeiro o Salvador Filmes. Segundo, é a expansão dos Bocas de Brasa, transformando em um grande polo de criação de mão de obra. O que é isso? Eu quero fazer um casamento cada vez maior das oficinas Boca de Brasa com o mercado. Ou seja, eu não quero fazer uma oficina em que a pessoa vá lá, faça teatro, dance, cante e pronto. Não, oficina de iluminação, pega o cara que está participando e leva pra fazer um evento da prefeitura, leva pra fazer um estágio da Gregório de Mattos... A minha ideia é fazer esse casamento do Boca de Brasa com o mercado, para formar profissionais na área, inclusive com parceria com o Sebrae. Inclusive, Ana Paula já conversou comigo sobre isso.

 

Eu quero também ampliar o Boca de Brasa. Hoje nós temos quatro e o meu objetivo é chegar a dez. Quero terminar a gestão com todas as prefeituras bairro atendidas, porque é um projeto cujo resultado sempre me parece excepcional. Um exemplo claro é Cajazeiras, um bairro que é quase uma cidade. Acredite se quiser, que Cajazeiras até o ano passado não tinha um espaço cultural. Isso é uma coisa surreal, não sei nem quantos mil habitantes tem Cajazeiras, imagine isso. Então, quando pegou fogo no mercado eu corri para o prefeito e falei: “deixa o mercado embaixo e me dê a parte de cima''. Aí, a gente conversou, ele disse que tudo bem e que colocaria a prefeitura bairro do outro lado e eu falei sem problema, porque aí você cria um polo, o lugar é maravilhoso.

 

E aí a gente conseguiu algumas apresentações nessa transição de cai pandemia, volta pandemia. Todas que a gente fez tiveram lotação esgotada, dentro do limite permitido, as pessoas pagando ingresso, as pessoas na porta, voltando. Então é um espaço que vai modificar. Eu insisto muito que nesse caos que a gente está vivendo no país, milícia, tráfico e por aí vai, nós só temos uma solução: cultura e educação. Inclusive, falo cultura primeiro porque educação está dentro da cultura e não o contrário. E eu acho que esse projeto tem um grande poder transformador, por isso ele me empolga tanto. Ele está alí não pra virar um cabo eleitoral de ninguém, não é um lugar de propaganda política, mas de trabalho. 

 

E outra conquista nossa genial é que as famílias estão indo juntas para o Boca de Brasa. Então o pai faz uma oficina, a mãe faz outra, os filhos fazem outras, e a gente percebeu que essas pessoas começam a considerar o Boca de Brasa a segunda casa delas. Mesmo que não estejam em aula, elas vão, conversam, os grupos começam a se juntar, a gente começa a ter também esse poder catalisador. A periferia de Salvador, apesar de eu não gostar desse termo - a gente vive muito na orla, venhamos e convenhamos -, mas o miolo de Salvador está pegando fogo em todos os sentidos. E culturalmente, então, é uma potência. E é onde a cidade está hoje. Essa Salvador lindinha da orla é uma Salvador, mas tem uma outra lá pulsante, recente, de 30, 40 anos. 

 

Quando a gente fez agora a maquete de Salvador a gente viu a diferença das cores. A parte mais velha é mais escura, mas a gente vê, quando foram colocando as casinhas, como Salvador cresceu pra dentro. E é essa galera que a gente tem que trabalhar pra cima e estar trabalhando direto, é uma coisa importantíssima. 

 

E eu quero também, de alguma maneira, contemplar os profissionais, especificamente. Existe uma discussão muito grande hoje, que é uma corda-bamba: cultura e reparação. Essa é uma coisa que a gente vai entrar em um grande debate na fundação. Eu acho que mérito artístico tem que ser o primeiro item a ser considerado em um edital, depois a gente pode ir pra cota, para LGBTI+, pra uma série de questões, mas a gente não pode perder de vista que eu estou administrando uma fundação cultural e não uma secretaria da reparação. Isso é um ponto que os artistas têm discutido muito, e com razão. Essa ideia de que o artista consagrado ou o artista que tem um respaldo não precisa do dinheiro público é um equívoco muito grande. Primeiro, porque a gente perde resultados fenomenais desses artistas profissionais e, segundo, porque a gente vira uma secretaria da reparação. Então é equilibrar. Eu não sou contra cota, acho fundamental, mas acho que a gente não pode perder esse equilíbrio. E tem uma demanda grande de muitos profissionais de Salvador pra terem mais apoio e mais suporte, o que eu considero absolutamente justo, inclusive porque são pessoas que trabalham na área há 30, 40, 50 anos. 

 

Tem algumas questões. Eu não me meto em julgamento de projetos, mas às vezes tem um projeto de um artista que tem 80 anos de idade e perde um edital meu. Eu fico em desespero. Então, isso vai ter que ser equacionado.

 


"Estou administrando uma fundação cultural e não uma secretaria da reparação", diz presidente da FGM, que quer ênfase na qualidade artística para apoio a projetos | Foto: Paulo Telles / Divulgação

 

De que forma vocês pensam em fazer esse equilíbrio? Vão haver debates com a sociedade? Como isso vai ser estruturado?
A gente já vem discutindo com o Conselho de Cultura, que aliás, eu quero deixar claro aqui que é um grande parceiro da fundação. Eu acho que o único conselho que continuou atuante dentro da pandemia foi o nosso, que inclusive ampliou o número de reuniões, a gente passou a fazer reunião quinzenal, e ele foi um parceiro, acompanhou tudo que a gente estava trabalhando. É a terceira formação, um conselho tripartite - ou seja, a sociedade civil, as linguagens artísticas e o poder público. A maioria dele é da sociedade civil. Então a gente vai realmente abrir um debate grande e também convidar pessoas para avaliar projetos. Acho muito importante que a gente possa ter em comissões pessoas que analisem principalmente o viés técnico daquilo. Hoje a gente está muito contaminado, muito polarizado, está tudo muito extremado. Eu acho que a gente precisa ter uma atenção muito grande, de novo - apesar disso nunca ter se perdido -, mas eu quero dar uma ênfase no artístico. 


Pelo que eu entendi enquanto você relatava os projetos para 2021, você também está participando desse planejamento estratégico para a retomada da economia, junto com a prefeitura. Como tem sido a participação da FGM nessa discussão?
Primeiro a gente mandou todo o material. Waldeck Ornelas que coordenou isso, pediu pra mim e eu mandei todas as propostas, que foram analisadas, discutidas, decupadas, virou um plano de governo, e agora nós vamos a partir dele determinar prioridades e fazer, principalmente, casamentos e inter-relações. 

 

Uma das coisas que Neto conseguiu que foi mais prazeroso pra mim nesses oito anos foi um casamento dos setores. Porque às vezes as pessoas veem a cultura muito isolada. Agora eu instalei aquelas obras no Comércio, no projeto Rua, e para instalar eu precisei de vários setores da prefeitura. Precisei da iluminação, de pessoas que pintassem, botassem placa, ou seja, não existe projeto cultural sem ter inter-relação. Então eu vou ter que estar colado com o Desenvolvimento Econômico, Emprego e Renda quando eu for falar de Boca de Brasa, vou ter que estar colado com Reparação quanto tiver projetos que envolvam Ivete Sacramento. A Secretaria da Fazenda é fundamental, quebrou mil galhos pra gente agora nessa Lei Aldir Blanc, se não fossem eles a gente não tinha conseguido executar. Então é uma prefeitura em que secretário não fala mal de secretário e nem dirigente, a gente trabalha de uma forma única. Isso o prefeito implantou de forma brilhante e Bruno está no mesmo caminho. Ou seja, a gente está alí pra cooperar, é um organismo único, não é um jogo de vaidades, de maluquice. 

 

Tem uma coisa que foi meu ponto determinante pra aceitar a primeira gestão, numa insistência de Guilherme Bellintani, depois do prefeito [ACM Neto] e agora com Bruno. Capacidade de trabalho. Se você me perguntar qual é a palavra-chave da minha vida, eu diria realizar. Eu sou um ser humano que vivo do que produzo, se eu não produzir nada… Tanto que essa coisa de aposentadoria, férias, tudo pra mim é uma complicação. Haja terapia pra poder resolver isso na minha cabeça (risos). Porque eu gosto de estar fazendo, gosto de ver coisas acontecendo. E eu percebo que Bruno e Ana Paula trazem esse mesmo potencial de realizar. 

 

Eu vou dizer a você, eu vou ser sincero, discussão pra mim é um suplício, porque a minha objetividade, quando vejo que chegou uma conclusão, pronto, acabou. Então, uma discussão que poderia levar uma hora e às vezes levam dois dias, eu entro em parafuso. Porque tem pessoas especializadas em discutir interminavelmente, e aí tem audiências públicas que não acabam nunca e eu fico assim, toda audiência pública eu tenho vontade de tomar um Rivotril. Porque tem um lado objetivo, mas tem um lado que vira um bla bla bla… É importante a escuta, mas eu tenho uma dificuldade de lidar com a escuta confusa ou com a escuta excessivamente politizada. Hoje, com oito anos de traquejo, eu já percebo claramente quando aquilo ali o objetivo é politizar e não contribuir com nada. Eu sei que isso faz parte do jogo político, mas pra mim é delicadíssimo, é uma coisa que me irrita profundamente. A solução está alí, mas “vaaamos” rodar, aí fica aquela conversa. Teve uma audiência pública recentemente que eu passei o tempo inteiro mandando “Zap” pra um vereador, eu não me lembro quem foi, assim: “pelo amor de Deus, marque o tempo! Eu não posso ficar a tarde inteira aqui!”. Às vezes uma pessoa fala durante 40 minutos o que podia falar em 10. Então esse bolodório me desespera. Se você me perguntar qual é a maior dificuldade na fundação, eu digo que não é a burocracia. É justamente uma coisa que pra mim chama-se perda de tempo. Por isso que muitas vezes me perguntam: “ah, Guerreiro, você vai se candidatar a vereador?”. E eu digo “gente, ser político é uma vocação. Eu não tenho, eu sou objetivo demais”. É fundamental na política a conversa, o entendimento, eu entendo tudo isso, só que eu tenho um pavio muito curto e tem uma hora que eu digo “já resolveu, o que é que eu estou fazendo aqui?”. E graças a Deus eu tenho um conselho muito objetivo, então a gente consegue reunir e tem uma produtividade incrível. Isso é muito bom, mas às vezes essa questão da discussão eterna me desespera.

 

Retomando, só pra ter uma ideia do panorama, como está a execução da Lei Aldir Blanc aqui em Salvador? Você falou dos atrasos na execução e implementação de projetos programados para o ano de 2020, mas eu gostaria que você detalhasse e também queria saber se os projetos da FGM que têm uma certa periodicidade serão retomados normalmente em 2021.
Em primeiro lugar, a Lei Aldir Blanc foi toda cumprida dentro dos prazos, agora a gente tem dois elementos novos. Tem a prorrogação do estado de calamidade, não sei nem se o termo é esse, se não for, corrija pra mim. A gente deveria devolver R$ 1 milhão e pouco e talvez a gente possa usar esse recurso agora, já que vai estender o prazo. 

 

E também, com a extensão de prazo vem uma questão que a gente se debateu o tempo todo com a Lei Aldir Blanc: documentação. Eu vou conversar com Jorge Khoury do Sebrae, nós vamos ter que fazer em 2021 um treinamento ininterrupto sobre a questão legal com a classe cultural. Claro que foi atípico, foi tudo muito corrido, então se a pessoa piscasse o olho ela perdia os prazos. Mas o que a gente percebeu foi que várias organizações culturais estão completamente de perna para cima, independente da questão financeira. Porque realmente é contraditório você pedir a uma que ela esteja com todos os impostos em dia num momento de crise, mas, ao mesmo tempo, se ela não estiver com os impostos em dia, a gente não consegue nesse tempo, digamos, aprovar uma lei que diga que pode pagar sem o imposto. E se a gente fizer isso com a cultura, vai ter que fazer com todas as áreas e vai gerar um pandemônio na cidade de Salvador. Então a gente realmente tem que ficar muito atento, porque um dos maiores problemas que eu tive na Aldir Blanc foi documentação. Atraso de entrega, documento trocado, documento errado, e isso foi realmente uma confusão tremenda e continua sendo. Como houve uma prorrogação anterior ao estado de emergência, a gente vai poder reavaliar alguns casos que estavam pendentes do inciso II. O inciso III está todo correndo normalmente, os pagamentos já foram feitos e os projetos vão ser executados. Então eu acho que agora é prestação de contas e contrapartida, é uma segunda etapa que a gente começa a executar.

 

Em paralelo a isso, eu devo voltar com o Viva Cultura, porque o projeto praticamente ficou congelado; os editais de ocupação dos Bocas de Brasa, que já começaram, ou seja, tem quatro grupos ocupando agora três espaços; e a Casa do Benin e o Café Teatro Nilda Spencer, que deve começar a rodar agora em janeiro um edital de ocupação desses espaços. Tem projeto ainda do edital Gregórios do ano passado que não foi executado e vai ser agora. Mas é o que estou te dizendo, a loucura que a gente vive é: diminui a pandemia, libera presencial com restrição. Volta pandemia, tira presencial. Tudo isso significa que volta o edital para o jurídico, muda o objeto, ou seja, a gente vive numa terra que não é firme nesse momento. Tudo vai e vem, porque quando a gente pensa que está caminhando para um lado, volta a pandemia e para tudo e volta tudo online e sendo online o acompanhamento é muito mais delicado.

 

A gente ia estrear agora em dezembro já o novo produto do Fábrica de Musicais, que seria meso-presencial e meso-online. Mas parou, porque não pode mais ensaiar, porque não pode gravar. Então, tudo fica nesse universo de o que a gente consegue vai empurrando pra frente. 

 

Agora, com certeza, a gente vai fazer a nova licitação da Salvador Filmes, porque a primeira a empresa que entrou não apresentou documentação correta, e a gente vai voltar com o Viva Cultura. Agora, hoje eu não digo mais que amanhã vai ser verde, eu não sei! A gente está trabalhando hoje em cima do nosso poder de criatividade e adaptação, porque o que é hoje pode não ser mais amanhã. Cai arrecadação, os setores de eventos nem se fala, porque parou total e é uma grande complicação. E a gente não sabe o que vem aí depois dos paredões de dezembro, que se multiplicaram de uma forma… Eu acho que as pessoas enlouqueceram de vez e uma grande parte da população não está mais nem aí e está uma loucura. Então vamos ver o que vem por aí como resultado disso. Eu espero que os índices não aumentem, mas a gente está com índices de abril, maio, voltando. Então tudo é uma interrogação. 

 

Agora, tudo que a gente vai podendo vai retomando. Por exemplo, as obras do Comércio, que é um projeto lindo que está agora pra ser lançado, já estão lá as sete obras de arte. Um circuito de artes visuais no Comércio que eu quero que permaneça e que todo ano a gente bote mais cinco, quatro, três, sei lá, transformando em uma galeria a céu aberto. O Comércio está lindo, eu tenho uma adoração por aquele bairro porque meu pai comerciante dalí. Meu pai veio num grupo de portugueses para a Bahia e tinha uma loja na rua Guindaste dos Padres, então eu passei a minha infância inteira naquele lugar. Eu criei uma paixão grande e começo o projeto Rua do lado da loja do meu pai, que era no Plano Inclinado. Então, o Comércio é um bairro charmosíssimo, hoje ele está totalmente recuperado. Se você for no Comércio hoje você não acredita, as ruas, as praças, já vem aí o Museu da Música, depois a Casa da História, aquela Praça Cayru ficou linda, a Praça das Mãos está linda, vem o projeto de habitação com a Fundação Mário Leal Ferreira que vai ocupar todas as ruas na parte do fundo do Comércio com habitações para funcionários públicos, ou seja, a prefeitura está toda indo pra lá, descendo, então eu acho que é um bairro que vai se reconfigurar, lindo como sempre. 

 

Essas obras de arte estavam prontas desde março e eu não podia botar na rua, porque não tinha gente na rua e iam acabar tudo, então tudo fica à mercê. Dá uma oportunidade agora, coloca, aí a gente vai assim fazendo cada coisa dentro do que a gente consegue. É uma eterna gestão de crise, eu diria.


Para finalizar, você gostaria de destacar algo para essa próxima etapa na FGM?
Eu queria dizer que meu foco é a classe cultural sempre. E aí eu vou para os técnicos, para os artistas, e tentar manter duas características da fundação que eu acho muito marcantes: o diálogo - é muito difícil, tanto que fiquei magoado quando algumas pessoas acusaram a fundação de não dialoga -, a gente sempre responde com celeridade, eu estou na rua o tempo todo, meu telefone todo mundo tem, inclusive tem pessoas que se irritam com isso, me chamam de maluco por ficar o dia inteiro recebendo ligação, mas eu digo “não, eu sou um empregado da população, eu não posso ficar me escondendo”, porque eu tenho que falar, tenho que responder as coisas. 

 

Então, esse diálogo com a classe é uma característica importantíssima, associado a um apuro técnico e diversidade. Eu tenho uma fundação que prima pela diversidade, mas que tem uma característica em comum, que é a seriedade. A gente trabalha muito sério, trabalha duro, e com um objetivo só, que é atender às demandas da classe cultural de Salvador e da população como um todo. 

 

E um dos grandes objetivos é casar cada vez mais cultura e desenvolvimento, fazer com que as pessoas entendam que a cultura traz desenvolvimento, principalmente pra uma cidade como Salvador, que tem essa vocação. Cada R$ 1 aplicado em cultura pode virar R$ 5, R$ 10, R$ 15, R$ 20. Então esse é um dos objetivos, e tirar essa história das belas artes. É uma coisa que eu sempre digo, eu não fui esbarrar em gestão à toa, porque eu nunca produzi um espetáculo sem pensar em retorno. Não é retorno grana, mas dizer tem público? Como é que eu vou divulgar? Então eu sempre tive essa cabeça de economista, junto do artista, porque eu sou formado em economia. Então, a vida inteira eu sempre tive essa preocupação, não é à toa que “A Bofetada” está aí até hoje, não é à toa que “Cafajestes” durou cinco anos. Assim, a gente implantou em Salvador o teatro como um grande negócio também. Quando eu comecei a fazer teatro, quando eu falava de bilheteria neguinho me arrasava, dizia “você só quer ganhar dinheiro” e eu dizia “calma, eu tenho que sobreviver disso, sobreviver bem, porque esse é o meu trabalho”. 

 

Então, cada vez mais queremos casar o artístico-cultural com o desenvolvimento, a cultura como instrumento de desenvolvimento. E aí vai do Boca de Brasa, aos editais, a tudo isso que eu acho que é muito importante. Distribuição de renda, casar também cada vez mais com educação. Estamos aí já com um projeto que vai ser licitado que a gente vai continuar, que são as Bibliotecas na Praça. São containers, a gente já tem um instalado na Garibaldi e vamos colocar mais nove, criando esse espaço de convívio cultural e de leitura nas praças de Salvador.

 

Quero dizer também que fiquei muito satisfeito com a reforma administrativa da prefeitura e não sei que milagre você não me perguntou de Fábio Mota (risos). Porque eu acho que vou gravar um áudio respondendo que eu me dou muito bem com ele, que sou amigo pessoal, que eu adoro Fábio Mota… Ele é um cara que trabalhou como secretário de Turismo anos a fio no governo federal, ele não é um estranho no ninho, é um grande executivo, um grande gestor. 

 

Uma das melhores notícias que eu recebi foi saber que Fábio seria o secretário de Cultura, porque a gente vai poder fazer uma parceria, acredito eu, muito legal. Não desmerecendo Pablo ou Tinoco, não é nada disso. Mas é uma figura que é muito bem-vinda e que acho que a gente vai poder fazer muita coisa. E tem a permanência de Isaac, que é um grande parceiro também, então eu acho que esse trio funciona muito bem. 

 

Eu queria aqui fazer um adendo final, queria agradecer muito à imprensa. É engraçado, porque a imprensa sempre foi uma grande parceira na minha carreira, hoje no programa de rádio eu acabo me misturando no bolo… Até teve um dia aí que Jonga falou da imprensa no programa e eu disse “você tá maluco? Nós estamos na imprensa, você tá falando mal de si mesmo?!” (risos). E quero mandar um abraço pro pessoal do Bahia Notícias, que sempre foi parceiro da minha trajetória profissional. Então eu tenho um cuidado muito grande com a imprensa, respondo, sempre atendo na hora, porque eu acho que é uma grande parceira. Eu quero fazer um grande agradecimento, nesses oito anos esteve muito próxima da gente também. Patrícia faz um trabalho excepcional na fundação no setor de comunicação, Renata está chegando agora, super bem-vinda, mas a gente tem que informar. E eu acredito muito que a imprensa hoje tem uma função especial: derrubar fake news. As redes sociais criaram uma “imprensa alternativa”, muitas vezes é boa e muitas vezes maligna, porque você não tem como checar. Então a imprensa hoje virou pra mim a dona da verdade, não gosto nem de usar essa palavra, mas onde você pode checar os fatos, porque você recebe as informações mais malucas possíveis e hoje é que você vai buscar hoje? Na imprensa especializada. Então eu acho que ela tem o papel hoje de trazer verdade, de trazer o fato real nesse tumulto de informações que a gente está vivendo de vacina virar dragão, de chip chinês… Isso é pra área de dramaturgia, eu vou contratar o pessoal do governo federal pra fazer uma peça pra mim, vai ser um sucesso! (risos).

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